


OS PRIMEIROS DIAS EM DARKOVER
Darkover, o mundo do mistrio, de estranhas inteligncias, o planeta das quatro luas e do sol vermelho, um lugar de poderes desconhecidos, surge como uma sinistra ameaa  sobrevivncia dos homens e mulheres da Terra que seguiam numa nave estelar para a colnia de Coronis e foram desviados do seu curso por uma tempestade espacial, indo parar num canto remoto da galxia.

Este romance, da srie de fico cientfica de Darkover, conta a histria dos primeiros dias da humanidade no novo planeta, sofrendo o impacto do Vento Fantasma, as correntes psquicas que s ali existiam, e do preo que cada homem e mulher teve de pagar antes de poder assumir aquele estranho mundo como seu lar.


A CHEGADA EM DARKOVER
Marion Zimmer Bradley
Eles deixaram uma Terra superpovoada e poluda para colonizar novos mundos, povoar planetas de estrelas distantes j devidamente estudados e preparados por expedies preliminares. Mas no caminho a nave sofreu um acidente e eles foram parar em Darkover, um planeta misterioso, repleto de maravilhas, cuja descoberta provocaria terrveis choques.

Neste livro, Marion Zimmer Bradley relata o incio da saga da humanidade em Darkover, uma srie de fico cientfica que se tornou um sucesso espetacular no mundo inteiro.

Havia uma possibilidade de que eles pudessem reparar a nave estelar e seguir para o destino original, a colnia de Coronis.
At que o Vento Fantasma comeou a soprar...

Havia uma possibilidade de que pudessem construir ali, naquele estranho planeta, uma sociedade segura,  imagem e semelhana da que haviam conhecido na Terra.
At que o Vento Fantasma soprou...

Havia uma possibilidade de que pudessem ser a espcie mais inteligente naquele mundo, do qual se tornariam os senhores e mestres.

At que o Vento Fantasma soprou...
Mas enquanto no aceitassem e absorvessem o Vento Fantasma, que tanto mudava as pessoas e revelava os seus pensamentos e desejos mais ntimos, eles nunca seriam aceitos naquele mundo.

Pois assim era Darkover.




Marion Zimmer Bradley




(Srie Fico e Experincia Interior)
Direo de JAYME SALOMO
MAGO EDITORA
- Rio de Janeiro -

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Bradley, Marion Zimmer
B79c           A chegada em Darkover / Marion Zimmer Bradley; traduo Alfredo Barcellos Pinheiro de Lemos. - Rio de Janeiro: Imago Ed., 1989.
(Darkover) (Srie Fico e experincia interior) 
Traduo de: Darkover landfall. 
ISBN 85-312-0081-4
1. Fico estadunidense. I. Lemos, A. B. Pinheiro de. II. Ttulo. III. Srie. IV. Srie. (Fico e experincia interior).
CDD-813
CDU - 820(73)-3
89-0789


Ttulo Original DARKOVER LANDFALL

Copyright (c) 1972, by Marion Zimmer Bradley
Published by agreement with Scott Meredith Literary Agency Inc.,
845 Third Avenue, New York, N.Y., 10022
Copirraite da traduo (c) 1989, Imago Editora
Proibida a exportao para Portugal

Traduo: Alfredo B. Pinheiro de Lemos Copidesque: Angela Castello Branco 
Reviso: Jorge Luiz Luz de Carvalho
   Marcos Jos Cunha
           Maira Parulla 
Capa: Cassol

Direitos adquiridos por IMAGO EDITORA LTDA.
Rua Santos Rodrigues, 201-A - Estcio
CEP 20250 - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: 293-1092

Todos os direitos de reproduo, divulgao e traduo so reservados.
Nenhuma parte desta obra poder ser reproduzida por fotocpia,
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Impresso no Brasil
Printed in Brazil



DARKOVER, a srie de fico cientfica de sucesso espetacular no mundo inteiro, a saga da humanidade criando uma nova civilizao num mundo estranho, diferente de tudo o que jamais existiu na Terra. Cada livro constitui uma histria completa e independente, o conjunto relatando o desenvolvimento de uma sociedade nova e fascinante.

A Fundao:
A CHEGADA EM DARKOVER

A Era do Caos:
RAINHA DA TEMPESTADE
DAMA DO FALCO

Os Cem Reinos: 
DOIS PARA CONQUISTAR

As Renunciantes (Livres Amazonas):
A CORRENTE PARTIDA
A CASA DE THENDARA
CIDADE DA MAGIA

Contra os Terrqueos -A Primeira Era (Recontato):
A ESPADA ENCANTADA
A TORRE PROIBIDA

Contra os Terrqueos-A Segunda Era (Depois do Comyn):
A HERANA DE HASTUR
O EXLIO DE SHARRA
















AGRADECIMENTOS
As canes citadas no texto da Comuna das Novas Hbridas so
todas de Songs ofthe Hebrides, coletadas por Marjorie Kennedy-Fraser e publicadas em 1909 e 1922 por Baosey and Hawkes. The Seagull of the Land-Under-Waves, letra em ingls do galico de Kenneth MacLeod. Caristiona, cano tradicional, verso para o ingls de Kenneth MacLeod. The Fairy' s Love Song, verso para o ingls de James Hogg (adaptao). The Mull-Fisher's Song, verso para o ingls de Marjorie Kennedy-Fraser. The Coolins ofRum, verso para o ingls de Elfrida Rivers, com permisso especial.

CAPITULO
UM
O trem de pouso era a menor das preocupaes, o que no impedia que constitusse um problema srio para entrar e sair. A grande nave estelar estava inclinada num ngulo de quarenta e cinco graus, com as escadas e rampas de sada longe do solo, as portas no dando para parte alguma. Nem todos os danos haviam sido avaliados at agora, mas j dava para calcular que metade dos alojamentos da tripulao e trs quartos das sees de passageiros se encontravam inabitveis.

Meia dzia de abrigos toscos, alm do hospital de campanha, parecido com uma tenda, j haviam sido erguidos s pressas na grande clareira. Eram feitos, na maior parte, com folhas de plsticos e toras das rvores resinosas locais, cortadas com motoserras e preparadas com equipamentos de carpintaria do estoque de reserva para os colonos. Tudo isso acontecera sob os protestos veementes do Comandante Leicester; ele s cedera por causa de um detalhe tcnico. Suas ordens eram absolutas quando a nave viajava pelo espao; num planeta, a Fora de Expedio Colonial assumia o comando.

O fato de que aquele no era o planeta certo no passava de um detalhe que ningum se sentira capaz de enfrentar. . . por enquanto.

Era um belo planeta, refletiu Rafael MacAran, parado no pico baixo por cima da espaonave acidentada. Isto , o que se podia ver e que no era muita coisa. A gravidade era um pouco menor que a da Terra e a taxa de oxignio um pouco mais alta, o que acarretava um certo sentimento de bem-estar e euforia para qualquer pessoa nascida e criada na Terra. Ningum criado na Terra no sculo XXI, como Rafael MacAran, jamais cheirara um ar to agradvel e resinoso, jamais vira colinas distantes atravs de uma manh to clara.

As colinas e montanhas ao longe erguiam-se ao redor, num panorama aparentemente interminvel, serra aps serra, perdendo a cor pouco a pouco com a distncia, tornando-se primeiro de um verde fosco, depois azul ainda mais fosco, passando para violeta e prpura. O sol enorme era de um vermelho profundo, a cor de sangue derramado; e naquela manh eles haviam visto as quatro luas, como pedras multicores, pairando sobre os picos das montanhas distantes.

MacAran largou a mochila no cho, tirou o telescpio meridiano e comeou a armar o trip. Inclinou-se para ajustar o instrumento, enxugando o suor da testa. Como parecia quente, depois do frio brutal da noite anterior, a neve sbita que viera das montanhas to depressa que mal tiveram tempo para se abrigarem! E agora a neve derretia em crregos, enquanto ele tirava o parka de nilon e enxugava o rosto.

Ele empertigou-se, olhando ao redor  procura de horizontes convenientes. J sabia, graas ao novo modelo de altmetro, que podia compensar as diferentes foras de gravidade, que se encontravam a cerca de trezentos metros acima do nvel do mar... ou o que seria o nvel do mar, se houvesse algum mar naquele planeta, do que ainda no podiam ter certeza. Na tenso e perigos do pouso forado, s a Terceira Oficial tivera uma viso ntida do planeta l do espao, mas ela morrera vinte minutos depois do impacto, enquanto ainda retiravam corpos dos destroos da ponte de comando.

Sabiam que havia trs planetas naquele sistema: um enorme, um gigante de metano congelado, outro pequeno, rochoso e rido, mais lua do que planeta, a no ser por sua rbita solitria, e aquele onde haviam pousado. Sabiam tambm que aquele era o que as Foras Expedicionrias da Terra chamavam de um planeta da Classe M - mais ou menos do tipo da Terra e provavelmente habitvel. E agora sabiam que se encontravam ali. Isso era praticamente tudo o que sabiam a respeito, alm do que haviam descoberto nas ltimas setenta e duas horas. O sol vermelho, as quatro luas, os extremos de temperatura, as montanhas, tudo o que se pudera constatar nos intervalos frenticos de remover e identificar os mortos, montar s pressas um hospital de campanha e recrutar todas as pessoas em condies para cuidar dos feridos, sepultar os mortos e erguer os abrigos, enquanto a nave ainda era habitvel.

Rafael MacAran comeou a tirar os instrumentos de medio da mochila, mas no lhes deu muita ateno. Precisava daquele breve intervalo sozinho mais do que imaginara; era algum tempo para se recuperar dos repetidos e terrveis choques das ltimas horas - o desastre e uma concusso que o levaria para um hospital na Terra apinhada e hipersensvel aos problemas mdicos. Ali, o oficial-mdico, preocupado com ferimentos piores, testara seus reflexos rapidamente, entregara-lhe algumas plulas para dor de cabea e fora cuidar dos gravemente feridos e agonizantes. Sua cabea ainda parecia sofrer com uma terrvel dor de dente, mas a viso turva melhorara depois da primeira noite de sono. No dia seguinte ele fora convocado, junto com todos os homens aptos que no pertenciam s equipes mdica e de engenharia da nave, para escavar sepulturas coletivas para os mortos. E houvera ento o choque angustiante de encontrar Jenny entre os cadveres.

Jenny... Pensava que ela se encontrava s e salva, absorvida demais em seu trabalho para procur-lo e tranquiliz-lo. E depois o corpo mutilado, os inconfundveis cabelos prateados de sua nica irm. No houvera tempo sequer para lgrimas. Havia mortos demais. Ele fizera a nica coisa que podia. Comunicara a Camilla Del Rey, representando o Comandante Leicester na equipe encarregada de determinar as identidades, que o nome de Jenny MacAran deveria ser transferido da lista de sobreviventes no localizados para a lista de mortos identificados sem qualquer dvida.

O nico comentrio de Camilla fora um lacnico "Obrigada, MacAran". No havia tempo para compaixo, no havia tempo para lamentar ou sequer para manifestaes humanas de bondade. E, no entanto, Jenny fora a melhor amiga de Camilla, amara sinceramente aquela miservel moa Del Rey como a uma irm - Rafael nunca entendera por qu, mas a verdade  que Jenny amara Camilla e por isso devia haver alguma razo. Ele sabia, em algum lugar abaixo da superfcie, que esperara que Camilla derramasse por Jenny as lgrimas que o prprio irmo ainda no fora capaz de chorar. Algum devia chorar por Jenny, e ele ainda no conseguira. Ainda no.

MacAran tornou a se concentrar nos instrumentos. Seria mais fcil se conhecessem sua latitude exata no planeta, e a altura do sol por cima do horizonte poderia proporcionar uma noo aproximada.

L embaixo, numa vasta depresso com pelo menos oito quilmetros de extenso, cheia de mato baixo e pequenas rvores, estava a espaonave avariada. Observando  distncia, Rafael experimentou um estranho sentimento de depresso. O Comandante Leicester deveria estar trabalhando com a tripulao para avaliar os danos e calcular o tempo necessrio para os reparos. Rafael nada sabia sobre o funcionamento de naves estelares - sua especialidade era a geologia. Mas a sua impresso era a de que aquela nave nunca mais iria a parte alguma.

E depois ele tratou de desligar o pensamento. Cabia ao pessoal da engenharia dizer isso. Eles  que sabiam, no Rafael MacAran. J testemunhara alguns quase-milagres realizados pela engenharia. Na pior das hipteses, haveria um intervalo desconfortvel de uns poucos dias ou semanas, depois partiriam de novo, um novo planeta habitvel estaria localizado nos mapas estelares das Foras Expedicionrias para colonizao. Apesar do frio terrvel  noite, aquele planeta parecia extremamente habitvel. Talvez at pudessem partilhar a comisso de descobridor, o que serviria para melhorar a situao da colnia Coronis, onde estariam ento.

E teriam alguma coisa para falar quando se tornassem velhos colonos em Coronis, daqui a cinqenta ou sessenta anos.

Mas se a nave nunca mais puder levantar vo. . .

Impossvel. Aquele no era um planeta mapeado, aberto  colonizao. A colnia Coronis - Phi Coronis Delta - j era um prspero povoado mineiro. Havia um espaoporto em operao e uma equipe de engenheiros e tcnicos vinha trabalhando ali h dez anos, preparando o planeta para a colonizao e estudando sua ecologia. Ningum podia se instalar, de maneira improvisada e sem a ajuda da tecnologia, num mundo completamente desconhecido. No era possvel.

De qualquer forma, isso era trabalho de outro, e o melhor era ele cuidar de sua parte agora. Fez todas as observaes que podia, registrou-as no caderninho de anotaes, recolheu os equipamentos e comeou a descer a encosta. Deslocava-se com facilidade pelo caminho rochoso, atravs do mato baixo e das rvores, carregando a mochila sem esforo na gravidade mais leve. Era mais agradvel e mais fcil do que uma excurso na Terra. Rafael lanou um olhar ansioso para as montanhas distantes. Talvez, se permanecessem ali por mais uns poucos dias, poderiam dispens-lo para uma rpida escalada ali. Amostras de rochas e algumas verificaes geolgicas deveriam valer alguma coisa para as Foras Expedicionrias da Terra; alm disso, seria muito melhor do que uma expedio de montanhismo na Terra, onde todos os parques nacionais, do Yellowstone ao Himalaia, ficavam atulhados com turistas levados por jatos, durante trezentos dias do ano.

Ele achava que era justo oferecer a todos uma oportunidade de alcanar as montanhas. Sem dvida as cremalheiras e telefricos instalados para o topo do Monte Rainier, Everest e Whitney permitiam o acesso das velhas e crianas que queriam contemplar a paisagem l de cima, mas ainda assim MacAran sonhava em escalar uma montanha em estado selvagem... sem nenhum meio mecnico de subida! Claro que j escalara montanhas na Terra, mas qualquer um sentia-se meio tolo ao fazer o maior esforo para subir por um penhasco rochoso, enquanto adolescentes passavam sem esforo num telefrico, rindo do anacrnico que preferia chegar ao cume pelo modo mais difcil.

Algumas das encostas mais prximas estavam enegrecidas pelas marcas de antigos incndios florestais e ele calculou que a clareira em que a nave cara tinha a vegetao nova depois de um incndio, que deveria ter ocorrido h alguns anos. Por sorte os sistemas de preveno de incndio da nave haviam evitado qualquer fogo no impacto, caso contrrio quem escapasse com vida poderia literalmente estar saltando de uma frigideira para um devastador incndio florestal. Precisavam tomar cuidado com isso. O pessoal da Terra perdera os hbitos antigos de vida na floresta e talvez no tivesse conscincia do que podia acontecer com fogo no mato. Ele fez um registro mental para incluir o alerta em seu relatrio.

Ao retornar  rea do acidente, sua breve euforia desvaneceu-se. Podia avistar no interior do hospital de campanha, atravs do material plstico semitransparente, fileiras e mais fileiras de corpos inconscientes ou semi-inconscientes. Alguns homens cortavam galhos de rvores e outros erguiam um domo de dimaxion - do tipo que se pode construir em meio dia, com um suporte triangular. MacAran comeou a especular qual teria sido o relatrio do pessoal da engenharia. Avistou alguns mecnicos se movimentando nas proximidades dos suportes da nave estelar, mas parecia que ainda no se fizera muita coisa. Mais do que isso, a impresso era a de que no se devia acalentar a esperana de sair dali to cedo.

Um jovem com um uniforme manchado e amarrotado da equipe mdica saiu do hospital de campanha no momento em que ele passava e chamou-o:

-  Rafe! O imediato mandou voc se apresentar no Primeiro Domo assim que voltasse. . . h uma reunio l e querem a sua presena. Tambm vou, para apresentar um relatrio mdico... sou o mais antigo que eles podem dispensar.

Ele foi andando ao lado de MacAran. Era baixo e franzino, com cabelos castanho-claros e uma barba crespa aparada, parecia cansado, como se no tivesse dormido. MacAran indagou, hesitante:

- Como esto as coisas no hospital?
- No houve mais mortes desde a meia-noite e conseguimos tirar mais quatro pessoas do estado crtico.  evidente que, no final das contas, no houve um vazamento do combustvel atmico... aquela moa da intendncia no tinha queimaduras de radiao e o vomito obviamente foi apenas uma pancada no plexo solar. Graas a Deus pelos pequenos favores... se houvesse um vazamento atmico, provavelmente estaramos todos mortos e mais um planeta ficaria contaminado.
-  verdade. A propulso M-AM tem salvado muitas vidas. Voc parece muito cansado, Ewen...  dormiu em algum momento?

Ewen Ross sacudiu a cabea.
- No, mas o Velho foi generoso com os estimulantes e ainda estou a pleno vapor. Mais ou menos no meio da tarde vou arriar e no acordarei por trs dias, mas at l continuarei a agentar firme. - Ele hesitou, olhou timidamente para o amigo. - Eu soube de Jenny, Rafe. Uma coisa terrvel. Tantas mulheres de seu setor escaparam que eu estava convencido de que ela igualmente se salvara.
- Eu tambm. - MacAran respirou fundo e sentiu o ar puro como um enorme peso em seu peito. - No vi Heather... ela...
- Heather est bem; foi requisitada para o servio de enfermagem. No sofreu um nico arranho. Ouvi dizer que depois da reunio vo apresentar as listas completas dos mortos, feridos e sobreviventes. Mas o que voc estava fazendo? Del Rey me disse que fora enviado numa misso, mas no explicou qual era.
- Um levantamento preliminar. No temos a menor idia de nossa latitude, do tamanho ou massa do planeta, do clima, estaes ou qualquer outra coisa. Mas verifiquei que no devemos estar muito longe do equador e... bem, farei meu relatrio na reunio. Vamos entrar direto?
- Vamos, sim. Ser no Primeiro Domo.

Sem perceber, Ewen pronunciara as palavras como se fossem iniciadas por letras maisculas. MacAran refletiu como era tpico do ser humano definir a locao e orientao imediatamente. Ali estava h trs dias e o primeiro abrigo j se tornara o Primeiro Domo, o abrigo de campanha para os feridos era o Hospital.

No havia assentos no interior do domo de plstico, mas algumas lonas e caixas de suprimentos vazios haviam sido espalhadas e algum providenciara uma cadeira dobrvel para o Comandante Leicester. Camilla Del Rey sentava ao seu lado numa caixa, com uma tbua e um bloco de anotaes nos joelhos. Era uma jovem alta e esguia, com um talho comprido e irregular na face, de cabelos escuros, presos com grampos de plstico. Vestia o uniforme de trabalho de uma tripulante, mas tirara a parte superior, que parecia um parka, tinha apenas uma camisa de algodo por baixo, aderindo ao corpo. MacAran apressou-se em desviar os olhos dela... mas no  possvel, como ela pode se mostrar no que equivale s roupas de baixo na frente de metade do pessoal! E numa ocasio como esta no  decente. . . Mas depois, observando o rosto ferido e contrado da jovem, ele absolveu-a. Del Rey sentia calor - estava muito quente ali dentro agora - e, afinal de contas, se encontrava de servio, portanto, tinha o direito de ficar o mais confortvel possvel.

Se algum est fora da linha aqui sou eu, olhando para uma mullher desse jeito nas circunstncias. . .

Estresse. Isso  tudo. H muitas coisas que no  seguro pensar ou lembrar...

O Comandante Leicester levantou a cabea grisalha. Ele parece com a morte, pensou MacAran. Provavelmente tambm no dorme desde o acidente. Leicester perguntou a Del Rey:

- Esto todos aqui?
- Acho que sim.

O comandante comeou:

- Senhoras e senhores, no vamos perder tempo com formalidades, e durante esta emergncia os protocolos de etiqueta esto suspensos. Como meu oficial de registros est no hospital, a Oficial Del Rey concordou gentilmente em tomar seu lugar nesta reunio. Em primeiro lugar, convoquei-os para esta reunio, um representante de cada grupo, a fim de que possam falar com seu pessoal sobre o que est acontecendo com a devida autoridade, reduzindo com isso o crescimento de rumores e comentrios desinformados sobre a nossa situao. E onde quer que haja mais de vinte e cinco pessoas reunidas, pelo que me lembro dos meus tempos em Pensacola, os rumores e comentrios desinformados comeam imediatamente. Portanto, todos devem obter suas informaes aqui, em vez de se basearem no que algum disse ao melhor amigo de algum h poucas horas ou o que algum ouviu no refeitrio. . . entendido? Engenharia; vamos comear por voc. Qual  a situao dos propulsores?

O engenheiro-chefe - seu nome era Patrick, mas MacAran no o conhecia pessoalmente - levantou-se. Era alto e magro, parecido com o heri folclrico Lincoln.

- Pssima - ele respondeu laconicamente. - No estou dizendo que no podem ser reparados, mas a sala de propulso est toda arrebentada. D-nos uma semana para fazer um levantamento e poderemos calcular quanto tempo levar para consertar os propulsores. Depois de removidos os escombros, eu diria. . . trs semanas a um ms. Mas no gostaria que meu salrio de um ano dependesse do acerto dessa previso.
- Mas podem ser reparados? - insistiu Leicester. - No esto irremediavelmente destrudos?
- Creio que no... e  melhor que isso no tenha acontecido! - disse Patrick. - Talvez precisemos procurar combustveis, mas no haver problemas com o grande conversor, pois qualquer tipo de hidro-carboneto servir. . . at celulose. Isso  para a converso de energia nos sistemas de manuteno da vida,  claro; os propulsores propriamente ditos funcionam com imploses de antimatria.

Ele entrou em detalhes tcnicos, mas antes que MacAran ficasse irremediavelmente perdido foi interrompido por Leicester.

- No precisa entrar em detalhes, Chefe. O importante  que est dizendo que podem ser reparados, num prazo de trs a seis semanas, uma estimativa preliminar. Oficial Del Rey, qual  a situao na ponte de comando?
- Os mecnicos esto l agora, Comandante, usando maaricos para cortar o metal retorcido. O painel do computador est completamente avariado, mas os bancos principais esto intactos, assim como o sistema de biblioteca.
- Quais so os piores danos ali?
- Precisaremos de novos assentos e correias em toda a cabine de comando. . . os mecnicos podem resolver esse problema. E  claro que teremos de reprogramar nosso destino a partir da nova posio, mas isso deve ser bastante simples com os sistemas de navegao, depois de determinarmos exatamente onde nos encontramos.
- Quer dizer que tambm no h nada de irremedivel ali?
- Na verdade, Comandante, ainda  muito cedo para afirmar qualquer coisa, mas eu diria que no. Talvez seja apenas um desejo meu, mas ainda no perdi as esperanas.
- Bom, parece que neste momento as coisas no esto to ruins quanto poderiam ser - comentou o Comandante Leicester. - Desconfio que todos tendemos a encarar a situao pelo lado mais sombrio. O que talvez seja bom; qualquer coisa melhor do que o pior ser uma agradvel surpresa. Onde est o Dr. Di Asturien?

Ewen Ross levantou-se.

- O Chefe achou que seria melhor no se ausentar do seu comando agora, senhor; tem uma equipe trabalhando para salvar todos os suprimentos mdicos restantes. Mandou-me em seu lugar. No houve muitas mortes e todos os mortos j esto enterrados. No h at agora nenhum sinal de qualquer doena inslita de origem desconhecida, mas ainda estamos examinando o ar e amostras do solo e assim continuaremos, a fim de classificar bactrias conhecidas e desconhecidas. Alm disso. . .
- Continue.
- O chefe quer que sejam dadas ordens para que s se usem as reas de latrina determinadas, Comandante. Ressaltou que estamos carregando todas as espcies de bactrias em nossos prprios corpos que podem afetar a flora e fauna locais.  possvel desinfectar as reas de latrina meticulosamente. . . mas devemos tomar precaues para no infectar as reas externas.
- Ele tem toda razo - concordou Leicester. - Mande algum afixar as ordens, Del Rey. E ponha um homem da segurana para fazer com que todos saibam onde esto as latrinas e as usem. Ningum pode urinar no mato s porque est l e no h leis contra isso.
- Uma sugesto, Comandante - disse Camilla Del Rey. - Pea aos cozinheiros para fazerem a mesma coisa com o lixo, pelo menos por algum tempo.
- Desinfect-lo? Uma boa idia. Lovat, qual  a situao do sintetizador de alimentos?
- Acessvel e funcionando, senhor, pelo menos temporariamente. Mas talvez no seja uma m idia verificar os suprimentos nativos de alimentos e ter certeza de que podemos comer os frutos e razes locais, se for necessrio. Se o sintetizador pifar de repente. . . pois no foi projetado para funcionar por longos perodos em gravidades planetrias. . . ser tarde demais para comear a testar a vegetao local. - Judith Lovat, baixa e vigorosa, quase chegando aos quarenta anos, com o emblema verde dos sistemas de manuteno da vida na bata, olhou para a porta do domo. - O planeta parece ter florestas amplas; deve haver alguma coisa que possamos comer, com esse sistema de oxignio-nitrognio do ar. A clorofila e a fotossntese parecem ser praticamente iguais em todos os planetas do tipo M e o produto final  geralmente alguma forma de carboidrato com aminocidos.
- Mandarei um botnico trabalhar nisso imediatamente - declarou o Comandante Leicester. - E agora  a sua vez, MacAran. Descobriu alguma informao til do alto da colina?

MacAran levantou-se.

- Eu poderia descobrir se tivssemos pousado nas plancies. . . presumindo que haja alguma neste planeta. . . mas mesmo assim obtive alguns dados. Primeiro, estamos aqui a cerca de trezentos metros acima do nvel do mar e com toda certeza no hemisfrio norte, mas no a muitos graus de latitude alm do Equador, considerando que o Sol est alto no cu. Ao que tudo indica, estamos nos contrafortes de uma enorme cordilheira e as montanhas so bastante antigas para terem florestas. . . ou seja, no h vulces ativos aparentes e nenhuma montanha que parea ser o resultado de atividade vulcnica durante os ltimos milnios. No  um planeta jovem.
- Sinais de vida? - perguntou Leicester.
- Aves em abundncia. Pequenos animais, talvez mamferos, mas no tenho certeza. Mais espcies de rvores do que eu saberia identificar. Encontrei muitas que pareciam ser uma variedade de conferas, mas h outras e tambm alguns arbustos com sementes e bagas. Um botnico poder dizer muito mais. No h sinais de artefatos, porm, nenhum sinal de que qualquer coisa j tenha sido cultivada ou tocada. At onde posso determinar, o planeta no foi tocado por mos humanas... ou quaisquer outras. Mas  claro que podemos estar no meio do equivalente s estepes siberianas ou ao deserto de Gobi. . . muito longe dos centros habitados.

Ele fez uma pausa.

- Cerca de trinta quilmetros a leste daqui h um pico de montanha proeminente. . . no se pode deixar de perceb-lo. . . de onde seria possvel ter uma viso ampla e calcular uma estimativa da massa do planeta, mesmo sem instrumentos mais complexos. Tambm poderamos avistar rios, plancies, suprimentos de gua ou qualquer sinal de civilizao.

Camilla Del Rey interveio:

- No havia sinal de vida do espao.

Moray, o homem corpulento e moreno que era o representante das Foras Expedicionrias da Terra e assim estava no comando dos colonos, disse calmamente:

- Est querendo dizer que no havia sinais de uma civilizao tecnolgica, Oficial? Lembre-se de que at quatro sculos atrs uma nave estelar que se aproximasse da Terra tambm no veria qualquer sinal de vida inteligente ali.

O Comandante Leicester declarou bruscamente:

- Mesmo que haja alguma forma de civilizao pr-tecnolgica, isso  equivalente a nenhuma civilizao; e qualquer forma de vida que possa existir aqui, sapiente ou no, no  relevante para nossos objetivos. No poderiam nos prestar ajuda para reparar a nave e, desde que tomemos cuidados para no contaminar seus ecossistemas, no h motivo para abord-los e criar um choque cultural.
- Concordo com a ltima parte da declarao - disse Moray. - Mas gostaria de levantar uma questo que ainda no mencionou, Comandante. Tenho sua permisso?
- A primeira coisa que eu disse foi que estvamos suspendendo o protocolo durante a durao desta emergncia. . . pode falar.
- O que est sendo feito para verificar as condies de habitabilidade deste planeta, no caso de no ser possvel reparar os propulsores e ficarmos retidos aqui?

MacAran sentiu um momento de choque que o deixou paralisado e gelado, depois experimentou um sbito alvio. Algum se manifestara. Ele no era o nico a pensar nisso. E no fora a pessoa que levantara o problema. Mas no rosto do Comandante Leicester o choque no se dissipara; persistia, com uma clera fria e intensa.

- H bem pouca possibilidade de que isso venha a acontecer. Moray levantou-se lentamente.
- Ouvi o que sua tripulao disse, mas no estou muito convencido. Acho que devemos comear imediatamente a fazer um inventrio do que temos e do que existe aqui, para o caso de sermos obrigados a permanecer aqui em carter permanente.
- Impossvel! - protestou o Comandante Leicester, a voz rspida. - Est querendo insinuar que sabe mais do que a minha tripulao sobre a situao de nossa nave, Sr. Moray?
- No. Nada sei sobre naves estelares e tambm no estou interessado. Mas posso reconhecer destroos quando os vejo. E sei que pelo menos um tero de sua tripulao morreu, inclusive alguns tcnicos importantes. Ouvi a Oficial Del Rey dizer que achava. . . apenas achava. . . que o computador de navegao pode ser consertado, e sei que ningum pode navegar um propulsor M-AM no espao interestelar sem um computador. Temos de levar em considerao que a nave pode no ir para parte alguma. E, neste caso, ns tambm no iramos para parte alguma. A menos que tenhamos algum gnio que seja capaz de construir um satlite de comunicaes interestelares nos prximos cinco anos, com as matrias-primas locais e o punhado de pessoas que temos aqui, e que enviemos uma mensagem para a Terra ou para as colnias em Alfa Centauro ou Coronis, pedindo que venham buscar suas ovelhas perdidas.

Camilla Del Rey indagou em voz baixa:

- O que est tentando fazer, Sr. Moray? Desmoralizar-nos ainda mais? Assustar-nos?
- No. Estou tentando ser realista.

Fazendo um esforo para controlar a fria que congestionava seu rosto, Leicester disse:

- Creio que est ignorando as prioridades, Sr. Moray. Nossa primeira prioridade aqui  reparar a nave, e para isso talvez seja necessrio requisitar a participao de todos os homens, inclusive os passageiros de seu grupo de colonos. No podemos dispensar ningum para eventualidades remotas. Portanto, se isso foi um pedido, considere-o negado.

Moray no sentou.

- O que acontecer se daqui a seis semanas descobrirmos que no podemos recuperar a nave? Ou daqui a seis meses?

Leicester respirou fundo. MacAran pde perceber o cansao desesperado em seu rosto e o esforo para no deixar que transparecesse.

- Sugiro que esperemos para cruzar essa ponte se e quando a encontrarmos, Sr. Moray. H um velho provrbio que diz que basta a cada dia o seu mal. No acredito que um atraso de seis semanas far tanta diferena assim para nos resignarmos  falta de esperana e morte. Quanto a mim, tenciono viver e levar esta nave de volta para casa. E qualquer pessoa que iniciar uma conversa derrotista ter de se haver comigo. Estou sendo bastante claro?

Era evidente que Moray no estava satisfeito; mas alguma coisa o manteve quieto, talvez apenas a vontade do comandante. Ele sentou, de cara amarrada. Leicester puxou a prancheta de Camilla.

- Mais alguma coisa? Muito bem, creio que isso  tudo por enquanto, senhoras e senhores. As listas dos sobreviventes e feridos e suas condies sero afixadas esta noite. Pois no, Padre Valentine?
- Senhor, fui solicitado a celebrar uma missa de rquiem pelos mortos, no local das sepulturas coletivas. Como o capelo protestante morreu no acidente, eu gostaria de oferecer meus servios a qualquer pessoa, de qualquer f, que deseje aproveit-los para qualquer coisa.

O rosto do Comandante Leicester abrandou um pouco ao contemplar o jovem sacerdote, com o brao numa tipia, um lado do rosto todo enfaixado.

- Claro que pode realizar o servio, Padre. Sugiro que seja amanh, ao amanhecer. Encontre algum que possa erguer um memorial apropriado aqui; algum dia, talvez daqui a alguns sculos, este planeta possa ser colonizado, e eles devem saber o que aconteceu. Creio que  teremos tempo para isso.
- Obrigado, Comandante. E agora pode me dispensar? Preciso voltar ao hospital.
- Pois no, Padre, pode se retirar. E quem mais quiser sair agora est dispensado. . . a menos que haja mais alguma pergunta. . . Muito bem. - Leicester recostou-se na cadeira e fechou os olhos por um instante. - MacAran e Dra. Lovat, podem ficar por mais um momento, por favor?

MacAran adiantou-se lentamente, to surpreso que no sabia o que dizer; nunca falara antes com o comandante e no imaginava que Leicester o conhecesse sequer de vista. O que ele queria? Os outros deixavam o domo, um a um. Ewen tocou em seu ombro e sussurrou:

- Heather e eu estaremos na missa de rquiem, Rafe. Tenho de ir agora. Passe depois pelo hospital e deixe-me dar uma olhada nessa concusso. Paz, Rafe; at mais tarde!

O Comandante Leicester arriara na cadeira, parecia exausto e velho, mas empertigou-se um pouco quando Judith Lovat e MacAran se aproximaram.

- MacAran, seu currculo diz que tem alguma experincia de montanhas. Qual  a sua especialidade profissional?
- Geologia, senhor. Mas  verdade que j passei muito tempo em montanhas.
- Pois ento vou p-lo no comando de uma expedio de levantamento. Suba naquela montanha, se for possvel, descubra o que puder l de cima, calcule a massa do planeta e assim por diante. H algum meteorologista ou especialista em tempo no grupo de colonos?
- Creio que sim. O Sr. Moray pode informar com certeza.
- Provavelmente ser uma boa idia eu mesmo perguntar a ele. - O cansao de Leicester era to grande que ele quase murmurava. - Se pudermos prever como dever ser o tempo nas prximas semanas, poderemos determinar a melhor maneira de providenciar abrigo e tudo o que for necessrio para o pessoal. Alm disso, qualquer informao sobre o perodo de rotao e coisas assim dever ser valiosa para a Fora Expedicionria. E... Dra. Lovat... descubra um zologo e um botnico, de preferncia entre os colonos, mande-os junto com MacAran. Para o caso do sintetizador de alimentos parar. Eles podem fazer testes e colher amostras.
- Posso sugerir que seja enviado tambm um bacteriologista, se houver algum disponvel? - indagou Judith.
- Boa idia. S no quero que as equipes de reparos fiquem desfalcadas, MacAran, mas requisite o que precisar. Gostaria de levar mais algum?
- Um tcnico mdico ou pelo menos um enfermeiro - respondeu MacAran. - Algum sempre pode cair numa fenda ou ser mastigado pelo equivalente local do Tyrannosaurus rex.
- Ou ser infectado por algum terrvel inseto local - acrescentou Judith. - Eu deveria ter pensado nisso antes.
- Est certo, se o mdico-chefe puder dispensar algum - disse Leicester. - S mais uma coisa. A Primeira Oficial Del Rey vai acompanh-lo.
- Posso saber para qu? - perguntou MacAran, um pouco surpreso. - No que sua companhia no seja bem-vinda, mas pode ser uma excurso bastante rdua para uma mulher. No estamos na Terra e as montanhas aqui no tm telefricos.

A voz de Camilla, quando ela falou, era baixa e um pouco rouca. MacAran no pde deixar de especular se seria em conseqncia da dor e choque ou se esse era o seu tom natural.

- Comandante,  evidente que MacAran no sabe do pior. O que sabe ao certo a respeito do acidente e sua causa?

MacAran deu de ombros.

- Rumores e os comentrios habituais. Com certeza, apenas que as campainhas de alarme comearam a soar, fui para uma rea de segurana... ou assim se pensava - ele acrescentou, amargurado, recordando o corpo mutilado de Jenny -, e a prxima coisa de que tomei conhecimento foi que me tiravam do compartimento e me levavam por uma escada. E ponto final.
- Aqui esto os fatos. No sabemos onde estamos. Nem mesmo sabemos que Sol  este. No temos sequer noo do agrupamento de estrelas.  Fomos desviados do curso por uma tempestade gravitacional...  o termo leigo, no perderei tempo em explicar o que a causa. Perdemos o equipamento de orientao com o primeiro choque, tivemos de localizar o sistema estelar mais prximo com um planeta potencialmente habitvel e pousar as pressas. Por isso, preciso fazer algumas observaes astronmicas, se for possvel, e localizar algumas estrelas conhecidas... posso fazer isso com registros espectroscpicos. Com isso, serei capaz de triangular nossa posio no Setor Galctico e realizar pelo menos parte da reprogramao do computador, a partir da superfcie deste planeta.  mais fcil efetuar observaes astronmicas de uma altitude em que o ar seja rarefeito. Mesmo que eu no chegue ao pico da montanha, cada trezentos metros de altitude a mais vai me proporcionar uma oportunidade melhor de observaes acuradas.

A jovem tinha uma expresso sria e solene, e MacAran compreendeu que ela reprimia o medo com sua atitude deliberadamente didtica e profissional.

- So esses os motivos pelos quais deve me levar em sua expedio. Sou forte e resistente, no receio uma marcha longa e rdua. Mandaria meu assistente de bom grado, mas ele sofreu queimaduras em mais de trinta por cento da superfcie do corpo e mesmo que se recupere... o que ainda no  certo. . . no poder ir a lugar algum por muito tempo. E, infelizmente, no h mais ningum que saiba tanto quanto eu sobre navegao e geografia galctica. Por isso, tenho de confiar em minhas prprias observaes mais do que nas de qualquer outro.

MacAran deu de ombros. No era um macho chauvinista, e se a jovem estava convencida de que poderia agentar as longas marchas da expedio, ento era provvel que conseguisse.

- Est certo - disse ele. - A deciso  sua. Precisaremos de raes para quatro dias no mnimo; e se seu equipamento for pesado,  melhor providenciar algum para carreg-lo, pois todos os outros estaro levando seus prprios instrumentos cientficos.

Ele fez uma pausa, olhando para a blusa que aderia mida  parte superior do corpo de Del Rey, antes de acrescentar, um pouco spero:

- E trate de providenciar agasalhos, se no quiser pegar uma pneumonia.

Ela ficou surpresa, confusa, depois subitamente irritada. Arregalou os olhos, mas MacAran j a esquecera e disse ao comandante:

- Quando quer que comecemos? Amanh?
- No. Muitos de ns ainda no dormiram o suficiente. - Leicester emergiu do que parecia ter sido um cochilo angustiado. - Veja como eu estou... e metade da minha tripulao se encontra na mesma situao. Vou mandar que todos durmam esta noite,  exceo de meia dzia de sentinelas. Amanh dispensarei a todos para os servios fnebres pelos mortos, menos as equipes de trabalhos bsicos. H ainda muito trabalho de inventrio e salvao a fazer. Podem partir. . . daqui a dois ou trs dias. Tem alguma preferncia por algum da equipe mdica?
- Posso ter Ewen Ross, se o chefe puder dispens-lo?
- Por mim, est certo.

Leicester tornou a arriar na cadeira, visivelmente adormecido, por uma frao de segundo. MacAran murmurou:

- Obrigado, senhor.

Ele virou-se. Camilla Del Rey ps a mo de leve em seu ombro.

- No se atreva a julg-lo - disse ela, em voz baixa, furiosa. - Ele se mantm de p desde dois dias antes do acidente, tomando estimulantes, e no tem mais idade para isso. Cuidarei para que ele durma vinte e quatro horas seguidas, nem que tenha de calar todo o acampamento!

Leicester tornou a se empertigar.

- ...No estava dormindo - ele declarou, com firmeza. - Mais alguma coisa, MacAran, Lovat?

MacAran murmurou um respeitoso "No, senhor" e retirou-se, deixando o comandante entregue ao descanso, velado pela primeira oficial como - a imagem provocou-lhe um choque - uma tigresa zelando por seu filhote. Ou pelo velho leo? Mas, no final das contas, por que ele haveria de se importar?

CAPITULO
DOIS

A maior parte da seo de passageiros estava inundada pela espuma de preveno de incndio ou cheia de leo e perigosa; por isso o Comandante Leicester dera ordens para que todos os membros da expedio recebessem uniformes de superfcies, os trajes quentes e imermeveis que os tripulantes da espaonave usavam quando visitavam um planeta estranho. Haviam sido avisados que deveriam estar prontos logo depois do amanhecer e ali se encontravam, carregando mochilas com raes, instrumentos cientficos e equipamentos improvisados para acampamento. MacAran ficou esperando por Camilla Del Rey, que dava as ltimas instrues para um tripulante da ponte de comando.

- As horas para o nascer e pr-do-sol so to exatas quanto podemos determinar e voc tem os registros precisos de azimute para a direo do nascente. Podemos ter de calcular o meio-dia. Mas todos os dias, ao pr-do-sol, acenda a luz mais forte da nave nessa direo e a mantenha por dez minutos. Assim poderemos definir uma linha de direo para o lugar a que vamos e determinar o leste e o oeste. E j sabe da importncia dos registros de ngulo com o sol a pino.

Ela virou-se e deparou com MacAran parado por trs. E disse, muito compenetrada:

- Estou obrigando-o a esperar? Lamento, mas deve compreender a necessidade de registros acurados.
- Concordo plenamente - respondeu MacAran. - E por que se desculpar?  superior a todos nesta expedio, no  mesmo?

Ela franziu as sobrancelhas delicadas.

- Ah,  isso o que o est preocupando? Para dizer a verdade, no. Sou superior apenas na ponte de comando. O Comandante Leicester entregou a voc o comando da expedio, e pode estar certo de que me sinto muito contente por isso. Provavelmente sei tanto sobre montanhismo quanto voc sobre navegao celestial... se  que tanto. Fui criada na colnia Alfa e sabe como so os desertos por l.

MacAran sentiu-se bastante aliviado... e ao mesmo tempo irritado. Aquela mulher era perceptiva demais! Claro que atenuaria as tenses se no tivesse de pedir a ela como oficial superior para transmitir as ordens - ou sugestes - sobre a viagem. Mas persistia o fato de que ela conseguira de certa forma faz-lo sentir-se intrometido, desajeitado e tolo.

- Podemos partir assim que estiver pronta - disse ele. - Temos uma longa caminhada pela frente, em terreno bastante acidentado.  melhor comearmos logo.

Ele se encaminhou para o lugar em que o resto do grupo se reunia, efetuando um levantamento mental. Ewen Ross carregava uma boa parte do equipamento astronmico de Camilla Del Rey, j que seu equipamento mdico era leve, como ele prprio admitia. Heather Stuart, vestindo como os outros um uniforme de superfcie, conversava em voz baixa com Ewen. MacAran pensou, um tanto irnico, que devia ser amor quando sua garota levantava-se quela hora horrvel para se despedir. A Dra. Judith Lovat, baixa e forte, tinha um sortimento de pequenas caixas de amostras preso no ombro. Ele no conhecia os outros dois que esperavam de uniforme e foi fazer um contato antes de partirem.

- J nos vimos nas salas de recreao, mas creio que no os conheo. Voc ...

O primeiro homem, alto, nariz aquilino e moreno, de trinta e poucos anos, respondeu:

- Marco Zabal. Xenobotnico. Estou indo a pedido da Dra. Lovat. Estou acostumado a montanhas. Fui criado no Pas Basco e participei de expedies ao Himalaia.
-  um prazer t-lo conosco. - MacAran apertou a mo do homem. Ajudaria muito contar com algum que conhecia montanhas. - E voc?
- Lewis MacLeod. Zologo, especialista em veterinria.
- Tripulante ou colono?
- Colono. - MacLeod sorriu. Era baixo, gordo, a pele clara. - E antes que pergunte, no tenho nenhuma experincia formal de montanhismo. . . mas fui criado nas Terras Altas escocesas e at hoje ainda  preciso se andar muito por l para chegar a qualquer lugar, e h mais terreno vertical do que horizontal.
- Isso ajuda e muito - disse MacAran. - E agora que estamos todos prontos... Ewen, d um beijo de despedida em sua namorada e vamos partir.

Heather soltou uma risada, virou-se e empurrou para trs o capuz do uniforme; era baixa, esguia e delicada, parecia ainda menor no uniforme de alguma mulher maior.

- Deixe disso, Rafe. Tambm vou. Sou microbiloga e estou encarregada de recolher amostras para o mdico-chefe.
- Mas... - MacAran franziu o rosto, em confuso. Podia compreender por que Camilla devia participar da expedio, pois era mais qualificada para seu trabalho do que qualquer homem. E a presena da Dra. Lovat tambm era compreensvel. - Pedi homens para esta" expedio. Ser bastante difcil e rdua.

Ele olhou para Ewen em busca de apoio, mas o homem mais jovem limitou-se a rir.

- Preciso ler para voc a Declarao de Direitos da Terra? Nenhuma lei ser promulgada ou formulada para reduzir os direitos de qualquer ser humano ao trabalho igual, independente de origem racial, religio ou sexo. . .
- Ora, no me venha com o Artigo Quatro! - murmurou MacAran.
_ Se Heather quer gastar o couro de seu sapato e voc est disposto a deix-la, quem sou eu para contestar?

Ele ainda desconfiava que fora Ewen quem tramara tudo. Era a pior maneira possvel de iniciar uma expedio. Ali estava ele, apesar do objetivo srio da misso, excitado na verdade com a perspectiva de escalar uma montanha inexplorada... apenas para descobrir que tinha de levar no apenas uma mulher da tripulao - que pelo menos parecia resistente e com um bom preparo fsico -, mas tambm a Dra. Lovat, que podia no ser velha, mas tambm no era mais jovem e vigora como seria de desejar, e ainda por cima Heather, que tinha uma aparncia to delicada. E MacAran acrescentou, torcendo para no parecer to sombrio quanto se sentia:

- Muito bem, vamos embora.

MacAran assumiu a dianteira, pondo a Dra. Lovat e Heather logo atrs, junto com Ewen, a fim de poder verificar se o seu ritmo era muito puxado para as duas. Camilla vinha em seguida, junto com MacLeod, e Zabal, acostumado com montanhas, na retaguarda. Enquanto se afastavam da nave e do pequeno agrupamento de abrigos toscos, o enorme sol vermelho comeou a se erguer acima das colinas distantes, como um olho gigantesco, inflamado, injetado. Havia um nevoeiro denso na depresso em que se encontrava a nave, mas foi se dissipando  medida que subiam pelo vale. Apesar de si mesmo, MacAran comeou a recuperar o nimo. Afinal, no era coisa pequena comandar uma expedio de explorao, talvez a nica por muitos sculos, num planeta totalmente inexplorado.

Foram caminhando em silncio; havia muita coisa para se ver. Ao chegar  orla do vale, MacAran parou e esperou que os outros o alcanassem.

- No tenho muita experincia com planetas estranhos - ele disse. - Mas procurem evitar o contato com qualquer vegetao esquisita, vejam onde pisam, e acho que no preciso advertir  que no devem tomar qualquer gua ou comer qualquer coisa antes que a Dra. Lovat d sua aprovao pessoal. Vocs dois so os especialistas. . . - MacAran acenou com a cabea para Zabal e MacLeod. - Mais alguma coisa a acrescentar?
- Apenas uma cautela geral - respondeu MacLeod. - Por tudo o que sabemos, este planeta pode estar cheio de rpteis e serpentes venenosas, mas os uniformes de superfcie nos protegero contra a maioria dos perigos que no podemos ver. Tenho uma arma para usar em emergncias extremas. . . se um dinossauro ou um imenso carnvoro aparecer e nos atacar... mas de um modo geral seria melhor fugir do que atirar. Lembrem-se de que nosso objetivo  uma observao preliminar e no se deixem entusiasmar pela classificao e coleta de amostras... a prxima expedio que vier aqui  que cuidar disso.
- Se houver uma prxima expedio - murmurou Camilla.

Ela falou bem baixo, mas Rafael ouviu e fitou-a, irritado. Mas limitou-se a dizer:

- Quero que todo mundo verifique na bssola a direo do pico. Cada vez que acamparmos, devemos verificar de novo antes de partirmos, por causa do terreno irregular. Podemos ver o pico daqui, mas depois que nos embrenharmos mais pelos contrafortes  possvel que s consigamos avistar a prxima colina ou as rvores.

A princpio a caminhada foi fcil e agradvel, subindo-se por encostas suaves, entre conferas altas e de razes profundas, surpreendentemente pequenas no dimetro para sua altura, com agulhas compridas de um verde-azulado nos galhos estreitos. A no ser pela obscuridade do sol vermelho, poderiam estar numa reserva florestal na Terra. De vez em quando Marco Zabal saa da fila para examinar alguma rvore, folha ou raiz; e houve um momento em que um animal pequeno saiu correndo pelo mato. Lewis MacLeod observou-o com uma expresso pesarosa e comentou para a Dra. Lovat:

- Uma coisa... h mamferos peludos aqui. Provavelmente marsupiais, mas no tenho certeza.
- Pensei que ia recolher espcimes - ela comentou.
- E  o que farei, na volta. No tenho como manter nenhum espcime vivo na ida. Como saberia com que aliment-los? Mas se est preocupada com o suprimento de comida, devo dizer que at agora todos os mamferos, em qualquer planeta, sem exceo, provaram ser comestveis e saudveis. Alguns no so muito saborosos, mas os animais que segregam leite so todos evidentemente iguais na qumica do corpo.

Judith Lovat notou que o pequeno e gordo zologo ofegava com o esforo, mas no disse nada. Podia compreender muito bem o fascnio de ser o primeiro a ver e classificar a vida selvagem de um planeta completamente estranho, um trabalho quase sempre entregue a equipes especializadas do Primeiro Desembarque, e calculou que MacAran no o teria escolhido para a expedio se ele no fosse apto nas condies fsicas.

O mesmo pensamento ocorreu a Ewen Ross enquanto caminhava ao lado de Heather, nenhum dos dois desperdiando o flego em conversa. Ele refletiu: Rafe no est impondo um ritmo muito puxado, mas mesmo assim no tenho certeza se as mulheres conseguiro agentar. Quando MacAran determinou uma parada, pouco mais de uma hora depois de partirem, ele afastou-se da jovem e foi falar com o chefe da expedio.

- Qual  a altura desse pico, Rafe?
- No h como saber, pela distncia em que o vi, mas calculo que deve ter entre cinco mil e seis mil metros.
- Acha que as mulheres conseguiro subir tudo isso?
- Camilla ter de subir, pois precisa fazer observaes astronmicas. Zabal e eu poderemos ajud-la, se for necessrio. Os demais podem esperar num ponto qualquer da encosta, se no puderem continuar na escalada.
- Eu posso subir - garantiu Ewen. - Lembre-se de que o ndice de oxignio nesta atmosfera  superior ao que temos na Terra; a anoxia no ocorrer to depressa.

Ele olhou os homens e mulheres, descansando. Heather Stuart recolhia uma amostra do solo num dos seus tubos. Lewis MacLeod estava estendido no cho, respirando com dificuldade, os olhos fechados. Ewen observou-o com alguma apreenso, os olhos experientes reconhecendo o que nem mesmo Judith Lovat percebera, mas no disse nada. No podia ordenar que homem fosse enviado quela distncia... no sozinho, de qualquer forma.

Pareceu ao jovem mdico que MacAran estivera acompanhando seus pensamentos, pois ele disse abruptamente:

- No acha que parece muito fcil, bom demais? Tem de haver um problema em algum lugar deste planeta.  como se fosse um piquenique numa reserva florestal.

Ewen pensou: E que piquenique, com cinqenta e tantos mortos e mais de cem feridos no acidente. Mas ele no disse nada, recordando que Rafe perdera a irm.

- Por que no, Rafe? H alguma lei que diga que um planeta inexplorado deve ser perigoso? Talvez apenas estejamos to condicionados a uma vida na Terra sem riscos que temos medo de dar um passo alm de nossa boa e segura tecnologia. - Ele sorriu. - No o ouvi se queixar  de que na Terra todas as montanhas e at mesmo as encostas de esquiar se tornaram de acesso to fcil que no existe mais qualquer senso de conquista pessoal? No que isso me interesse... nunca me senti atrado pelos esportes perigosos.
- Talvez voc tenha razo nesse ponto - comentou MacAran, mas ainda mantendo uma expresso sombria. - Mas se  esse o caso, por que se preocupam tanto com as equipes do Primeiro Desembarque num novo planeta?
- No tenho a menor idia. Mas no  possvel que num planeta em que o homem no se desenvolveu, seus inimigos naturais tambm no tenham se desenvolvido?

O comentrio deveria ter confortado MacAran, mas em vez disso ele sentiu um calafrio. Se o homem no pertencia quele lugar, poderia sobreviver ali? Mas ele no disse nada.

-  melhor tornarmos a partir. Temos um longo caminho a percorrer, e eu gostaria de alcanar as encostas antes do escurecer.

Ele parou junto de MacLeod, enquanto o homem mais velho fazia um esforo para se levantar.

- Est se sentindo bem, Dr. MacLeod?
- Mac - murmurou o homem mais velho, com a insinuao de um sorriso. - No estamos agora sob a disciplina da nave. Claro que estou bem.
-  o especialista em animais. Alguma teoria sobre o motivo pelo qual no avistamos nada maior do que um esquilo?
- Duas - respondeu MacLeod, o sorriso se alargando. - A primeira, obviamente,  a de que no existe nenhum. A segunda, a que prefiro,  a de que seis criaturas... no, sete... como ns, avanando pela mata desse jeito, fazem com que qualquer coisa com um crebro maior do que o de um esquilo trate de se manter  distncia.

MacAran soltou uma risada, enquanto revisava sua opinio a respeito do homenzinho gordo, elevando-a por alguns pontos.

- Deveramos tentar fazer menos barulho?
- No sei como conseguiramos. Esta noite teremos um teste melhor. Carnvoros maiores... se ou ver alguma analogia com a Terra... estaro em ao, na esperana de encontrarem a presa natural dormindo.
- Nesse caso, devemos cuidar para no sermos mastigados por engano - comentou MacAran.

Mas enquanto observava os outros ajeitarem as mochilas e entrarem em formao, ele pensou que ali estava uma coisa que esquecera. Era verdade; a ateno extensa  segurana na Terra eliminara praticamente todos os perigos, a no ser os produzidos pelo prprio homem. At os safris na selva eram realizados em veculos com vidros blindados, e nunca lhe ocorreria que a noite poderia ser perigosa sob esse aspecto.

Caminharam por mais quarenta minutos, atravs de rvores cada vez mais grossas e um mato baixo mais denso, obrigando-os a empurrar galhos, quando Judith parou, esfregando os olhos, angustiada. Ao mesmo tempo, Heather levantou as mos e fitou-as horrorizada; Ewen, ao seu lado, ficou alerta no mesmo instante.

- Qual  o problema?
- Minhas mos. . .

Heather estendeu-as, o rosto muito plido. Ewen gritou:

- Rafe! Espere um pouco!

A fileira irregular parou. Ele pegou os dedos esguios de Heather com todo cuidado e examinou-os, verificando que havia pequenos pontos verdes de erupes. Por trs, Camilla exclamou:

- Judy! Oh, Deus, olhe para o seu rosto!

Ewen virou-se para a Dra. Lovat. Ela tinha as faces e plpebras cobertas pelos pontos esverdeados, que pareceram se espalhar, aumentar e inchar, enquanto os observava. Judith fechou os olhos, apertando com fora. Camilla segurou suas mos gentilmente no momento em que ela as levava ao rosto.

- No toque em seu rosto, Judy... O que  isso, Dr. Ross?
- Como posso saber?

Ewen olhou ao redor, enquanto os outros se aproximavam.

- Mais algum est ficando verde? - Uma pausa e ele acrescentou: - Muito bem. E para isso que estou aqui, e todos os outros devem se manter  distncia at sabermos qual  o problema. Heather! - Ele sacudiu-a pelos ombros bruscamente. - Pare com isso! No vai cair morta de repente. At onde posso constatar, seus sinais vitais continuam em perfeitas condies.

A moa controlou-se com um esforo evidente.

- Desculpe.
- O que sente exatamente? Esses pontos doem?
- No, mas coam demais!

Ela estava afogueada, o rosto vermelho, os cabelos castanho-avermelhados caindo soltos pelos ombros; levantou a mo a fim de empurr-los para trs. Ewen segurou-a pelo pulso, tomando cuidado para tocar apenas na manga do uniforme.

- No toque em seu rosto - disse ele. - Foi o que a Dra. Lovat fez. Como est se sentindo, Dra. Lovat?
- No muito bem - ela murmurou, com um esforo considervel. - O rosto arde e os olhos...  pode ver como esto.
- Tem razo.

Ewen constatou que as plpebras inchavam e se tornavam esverdeadas; sua aparncia era grotesca.

Secretamente, Ewen especulou se parecia to assustado quanto se sentia. Como todos os outros ali, fora criado com histrias de pragas exticas encontradas em mundos estranhos. Mas era um mdico e aquele era seu trabalho. E disse, imprimindo  voz tanta firmeza quanto podia:

- Muito bem, todos os outros devem se afastar, mas no entrem em pnico. Se for uma praga disseminada pelo ar, ento todos ns j a contramos, e provavelmente na noite em que pousamos no planeta. Mais algum sintoma, Dra. Lovat?

Judy respondeu, tentando sorrir:

- Nenhum... exceto que estou apavorada.
- No vamos pensar nisso... por enquanto. - Tirando luvas de borracha de um pacote esterilizado em sua mochila, Ewen verificou a pulsao. - No h taquicardia, a respirao no se alterou. E voc, Heather?
- Estou bem, a no ser pela coceira.

Ewen examinou a pequena erupo meticulosamente. Era minscula a princpio, mas cada ppula expandia-se depressa para se tornar uma vescula.
- Vamos comear por um processo de eliminao - disse ele. - O que voc e a Dra. Lovat fizeram que ningum mais fez?
- Recolhi algumas amostras do solo - respondeu Heather -, procurando por bactrias e diatomceas.
- E eu estudei algumas folhas - informou Judy -, tentando descobrir se possuam um contedo de clorofila apropriado.

Marco Zabal puxou as mangas do uniforme.

- Bancarei o Sherlock Holmes. Aqui est a resposta. - Ele estendeu os pulsos, mostrando um ou outro ponto verde. - Srta. Stuart, teve de afastar algumas folhas para remover suas amostras?
- Tive, sim... umas folhas avermelhadas. Zabal balanou a cabea.
- Essa  a resposta. Como qualquer bom xenobotnico, s mexo numa planta com luvas, at ter certeza do que  ou do que contm. Notei um leo voltil na ocasio, mas no dei maior importncia. Provavelmente um parente distante do sumagre... Rhus toxicodendron... hera venenosa para vocs. E meu palpite  de que, se surgiu to depressa, no passa de dermatite de contato, no h efeitos colaterais mais graves.

Ele sorriu, uma expresso divertida no rosto comprido e estreito.

- Experimente uma pomada anti-histamnica, se tiver alguma, ou aplique uma injeo na Dra. Lovat, j que seus olhos ficaram to inchados que ser difcil para ela ver para onde vai. E daqui por diante no vamos admirar nenhuma folha bonita enquanto eu no a examinar, est bem?

Ewen seguiu suas instrues, com um alvio to grande que era quase doloroso. Sentia-se totalmente incapaz de lidar com qualquer praga estranha. Uma injeo hipodrmica de anti-histamnico encolheu rapidamente as plpebras inchadas de Judith ao tamanho normal, embora a cor verde persistisse. O basco mostrou-lhes todos os seis espcimes de folhas, numa caixa de amostras de plstico transparente.

- A ameaa vermelha que deixa as pessoas verdes - ele comentou secamente. - Aprendam a ficar longe das plantas desconhecidas, se puderem.
- Se todos esto bem, vamos continuar a viagem - decidiu MacAran.

Mas enquanto os membros da expedio recolhiam os equipamentos, ele sentiu-se aflito, de alvio e medo renovado. Que outros perigos podiam estar  espreita numa rvore ou flor de aparncia inocente? E disse para Ewen, em voz meio alta:

- Eu sabia que este lugar era bom demais para ser verdadeiro. Zabal ouviu e soltou uma risada.
- Meu irmo integrava a equipe do Primeiro Desembarque na colnia de Coronis. Esse  o motivo pelo qual eu seguia para l. E o nico motivo para que eu saiba de tudo. A Fora Expedicionria no gosta de divulgar como os planetas podem ser traioeiros, porque ningum se atreveria ento a deixar nossa boa e segura Terra. E  claro que na ocasio em que os grandes grupos de colonos chegam l, como ns, as equipes tecnolgicas j removeram os perigos bvios e, digamos assim, deram um jeito nas coisas.
- Vamos embora - ordenou MacAran, sem responder.

Aquele era um planeta selvagem, mas o que ele podia fazer? Dissera que estava disposto a assumir riscos e agora tinha a sua oportunidade.

Prosseguiram sem incidentes, parando perto do meio-dia para comer de suas raes e permitir que Camilla Del Rey conferisse seu cronmetro e determinasse o mais prximo possvel o momento exato do sol a pino. MacAran aproximou-se quando ela observava uma pequena estaca que fincara no cho.

- O que est fazendo?
- O momento em que a sombra se torna mais curta  o meio-dia exato. Anoto a extenso a cada dois minutos e quando comea a se alongar de novo, o meio-dia... o sol exatamente no meridiano... fica nesse perodo de dois minutos.  bastante prximo do verdadeiro meio-dia local para nossas medies. - Camilla virou-se para ele e perguntou em voz baixa: - Heather e Judy esto mesmo bem?
- Esto, sim. Ewen as examina em cada parada. No sabemos quanto tempo vai levar para que a cor desaparea, mas elas esto bem.
- Quase entrei em pnico - murmurou Camilla. - Judy Lovat me faz sentir envergonhada de mim mesma. Ela se manteve to calma...

MacAran notou que o tratamento formal da nave, "Tenente Del Rey", "Dra. Lovat", "Dr. MacLeod", j desaparecera, dando lugar  intimidade de Camilla, Judy, Mac. Ele aprovava. Afinal, poderiam passar muito tempo ali. Fez um comentrio a respeito e depois perguntou abruptamente:

- Tem alguma idia do tempo em que ficaremos aqui para os reparos?
- Nenhuma. Mas o Comandante Leicester falou em seis semanas, se pudermos reparar a nave.
- Se?
- Claro que podemos repar-la. - Camilla falou em tom brusco e incisivo, virando-se no instante seguinte. - Temos de conseguir. No podemos permanecer aqui.

MacAran no pde deixar de especular se era fato ou otimismo, mas no insistiu no assunto. Quando tornou a falar, foi para fazer um comentrio banal sobre a qualidade das raes que levavam e manifestar sua esperana de que Judy encontrasse fontes frescas de alimentao ali.

Enquanto o sol descia lentamente sobre as cordilheiras distantes, voltou a esfriar e um vento forte comeou a soprar. Camilla olhou apreensiva para as nuvens que se acumulavam.

- L se vo as observaes astronmicas - ela murmurou. - Ser que chove todas as noites neste planeta miservel?
-  o que parece - respondeu MacAran. - Mas talvez seja um fenmeno sazonal. Mas tem acontecido todas as noites at agora, pelo menos nesta estao... calor ao meio-dia, esfria depressa, nuvens ao cair da tarde, chuva  noite, neve por volta de meia-noite. E nevoeiro ao amanhecer.

Franzindo as sobrancelhas, Camilla disse:

- Pelo que deduzi das mudanas do tempo... no que cinco dias possam nos dizer muita coisa...  primavera; de qualquer maneira, os dias esto se tornando mais longos, cerca de trs minutos cada dia. O planeta parece ter mais inclinao do que a Terra, o que explicaria as bruscas mudanas do tempo. Mas talvez depois que a neve parar e antes do nevoeiro subir, o cu clareie um pouco...

Ela ficou em silncio, pensando. MacAran no a incomodou. Quando comeou a cair uma chuva fina, ele passou a procurar um local para acamparem, antes que se transformasse num aguaceiro. Estavam descendo por uma encosta; l embaixo estendia-se um extenso vale, quase sem rvores, mas aprazvel e verdejante, prolongando-se por trs ou quatro quilmetros para o sul. Era evidente que os contrafortes estavam entremeados de pequenos vales assim; por aquele corria um estreito curso de gua... um rio? Um regato? Poderiam aproveit-lo para reabastecer os suprimentos de gua? Ele levantou a questo e MacLeod respondeu:

- Precisamos testar a gua,  claro. Mas estaremos mais seguros se acamparmos aqui, no meio da floresta.
- Porqu?

MacLeod apontou em resposta e MacAran divisou algo que parecia ser um rebanho de animais. Era difcil divisar detalhes, mas pareciam ser do tamanho de pequenos pneis.

- L est o motivo - disse MacLeod. - Por tudo o que sabemos, eles podem ser pacficos... ou at mesmo domesticados. E, se esto pastando, no so carnvoros. Mas eu detestaria me encontrar no caminho se resolvessem promover um estouro  noite. No meio das rvores poderamos ouvir sua aproximao.

Judy veio se postar ao lado dos dois.

- Eles podem ser bons para comer. E tambm podem ser domesticados, se algum vier a colonizar este planeta algum dia... evitaria o problema de importar animais de corte e bestas de carga da Terra.

Observando o lento movimento da manada sobre a relva verde-cinza, MacAran refletiu que era uma tragdia que o homem s pudesse ver os animais em termos de suas prprias necessidades. Mas tambm gosto de um bom bife, tanto quanto qualquer outro. Quem sou eu para fazer sermes! E talvez partissem dentro de poucas semanas, e aqueles animais, o que quer que fossem, permaneceriam inclumes para sempre.

Eles armaram o acampamento na encosta, sob uma chuva fina, e Zabal empenhou-se em acender uma fogueira. Camilla disse:

- Preciso subir ao topo da colina ao pr-do-sol e tentar determinar uma linha de direo com a nave. Eles vo acender luzes para nos orientar.
- No poderia ver coisa alguma com esta chuva - protestou MacAran. - A visibilidade  de menos de um quilmetro agora. Nem mesmo uma luz forte seria visvel. Entre logo no domo, pois est ficando encharcada!

Ela virou-se para ele, furiosa.

- Escute aqui, Senhor MacAran, preciso lembr-lo de que no recebo ordens suas? Est no comando da expedio de explorao... mas eu estou aqui por conta da nave e tenho deveres a cumprir!

Ela virou as costas  pequena tenda em formato de domo, feita de plstico, comeou a subir pela encosta. MacAran, praguejando contra as mulheres obstinadas e oficiais ainda por cima, foi em seu encalo.

- Pode voltar! - gritou Camilla. - Estou com meus instrumentos e cuidarei de tudo sozinha!
- Acabou de dizer que estou no comando da expedio. Pois muito bem, uma das minhas ordens  para que ningum se afaste sozinho! Ningum... e isso inclui a primeira oficial da nave!

Ela continuou a subir pela encosta, sem dizer mais nada, puxando o capuz do parka sobre o rosto, a fim de se proteger da chuva fria e do vento cortante. Esta foi se tornando mais forte enquanto escalavam a colina, e MacAran ouviu-a tropear e escorregar na vegetao rasteira, apesar da lanterna potente que ela empunhava. Alcanando-a, estendeu a mo forte para ampar-la. Camilla fez um movimento para se desvencilhar, mas ele disse asperamente:

- No seja tola, Tenente! Se torcer um tornozelo, teremos de carreg-la... ou voltar! Talvez duas pessoas possam encontrar um ponto de apoio, onde uma sozinha no consegue. Vamos... apie-se em meu brao.

Ela permaneceu rgida e MacAran acrescentou, irritado:

- Mas que droga! Se voc fosse um homem, eu no pediria polidamente para me deixar ajudar... daria uma ordem!

Camilla soltou uma risada.

- Est bem.

Ela segurou o brao de MacAran e as duas lanternas iluminaram o cho, em busca de um caminho. Ele podia ouvi-la a bater os dentes de frio, mas Camilla no se queixou em momento algum. A encosta tornou-se mais ngreme e nos ltimos metros MacAran teve de passar na frente e virar-se para pux-la. Camilla olhou ao redor, procurando se orientar; apontou para um claro fraco, atravs da cortina de chuva.

- Poderia ser aquilo? - ela murmurou, indecisa. - A direo da bssola parece correta.
- Se eles esto usando um laser,  bem possvel, pode aparecer a essa distncia, mesmo atravs da chuva.

A luz apagou, tornou a brilhar, sumiu de novo. MacAran praguejou baixinho.

- A chuva est se transformando em granizo... vamos descer logo, antes que tenhamos de escorregar... sobre o gelo!

O caminho parecia ainda mais ngreme e escorregadio, e houve um momento em que Camilla perdeu o equilbrio no cho gelado e caiu, patinhando at bater numa rvore e parar. Ficou ali, meio atordoada, at que MacAran, iluminando ao redor com a lanterna e chamando-a, focalizou-a no facho. Camilla ofegava e soluava com o frio, mas sacudiu a cabea e levantou-se sozinha, quando ele estendeu a mo para ajud-la.

- Posso cuidar de mim. - Uma pausa e ela acrescentou, relutante: - Mas obrigada.

Ela sentia-se exausta, totalmente humilhada. Fora treinada a pensar sempre que era seu dever trabalhar com os homens numa base de igualdade, e no mundo normal que conhecia, um mundo de botes para apertar e mquinas para dirigir, a fora fsica no era um fator que jamais precisasse levar em considerao. Jamais deixara de refletir que em toda a sua vida nunca conhecera qualquer esforo fsico maior do que a ginstica no ginsio da nave ou numa estao espacial; sentia agora que, por no ter conseguido sustentar o prprio peso, falhara de alguma forma em suas responsabilidades. Como oficial de uma nave, deveria ser mais competente do que qualquer civil! Ela continuou a descer, esgotada, adiantando os ps com uma cautela obstinada. Podia sentir as lgrimas de cansao congelarem em suas faces.

MacAran, seguindo lentamente, no estava a par de sua luta interior, mas podia perceber o cansao de Camilla pelos ombros arqueados. Depois de um momento, ele passou o brao por sua cintura e disse gentilmente:

- Como eu falei antes, se voc cair de novo e se machucar, teremos de carreg-la. No faa isso conosco, Camilla. - E ele acrescentou, hesitante: - Deixaria Jenny ajud-la, no  mesmo?

Ela no respondeu, mas apoiou-se nele. MacAran guiou seus passos trpegos para a pequena claridade que brilhava atravs da tenda. Em algum lugar l em cima, no meio das rvores, soou o grito spero de um pssaro noturno, rompendo o barulho do granizo caindo; mas no houve outro som. At mesmo seus passos soavam inslitos e estranhos ali.

Entrando na tenda, MacAran cedeu ao cansao. Aceitou agradecido a xcara de plstico com ch quente que MacLeod lhe estendeu, avanou com cuidado para o lugar em que fora estendido seu saco de dormir, ao lado de Ewen. Tomou um gole do lquido escaldante, removendo o gelo das plpebras, ouvindo Heather e Judy trocarem murmrios preocupados pelo rosto gelado de Camilla, movimentando-se no alojamento apertado para servirem um ch quente, ajudarem-na a tirar o parka coberto de gelo e envolverem-na com um cobertor. Ewen perguntou:

- O que est havendo l fora? Chuva? Granizo? Neve?
- Acho que uma mistura das trs coisas. Parece que nos metemos no meio de uma tempestade equinocial. Mas no pode ser assim durante o ano inteiro.
- Conseguiram fazer os registros? - Ao aceno de cabea afirmativo de MacAran, ele acrescentou: - Um de ns deveria ter ido. A tenente no tinha condies para uma escalada assim com esse tempo. O que ser que a levou a tentar?

MacAran olhou para Camilla, encolhida sob um cobertor, com Judy enxugando seus cabelos molhados e emaranhados, enquanto ela tomava o ch quente. E murmurou, surpreendendo a si mesmo:

- Noblesse oblige. Ewen balanou a cabea.
- Entendo o que est querendo dizer. E agora vou lhe arrumar um pouco de sopa. Judy fez maravilhas com as raes.  sempre bom contar com a presena de uma especialista em alimentos.

Estavam todos exaustos e pouco conversaram sobre o que haviam visto; de qualquer maneira, o uivo do vento e o barulho do granizo l fora tornavam difcil qualquer conversa. Em meia hora terminaram de comer e se meteram nos sacos de dormir. Heather aconchegou-se contra Ewen, ajeitando a cabea em seu ombro. MacAran contemplou seus corpos unidos com uma inveja vaga e indefinida. Parecia haver ali uma intimidade que pouco tinha a ver com sexualidade. Era evidente na maneira como mudavam de posio, quase inconscientemente, para aliviar e proporcionar mais conforto um ao outro. Contra sua vontade, ele pensou no momento em que Camilla apoiara-se nele, sorriu ironicamente no escuro. Entre todas as mulheres na nave, ela era a que tinha menos possibilidade de se interessar por ele e provavelmente a que mais lhe antipatizava. Mas tambm no podia deixar de admir-la.

MacAran permaneceu acordado por algum tempo, escutando o rudo do vento nas rvores, o barulho de uma rvore se partindo e caindo estrondosamente em algum lugar, sob a tempestade - Santo Deus! Se casse na tenda, estaramos todos mortos! -, sons estranhos que poderiam ser animais deslocando-se pela vegetao. Depois de algum tempo acabou mergulhando num sono irrequieto, mas com um ouvido atento, escutando MacLeod ofegar e gemer no sono e um grito de pesadelo de Camilla. Perto do amanhecer a tempestade amainou e logo a chuva cessou, e ele dormiu como uma pedra, ouvindo apenas, atravs do sono, os sons de estranhas bestas e aves movimentando-se na floresta escura, pelas colinas desconhecidas.

CAPITULO
TRS
Pouco antes do amanhecer ele despertou, ouvindo Camilla se mexer. Atravs da tenda escura, percebeu que ela fazia um esforo para vestir o uniforme. Deixou seu saco de dormir sem fazer barulho e perguntou baixinho:

- O que foi?
- A chuva parou e o cu est claro. Quero fazer algumas observaes do cu e obter registros espectrogrficos antes que comece o nevoeiro.
- Est certo. Precisa de alguma ajuda?
- No. Marco pode carregar os instrumentos.

MacAran j ia protestar, mas depois deu de ombros e voltou para seu saco de dormir. No era problema seu. Camilla conhecia o seu trabalho e no precisava que ele a vigiasse atentamente. Ela deixara isso bem claro.

No entanto, uma vaga apreenso impediu-o de voltar a dormir; permaneceu num cochilo inquieto, ouvindo ao redor os rudos da floresta a despertar. Aves gritavam de rvore para rvore, algumas estridentes e roucas, outras suaves e melodiosas. Havia pequenos grasnidos e movimentos na vegetao baixa, e em algum lugar um som distante, que no parecia muito diferente do latido de um cachorro.

E depois o silncio foi abalado por um grito horrvel - um berro de agonia indubitavelmente humana, um brado estridente de angstia, repetido duas vezes e se desmanchando num gemido trmulo; depois o silncio voltou.

MacAran levantou-se do saco de dormir e saiu da tenda, meio despido. Ewen se encontrava menos de um passo atrs dele e todos os outros os seguiram, sonolentos, atordoados, assustados. MacAran subiu correndo pela encosta na direo do som, ouvindo Camilla gritar por socorro.

Ela instalara os equipamentos numa clareira perto do cume, mas agora tudo fora derrubado. Marco Zabal estava cado no cho ali perto, contorcendo-se e gemendo incoerentemente. Estava inchado e o rosto tinha uma horrvel aparncia congestionada. Camilla mexia freneticamente com as mos enluvadas. Ewen ajoelhou-se ao lado do homem estrebuchando, perguntando a Camilla:
- Depressa... o que aconteceu?
- Coisas... como insetos.

Trmula, ela estendeu a mo enluvada: havia na palma uma coisa esmagada, com menos de cinco centmetros de comprimento, uma cauda curva como a de um escorpio, uma presa ameaadora na frente, a colorao laranja e verde.

- Ele saiu de trs daquela elevao ali, ouvi-o gritar e depois ele caiu...

Ewen j abrira sua valise mdica, as mos se movimentavam sobre o corao de Zabal. Deu instrues rpidas a Heather, que se abaixara ao seu lado, para cortar as roupas do homem. O rosto de Zabal estava congestionado e escurecendo, os braos imensamente inchados. Encontrava-se inconsciente agora, gemendo em delrio.

Um potente veneno dos nervos, pensou Ewen; o corao perde o vigor e a respirao se torna difcil. Tudo o que podia fazer agora era aplicar um estimulante forte e se manter atento, para o caso de Zabal precisar de respirao artificial. No podia sequer dar alguma coisa para aliviar a agonia, pois quase todos os narcticos provocam depresso respiratria. Esperou ansioso, mal se atrevendo a respirar tambm, o estetoscpio no peito de Zabal, enquanto o corao vacilante comeava a bater de um modo um pouco mais regular; levantou a cabea por um momento e olhou para a elevao, perguntou a Camilla se fora mordida - no fora, embora dois dos insetos terrveis tivessem comeado a subir por seu brao - e mandou que todos ficassem  distncia da elevao, um formigueiro ou qualquer outra coisa assim. Foi pura sorte no termos acampado bem em cima deles na escurido! MacAran e Camilla devem ter tropeado justamente ali... ou talvez os insetos fiquem hibernando na neve!

O tempo foi passando lentamente. A respirao de Zabal tornou-se mais regular e ele j no gemia tanto, mas no recuperou a conscincia. O enorme sol vermelho, varando o nevoeiro, foi subindo devagar pelos contrafortes.

Ewen mandou Heather de volta  tenda para buscar o resto de seu equipamento mdico; Judy e MacLeod comearam a preparar o desjejum. Camilla, estoicamente, calculou os poucos registros astronmicos que conseguira efetuar antes do ataque das formigas-escorpies - MacLeod, depois de examinar o inseto morto, batizara-os assim temporariamente. MacAran aproximou-se do homem inconsciente e do jovem mdico ajoelhado ao seu lado.

- Ele vai sobreviver?
- No sei. Provavelmente. Nunca vi nada parecido desde que tratei de meu nico caso de mordida de cascavel. Mas uma coisa  certa... ele no ir a qualquer lugar hoje e provavelmente nem amanh.
- No deveramos carreg-lo para a tenda? - perguntou MacAran. - No  possvel que haja mais dessas coisas rastejando por aqui?
- Prefiro no transferi-lo agora. Talvez daqui a duas horas. MacAran ficou olhando para o homem inconsciente, consternado.

No podiam se atrasar... mas o tamanho da expedio fora rigorosamente calculado e no podiam dispensar ningum para buscar socorro na nave. Ele acabou dizendo:

- Precisamos continuar. Poderamos transferir Marco para a tenda, onde  seguro, e voc ficaria para cuidar dele. Os outros podem realizar seu trabalho de explorao aqui tanto quanto em qualquer outro lugar, colhendo amostras do solo, plantas e vida animal. Mas eu tenho de descobrir o que puder do pico e a Tenente Del Rey precisa fazer suas observaes astronmicas do ponto mais alto possvel. Seguiremos em frente, at onde pudermos. Se for impossvel escalar o pico, no tentaremos. Vamos nos limitar a fazer os registros possveis e depois voltaremos.
- No seria melhor esperar um pouco para saber se poderemos acompanh-los? No sabemos que tipos de perigos existem nestas florestas.
-  uma questo de tempo - interveio Camilla, muito tensa. - Quanto mais depressa soubermos onde nos encontramos, mais depressa teremos uma oportunidade...

Ela no concluiu a frase. MacAran disse:

-  verdade, no sabemos, mas os perigos podem ser os mesmos para uma expedio pequena ou at para uma nica pessoa. Creio que no h outro jeito, teremos de fazer assim.

Ficou tudo acertado. Duas horas depois, como Zabal ainda no apresentasse sinais de recuperar a conscincia, MacAran e os outros dois homens carregaram-no para a tenda, numa maca improvisada. Houve alguns protestos contra a diviso da expedio, mas ningum a contestou com mais veemncia. MacAran compreendeu que j se tornara o lder, cuja palavra era lei. Quando o sol vermelho se encontrava bem por cima, eles dividiram as mochilas e se preparam para partir, levando apenas a pequena tenda de emergncia, raes para uns poucos dias e os instrumentos de Camilla.

Ficaram parados por um momento na tenda, olhando para Zabal. Ele comeara a se mexer e a gemer, mas ainda no havia outros sinais de recuperao da conscincia. MacAran sentia-se desesperadamente preocupado com ele, mas tinha de deix-lo aos cuidados de Ewen. Afinal, o mais importante ali era a avaliao preliminar daquele planeta... e as observaes de Camilla sobre o ponto da Galxia em que se encontravam!

Mas algo o perturbava. Teria esquecido alguma coisa? Subitamente, Heather Stuart tirou a tnica de seu uniforme e a suter que usava por baixo.

- Leve isto, por favor, Camilla - ela disse, em voz baixa. -  mais quente do que sua blusa. Neva por aqui, e vocs tero apenas o abrigo pequeno.

Camilla riu, sacudindo a cabea.

- Aqui tambm haver frio.
- Mas... - O rosto de Heather estava tenso e contrado. Ela mordeu o lbio e suplicou: - Por favor, Camilla. Pode me chamar de tola, se quiser. Diga que estou com uma premonio, mas por favor leve isto!
- Voc tambm? - perguntou MacLeod, secamente. -  melhor levar, Tenente. Pensei que era apenas eu que estava com a aberrao da segunda viso. Nunca levei a PES, a percepo extra-sensorial, muito a srio, mas  possvel que se transforme num requisito para a sobrevivncia num planeta estranho. Alm do mais, o que tem a perder se levar algum agasalho extra?

MacAran compreendeu que a coisa que o perturbava se relacionava de alguma forma com o tempo. E disse:

- Leve, Camilla, se for mais quente. Tambm levarei o parka de montanha de Zabal, se for mais grosso, deixando o meu para ele. E algumas suteres extras, se houver. Vocs no devem se privar, mas  verdade que se nevar tero mais abrigo do que ns, e s vezes fica muito frio nas alturas.

Ele olhava para Heather e MacLeod com uma expresso curiosa; de um modo geral, no tinha f no que j ouvira sobre a PES, mas se duas pessoas na expedio sentiam a mesma coisa e ele tambm tinha uma insinuao vaga... ora, talvez fosse apenas uma questo de percepes sensoriais inconscientes, algo que no podiam avaliar conscientemente. De qualquer forma, no era preciso PES para prever o mau tempo no alto de uma montanha num planeta estranho, com um clima aberrante!

- Vamos levar todas as roupas que os outros puderem dispensar e um cobertor a mais... temos de reserva - ele ordenou. - E vamos partir logo.

Enquanto Heather e Judy arrumavam as coisas, MacAran arrumou uma oportunidade para falar a ss com Ewen.

- Espere aqui por ns pelo menos durante oito dias. Daremos um sinal todos os dias, ao pr-do-sol, se for possvel. Se no houver notcias ou sinais dentro de oito dias, voltem para a nave. Se voltarmos, no h sentido em perturbar os outros com isso... mas se alguma coisa nos acontecer, voc est no comando. Ewen relutava em deix-lo partir.
- O que devo fazer se Zabal morrer?
- Enterre-o - respondeu MacAran bruscamente. - O que mais se poderia fazer?

Ele afastou-se, gesticulando para Camilla.

- Vamos embora, Tenente.

Deixaram a clareira sem olhar para trs, MacAran imprimindo um ritmo firme  marcha, no muito acelerado, no muito lento.

 medida que subiam, a paisagem foi mudando, a vegetao rasteira menos crescida, mais pedras, as rvores mais esparsas. A encosta no era muito ngreme. Ao se aproximarem da crista da colina em que haviam acampado, MacAran determinou uma parada para descansarem e comerem um pouco. Podiam avistar o pequeno quadrado laranja da tenda, era apenas uma mancha mnima l de cima.

- Que distncia percorremos, MacAran? - indagou Camilla, tornando a pr na cabea o capuz do casaco forrado de pele.
- No tenho como determinar. Talvez uns nove ou dez quilmetros, uma altitude de cerca de seiscentos metros. Sente alguma dor de cabea?
- Apenas um pouco - mentiu a jovem.
-  uma conseqncia da mudana de presso do ar, logo estar acostumada. Ainda bem que a subida  gradual.
-  difcil pensar que foi ali que dormimos na noite passada... to l embaixo - murmurou Camilla, um pouco trmula.
- Depois que passarmos pela crista, perderemos a tenda de vista. Se quer desistir, esta  a sua ltima oportunidade. Poder descer at l em uma hora, talvez duas no mximo.

Ela deu de ombros.

- No me tente.
- Voc est com medo?
- Claro. No sou uma idiota. Mas no entrarei em pnico, se  isso o que quer saber.

MacAran levantou-se, engolindo a ltima poro da rao.

- Pois ento vamos continuar. E tome cuidado onde pisa. . . h pedras soltas por aqui.

No entanto, para surpresa de MacAran ela subiu com passos firmes pelas pedras empilhadas nas proximidades da crista, e ele no precisou ajud-la nem procurar por uma passagem mais fcil. Do alto da colina podiam avistar um amplo panorama por trs deles l embaixo; o vale em que haviam acampado, com sua longa plancie, o vale mais alm, onde estava a nave estelar... embora MacAran, mesmo com seus potentes binculos, s conseguisse divisar uma mancha escura que podia ser a nave. Era mais fcil identificar a clareira irregular em que tinham cortado rvores para os abrigos. Passando o binculo para Camilla ele comentou:

- A primeira marca do homem num mundo novo.
- E espero que seja a ltima.

MacAran sentiu vontade de perguntar, esclarecer a questo de uma vez por todas: a nave podia mesmo ser reparada? Mas aquele no era o momento para pensar nisso. E ele disse:

- H crregos entre as rochas e Judy testou a gua. Provavelmente poderemos encontrar toda a gua de que vamos precisar para restabelecer os cantis e por isso no precisamos racionar demais.
- Sinto a garganta terrivelmente ressequida.  apenas a altitude?
- Provavelmente. Na terra no podemos subir muito alto oxignio, mas esse planeta possui uma taxa muito maior de oxignio na atmosfera.

MacAran deu uma ltima olhada na tenda laranja l embaixo, guardou o binculo na caixa e pendurou-a no ombro.

- O prximo pico ser mais alto. Vamos embora. - Camilla olhava para algumas flores laranja que cresciam em fendas na rocha, e ele acrescentou: -  melhor no tocar. Quem sabe o que pode morder aqui?

Ela virou-se, com uma pequena flor laranja entre os dedos, murmurando com um sorriso:

-  tarde demais agora. Se vou cair morta ao colher uma flor,  melhor descobrir isso agora do que mais tarde. No tenho certeza se quero continuar a viver num planeta em que no posso tocar em coisa alguma. - Uma pausa e ela acrescentou, mais sria: - Temos de assumir alguns riscos, Rafe... e mesmo assim, algo em que nunca pensamos pode nos matar. Parece-me que tudo o que podemos fazer  adotar as precaues bvias... e depois aceitar os riscos.

Era a primeira vez desde o acidente que ela o chamava pelo primeiro nome, e MacAran abrandou, embora relutante.

- Tem toda razo. A no ser andando em trajes espaciais, no temos nenhuma proteo total; portanto, no h sentido em ficar paranico. Se ns fizssemos parte do Primeiro Grupo de Colonizadores, saberamos que riscos correr, mas como no  o caso, acho melhor s contarmos com a sorte. - Estava esquentando, e ele tirou sua camada exterior de roupa. - At que ponto devemos dar ateno s premonies de mau tempo de Heather?

Eles comearam a descer pelo outro lado da colina. No meio da encosta, depois de duas ou trs horas a procurarem por uma trilha, encontraram uma pequena fonte cristalina jorrando de uma abertura entre as rochas, e aproveitaram para encher os cantis. A gua era pura e, por sugesto de MacAran, seguiram o seu curso na descida, pois com certeza seria o caminho mais curto.

Ao anoitecer, nuvens carregadas comearam a disparar pelo sol poente. Encontravam-se num vale, sem qualquer possibilidade de sinalizar para a nave ou para o outro acampamento da expedio. Enquanto armavam a pequena tenda e MacAran acendia uma fogueira para esquentar as raes, uma chuva fina comeou a cair. Praguejando, ele transferiu a pequena fogueira para baixo da abertura da tenda, tentando proteg-la da chuva. Conseguiu amornar a gua, mas no deix-la quente, antes que o granizo apagasse o fogo. Desistiu e largou as raes secas na gua morna.

- Aqui est. No  um alimento saboroso, mas d para comer... e espero que seja tambm nutritivo.

Camilla fez uma careta ao provar, mas no disse nada, o que o deixou aliviado. O granizo caa ao redor, e eles entraram na tenda e a fecharam. Mal havia espao para que uma pessoa deitasse, enquanto a outra permanecia sentada, pois as tendas de emergncia eram projetadas para uma nica pessoa. MacAran j ia fazer um comentrio irreverente sobre os alojamentos aconchegantes, mas olhou para o rosto contrado de Camilla e concluiu que era melhor no dizer nada. Limitou-se a dizer, enquanto tirava o parka de tempestade e a mochila, e desdobrava o saco de dormir:

- Espero que voc no sofra de claustrofobia.
- Sou tripulante de espaonave desde os dezessete anos. Como poderia agentar se tivesse claustrofobia? - Ele imaginou-a a sorrir no escuro, enquanto Camilla acrescentava: - Ao contrrio.

Nenhum dos dois tinha muito o que dizer depois disso. Mais tarde, ela perguntou:

- Como estar Marco?
Mas MacAran no tinha resposta para isso e no havia sentido em pensar como a viagem poderia ser melhor se contassem com os conhecimentos adquiridos por Marco Zabal no Himalaia. Ele tambm fez uma pergunta, pouco antes de adormecer:

- Quer levantar e tentar observar algumas estrelas antes do amanhecer?
- No. Acho que esperarei at o pico... se conseguirmos chegar l.

A respirao de Camilla foi se aquietando em suspiros suaves e exaustos, at que ele compreendeu que ela pegara no sono. MacAran permaneceu acordado mais um pouco, especulando sobre o que encontrariam pela frente. L fora a tempestade caa ruidosa e houve de repente um zunido intenso, que podia ter sido o vento ou algum animal disparando pelo mato. MacAran adormeceu, um sono leve, alerta a sons inesperados. Uma ou duas vezes Camilla gritou no sono e ele despertou, atento, escutando. Ela estaria com um princpio da doena da altitude? Com ou sem ndice elevado de oxignio, os picos eram bastante altos e cada escalada aumentava a altitude geral. Ora, ela acabaria se acostumando. Ou no. Por um instante,  beira do sono, MacAran refletiu que ali estava o tema para uma boa aventura dos meios de comunicao de massa, um homem a ss com uma linda mulher num planeta estranho, repleto de perigos. Ele estava consciente de que a desejava - afinal, era humano e do sexo masculino -, mas nas atuais circunstncias nada estava mais longe de sua mente do que o sexo. Talvez eu seja civilizado demais. E com esse pensamento, exausto da escalada do dia, ele adormeceu.

Os trs dias seguintes foram repeties daquele, s que no terceiro alcanaram uma passagem elevada ao crepsculo e a chuva noturna ainda no comeara. Camilla armou sua luneta e fez algumas observaes. Ele no pde deixar de perguntar, enquanto armava a tenda:

- Teve sorte? Sabe onde estamos?
- No tenho certeza. Eu j sabia que este sol no  nenhum dos registrados e as nicas constelaes que posso avistar, de coordenadas centrais, esto deslocadas para a esquerda. Desconfio que estamos alm da Ramificao Espiral da Galxia... note como so poucas as estrelas, mesmo em comparao com a Terra, sem falar no planeta colonial de localizao central. Estamos longe, muito longe, do lugar para onde deveramos ir!

A voz estava tensa, e ao se aproximar, no escuro, MacAran percebeu que ela tinha lgrimas nas faces. Sentiu um impulso intenso de confort-la.

- Mas pelo menos, quando tornarmos a partir, deixaremos para trs um novo planeta habitvel. Talvez at recebamos uma parte da recompensa pela descoberta.
- Mas  to longe... Podemos fazer contato com a nave?
- Podemos tentar. Estamos pelo menos dois mil e quinhentos metros mais alto do que eles, talvez at numa linha de viso direta. Pegue o binculo, veja se consegue descobrir algum claro. Mas  claro que eles podem estar por trs de algumas colinas.

MacAran passou o brao em torno dela, firmando o binculo. Camilla no se esquivou.

- Tem a direo do local em que se encontra a nave?

Ele indicou. Camilla desviou ligeiramente o binculo, com a bssola na mo.

- Vejo um claro... no, acho que  um relmpago. Ora, que diferena isso faz?  - Impaciente, ela baixou o binculo. MacAran podia senti-la a tremer. - Voc gosta desses amplos espaos abertos, no  mesmo?
-  verdade - ele respondeu. - Sempre adorei as montanhas. Voc no gosta?

Na escurido, Camilla sacudiu a cabea. L em cima, a plida claridade violeta de uma das quatro luas pequenas proporcionava uma estranha tonalidade  escurido. Ela murmurou:

- No. Tenho medo delas.
- Medo?
- Sempre vivi num satlite ou numa nave de treinamento desde que fui escolhida para o servio espacial, aos quinze anos. E, quando isso acontece, a gente acaba se tornando... - Ela hesitou. - ... agorfoba.
- E mesmo assim se ofereceu como voluntria para esta misso! - exclamou MacAran.

Mas ela interpretou sua surpresa e admirao como crtica e disse bruscamente, antes de se virar e entrar na pequena tenda:

- Quem mais havia?

Mais uma vez, depois de engolirem a comida - quente naquela noite, pois no havia chuva para apagar o fogo -, MacAran permaneceu acordado por muito tempo depois que a jovem adormeceu. Geralmente havia  noite apenas o barulho da chuva caindo e de galhos rangendo; naquela noite, porm, a floresta parecia fervilhar de estranhos sons, como se toda a vida desconhecida aproveitasse a ausncia rara de neve para entrar em atividade. Houve um uivo distante que parecia com uma gravao que MacAran ouvira uma ocasio na Terra, do extinto lobo cinzento americano; houve tambm um rosnado quase feminino, baixo e rouco, o grito aterrorizado de algum animal pequeno e depois o silncio. Por volta de meia-noite soou um grito estridente e fantstico, uma espcie de gemido prolongado, fazendo com que MacAran sentisse o sangue congelar nas veias. Parecia tanto com o grito que Marco soltara quando atacado pelas formigas-escorpies que por um instante, atordoado, abruptamente arrancado do sono, MacAran quase se levantou de um pulo; mas depois, enquanto Camilla sentava, assustada, despertada por seu movimento, o grito soou de novo e ele compreendeu que nada humano poderia emiti-lo. Era um grito estridente, ululante, que se prolongava cada vez mais alto, para o que parecia ser ultra-snico; MacAran teve a impresso de continuar a ouvi-lo muito depois que o som j cessara.

- O que  isso? - sussurrou Camilla, tremendo.
- S Deus sabe. Deve ser alguma espcie de ave ou outro animal. Ficaram prestando ateno no silncio e ouviram de novo o grito estridente. Ela chegou um pouco mais perto de MacAran e murmurou:
- D a impresso de que estava em agonia.
- No seja imaginativa. Pode ser a sua voz normal, por tudo o que sabemos.
- Nada tem uma voz normal assim.
- Como podemos saber?
- E como voc pode se manter to indiferente? Ohhh... - Camilla encolheu-se, enquanto o grito estridente soava outra vez. - Parece deixar meu sangue congelado.
- Talvez a coisa use esse som para paralisar sua presa - sugeriu MacAran. - E devo admitir que tambm me assusta. Se eu estivesse na Terra... ora, minha famlia  irlandesa, e eu diria que o banshee, um esprito do nosso folclore, veio me buscar.
- Teremos de lhe dar o nome de banshee, quando descobrirmos o que  - disse Camilla, sem rir.

O som terrvel explodiu em seus ouvidos mais uma vez, e ela tampou-os, gritando:

- Pare! Pare!

MacAran esbofeteou-a, no com muita fora.

- Pare voc! Por tudo o que sabemos, pode estar rondando l fora e ser bastante grande para devorar a ns dois e a tenda ao mesmo tempo! Vamos ficar quietos e esperar que se afaste!
-  mais fcil falar do que fazer - balbuciou Camilla.

Ela encolheu-se quando o grito assustador tornou a soar. Chegou mais perto de MacAran no espao apertado da tenda e murmurou:

- Poderia... segurar minha mo?

Ele procurou pelos dedos de Camilla no escuro. Estavam frios e rgidos, e ele comeou a massage-los. Camilla aconchegou-se contra ele, que inclinou a cabea e beijou-a na tmpora.

- No tenha medo. A tenda  de plstico e duvido muito que tenhamos um cheiro apetitoso. Vamos torcer para que a coisa, o que quer que seja, um esprito, se quiser assim, encontre logo um bom jantar e se cale.

O uivo soou novamente, mais distante agora, j no tanto aterrador. MacAran sentiu que a jovem arriava em seu ombro, ajeitou-a, deixando-a aninhar a cabea, enquanto murmurava gentilmente:

-  melhor voc dormir um pouco... O sussurro dela soou quase inaudvel:
- Obrigada, Rafe.

Ao constatar, pela respirao firme, que ela dormia de novo, MacAran inclinou-se e beijou-a. Era o pior momento para iniciar uma coisa assim, ele disse a si mesmo, furioso com as prprias reaes, tinham uma misso a cumprir e no podia haver nada de pessoal. Ou no deveria haver. Mas, ainda assim, muito tempo transcorreu antes que ele tambm adormecesse.

Saram da tenda pela manh para um mundo transformado. O cu estava claro, no havia qualquer nuvem ou nevoeiro, a relva quase sem cor se tornara subitamente entremeada por flores coloridas, que desabrochavam depressa, expandiam-se depressa. Mesmo no sendo bilogo, MacAran j testemunhara espetculos similares em desertos e outras reas ridas; sabia que lugares com climas violentos muitas vezes desenvolviam formas de vida que podiam aproveitar as menores mudanas favorveis na temperatura ou umidade, por mais breves que fossem. Camila ficou encantada com as flores multicores e com as criaturas semelhantes a abelhas que zumbiam entre elas, embora tomasse o cuidado de no incomod-las.

MacAran ficou parado, observando o terreno  frente. No outro lado de mais um vale estreito, cortado por um pequeno crrego, erguiam-se as ltimas encostas do alto pico que era seu destino.

- Com um pouco de sorte, deveremos estar perto do pico esta noite. E amanh, por volta de meio-dia, poderemos fazer um levantamento. Conhece a teoria... triangule a distncia daqui  nave, calcule o ngulo da sombra e com isso podemos avaliar o tamanho do planeta. Arquimedes ou algum mais fez isso com a Terra, milhares de anos antes que algum inventasse a matemtica avanada. E se no chover esta noite, voc poder efetuar observaes mais precisas l de cima.

Camilla estava sorrindo.

- No  maravilhoso o que uma pequena mudana no tempo consegue fazer? A escalada ser muito difcil?
- Creio que no. Daqui parece que ser possvel subir reto pela encosta. . . obviamente, a linha das rvores neste planeta  mais alta que na maioria dos mundos. H rocha nua, sem rvores, nas proximidades do pico, mas existe vegetao apenas seiscentos metros abaixo. Ainda no alcanamos a linha da neve.

Nas encostas superiores, apesar de tudo, MacAran recuperou seu antigo entusiasmo. Podia ser um mundo estranho, mas ainda assim era uma montanha, o desafio de uma escalada. Uma escalada fcil, era verdade, sem paredes rochosos ou precipcios de gelo, mas isso simplesmente o liberava para apreciar o panorama da montanha no ar claro. Era apenas a presena de Camilla, o conhecimento de que ela temia as alturas abertas, que o mantinha em contato com a realidade. Esperara ressentir-se contra isso, a necessidade de ajudar uma amadora em trechos fceis, pelos quais poderia subir com uma perna engessada, a espera por ela nos trechos mais ngremes de pedras soltas, mas em vez disso descobriu-se estranhamente em contato com seu medo, apreciando sua lenta conquista de cada nova altura. Ele parou a pouca distncia do cume.

- Temos uma boa vista daqui e uma rea plana para armar os equipamentos. Esperaremos aqui pelo meio-dia.

MacAran imaginava que ela demonstraria alvio, mas em vez disso Camilla fitou-o com alguma hesitao e murmurou:

- Pensei que gostaria de subir at o pico, Rafe. Pode ir, se quiser. Eu no me importo.

Ele j ia dizer que no seria nada divertido com uma amadora apavorada, mas depois compreendeu que isso no era mais verdade. Tirou a mochila dos ombros e sorriu, pondo a mo no brao de Camilla.

- Isso pode esperar. No  uma viagem de prazer, Camilla. E este  o melhor lugar para o que precisamos fazer. J ajustou seu cronmetro para que possamos conferir o meio-dia?

Ficaram descansando lado a lado na encosta, contemplando o panorama de florestas e colinas que se estendia por baixo. Lindo, pensou MacAran, um mundo para amar, um mundo para se viver. E ele indagou, pensativo:

- Ser que a colnia de Coronis  to bonita assim?
- Como vou saber? Nunca estive l. De qualquer maneira, no sei muita coisa sobre planetas. Mas este  mesmo bonito. Nunca vi um sol dessa cor e as sombras. . .

Ela ficou em silncio, admirando os padres de sombras verdes e violeta nos vales.

- Seria fcil se acostumar a um cu com essa cor - acrescentou MacAran, voltando a ficar em silncio.

No demorou muito para que as sombras encurtassem, indicando que o sol se aproximava do meridiano. Depois de todos os preparativos, pareceu um inslito anticlmax desdobrar a vareta de alumnio com trinta metros de altura para medir as sombras com exatido, at a frao de milmetros. Quando acabou e estava dobrando a vareta, MacAran comentou, irnico:

- Sessenta quilmetros e uma escalada de mais de cinco mil metros para vinte segundos de medies.

Camilla deu de ombros.

- E s Deus sabe quantos anos-luz para chegar aqui. A cincia  assim mesmo, Rafe.
- E, agora, s nos resta esperar pela noite, a fim de que voc possa realizar suas observaes astronmicas.

Depois de guardar a vareta de alumnio, Rafe sentou numa pedra, desfrutando o calor raro do sol. Camilla circulou pelo acampamento durante algum tempo, depois foi sentar ao seu lado.

- Acha mesmo que pode determinar a posio deste planeta, Camilla?
- Espero que sim. Pelo menos quero tentar, vou procurar variveis cefedas conhecidas, efetuando observaes por um perodo determinado. Se conseguir encontrar pelo menos trs que possa identificar com segurana absoluta, ser possvel determinar onde nos encontramos, em relao ao centro da Galxia.
- Pois ento vamos rezar por mais algumas noites claras - murmurou Rafe, calando-se em seguida.

Depois de algum tempo, observando-o a estudar as rochas a menos de trinta metros acima, Camilla disse:

- V em frente, Rafe. Sei que quer continuar a escalada. Pode ir. No me importo.
- No se importa mesmo? Ficaria esperando aqui?
- Quem disse que ficarei esperando? Acho que posso subir tambm. E... - Ela sorriu. - Creio que estou to curiosa quanto voc. . . em contemplar o que existe alm!

Ele se levantou na maior animao.

- Podemos deixar tudo aqui, menos os cantis.  uma escalada bastante fcil. . . no d nem para chamar de escalada,  quase um passeio.

Rafe sentia-se exultante, numa alegria intensa por descobrir que ela partilhava seu nimo. Seguiu na frente, procurando o percurso mais fcil, indicando onde ela devia se apoiar. O bom senso dizia-lhe que aquela escalada, baseada apenas na curiosidade em ver o que havia alm e no nas necessidades da misso, era um tanto imprudente - quem podia se arriscar a um tornozelo torcido? - mas no podia se conter. Finalmente subiram os ltimos metros e olharam alm do pico. Camilla soltou uma exclamao de surpresa e alguma consternao. A montanha ocultara o que havia alm, uma enorme cordilheira que parecia interminvel, estendendo-se at onde a vista podia alcanar, coberta por neve eterna, irregular, com vastas geleiras e picos sob os quais pairavam nuvens claras. Rafe soltou um assovio.

- Santo Deus, isto faz com que o Himalaia parea uma mera serra! - ele murmurou.
- Parece que se prolonga de modo interminvel! Provavelmente no vimos antes porque o ar no estava to claro, com as nuvens, nevoeiro e chuva, mas. . . - Camilla sacudiu a cabea, espantada. - Parece uma muralha ao redor do mundo!
- Isso explica mais alguma coisa. A aberrao do tempo. Com essa sucesso de geleiras, no  de admirar que haja uma chuva quase perptua, nevoeiro, neve. . . e tudo o mais que quiser! E se aquelas montanhas so mesmo to altas quanto parecem. . . No sei dizer a que distncia esto, mas num dia claro como este acho que podem muito bem se encontrar a uns cento e cinqenta quilmetros. . . Tambm explicaria a inclinao deste mundo sobre seu eixo. Chamam o Himalaia na Terra de terceiro eixo. Pois aqui temos um terceiro plo de verdade! Uma autntica calota polar!
- Prefiro olhar para o outro lado. - Camilla virou-se para a sucesso de vales e florestas verdes-violeta. - Prefiro meus planetas com rvores e flores. . . e sol, mesmo que a luz do sol tenha a cor de sangue.
- Vamos torcer para que nos mostre algumas estrelas esta noite. . . e algumas luas.

CAPTULO
QUATRO
- No posso acreditar neste tempo - comentou Heather Stuart. Ewen, passando pela entrada da tenda, escarneceu gentilmente:
- O que me diz agora de suas predies de nevasca?
- Fico contente de ter me enganado - respondeu Heather, com firmeza. - Rafe e Camilla precisam de um tempo assim, l no alto da montanha.

Uma expresso apreensiva surgiu em seu rosto e ela acrescentou:

- Mas no tenho certeza ainda se estava mesmo enganada. H alguma coisa no tempo aqui que me deixa um pouco assustada. Parece completamente errado para este planeta.

Ewen soltou uma risada.

- Ainda defendendo a honra de sua velha av das Terras Altas e sua segunda viso?

Heather no sorriu.

- Nunca acreditei em segunda viso. Nem mesmo nas Terras Altas. Mas agora j no tenho tanta certeza. . . Como est Marco?
- No houve muita mudana, embora Judy conseguisse faz-lo engolir um pouco de caldo. Ele parece estar melhorando, embora a pulsao ainda seja irregular demais. Por falar nisso, onde est Judy?
- Entrou na floresta com MacLeod. Mas eu a fiz prometer que no perderia a clareira de vista.

Um som no interior da tenda atraiu os dois; pela primeira vez em trs dias, Zabal emitia alguma coisa alm de gemidos inarticulados. Ele estava se mexendo, fazendo um esforo para sentar. E murmurou, a voz rouca e aturdida:

- Que pas? O Dio, mi duele... duele tanto... Ewen inclinou-se para ele, dizendo gentilmente:
- Est tudo bem, Marco, estamos cuidando de voc. Sente alguma dor?

Zabal murmurou mais alguma coisa em espanhol. Ewen, sem entender, olhou para Heather, que sacudiu a cabea.

- No falo espanhol. Camilla  que fala. Eu s conheo, algumas palavras.

Mas antes que ela pudesse dizer alguma, Zabal acrescentou em ingls:

- Dor? E que dor! O que eram aquelas coisas? H quanto temp... Onde est Rafe?

Ewen verificou a pulsao do homem antes de falar.

- No tente sentar. Porei um travesseiro atrs de sua cabea. Esteve muito doente e chegamos a pensar que no conseguiria sobreviver.

E ainda no tenho certeza se conseguir, pensou Ewen, sombriamente, enquanto dobrava seu casaco extra para ajeitar sob a cabea do paciente. Heather tentou encoraj-lo a tomar um pouco de sopa. No, por favor, j houve mortes demais, suplicou Ewen. Mas sabia que isso no faria a menor diferena. Na Terra s os velhos morriam, como regra geral. Ali... ali era diferente. Muito diferente.

- No desperdice seu flego falando, Marco. Guarde suas foras, enquanto lhe contamos tudo o que aconteceu.

...

A noite caiu, ainda milagrosamente clara e sem nevoeiro ou chuva. Mesmo naquela altura, nenhum nevoeiro os envolveu. Rafe, armando a luneta e os outros instrumentos de Camilla no trecho plano do acampamento, viu pela primeira vez as estrelas surgirem por cima dos picos, claras e brilhantes, mas muito distantes. No distinguia uma varivel cefeda de uma constelao, muito do que Camilla tentava fazer era incompreensvel para ele, mas com a ajuda de uma luz cuidadosamente protegida, a fim de no prejudicar a adaptao  escurido dos olhos de Camilla, Rafe anotou a sucesso de dados e coordenadas que ela ditava. Depois do que pareceram horas, ela suspirou e esticou os msculos doloridos.

- Isso  tudo o que podemos fazer por enquanto. Poderei fazer mais registros pouco antes do amanhecer. Ainda no h qualquer sinal de chuva?
- Absolutamente nenhum, graas a Deus.

Ao redor, a fragrncia das flores nas encostas mais baixas era intensa e inebriante, os arbustos desabrochando depressa, revigorados por dois dias de calor e seca. Os cheiros desconhecidos eram um pouco estonteantes. Uma lua enorme e brilhante flutuava sobre a montanha, com um brilho iridescente plido; e poucos momentos depois outra lua seguiu a primeira, com um brilho violeta.

- Olhe s para a lua! - sussurrou Camila.
- Que lua? - Rafe sorriu na escurido. - Os terrqueos acostumaram-se a dizer a lua. Imagino que algum dia algum lhes dar nomes. . .

Ficaram sentados na relva seca e macia, observando as luas desprenderem-se das montanhas e subirem pelo cu. Rafe citou, baixinho:

- Se as estrelas brilhassem apenas uma noite em mil anos, ainda assim os homens haveriam de contemplar, admirar e adorar.

Ela balanou a cabea.

- Mesmo depois de dez dias apenas, j me descubro a sentir sua falta.

Racionalmente, Rafe sabia que era uma loucura ficar sentado ali no escuro. Pensou se nada mais, aves ou bestas predadoras - talvez o banshee gritador das alturas que haviam ouvido na noite anterior - poderiam estar  espreita no escuro. Ele acabou fazendo esse comentrio e Camilla, como se um encantamento fosse rompido, estremeceu e disse:

- Tem razo. E preciso acordar muito antes do amanhecer.

Rafe sentia alguma relutncia em entrar para a escurido abafada da tenda.

- Nos   velhos  tempos   achava-se  que  era perigoso  dormir  ao luar...  da que vem a palavra luntico. Seria quatro vezes mais perigoso dormir sob quatro luas?
- No, mas seria... luntico - respondeu Camilla, rindo.

Ele parou, segurou-a pelos ombros com uma firmeza gentil. Por um momento, reprimindo um comentrio irnico, Camilla pensou, com uma mistura de medo e expectativa, que ele ia beij-la; mas depois Rafe largou-a, virou-se e murmurou:

- Quem quer ser so? Boa noite, Camilla. Voltaremos a nos falar uma hora antes do nascer do sol.

E ele afastou-se, deixando-a para entrar primeiro no abrigo. Uma noite clara, no planeta das quatro luas. Os banshees vagueavam pelas alturas, paralisando as presas de sangue quente com seus gritos, mas nunca descendo alm da linha da neve; numa noite sem neve, qualquer criatura sobre rocha ou relva estava segura. Por cima dos vales, enormes aves de rapina voavam; bestas ainda desconhecidas dos terrqueos vagueavam nas profundezas da floresta, vivendo e morrendo, rvores estranhas caam estrepitosamente. Ao luar, no calor e secura inesperados de um vento quente soprando das geleiras, as flores desabrochavam e se abriam, exalavam perfume e plen. Um desabrochar noturno e estranho, com uma fragrncia profunda e inebriante. . .

O sol vermelho elevou-se por um cu claro, sem nuvens, um amanhecer espetacular, o sol parecendo um gigantesco rubi num cu de granada. Rafe e Camilla, que h duas horas se concentravam na luneta, sentaram e contemplaram, com a fadiga agradvel de um trabalho leve encerrado, pelo menos por algum tempo.

- Vamos comear a descer? - sugeriu Camilla. - O tempo est bom demais para durar. J me acostumei  montanha com sol, mas no gostaria de desc-la com gelo.
- Tem toda razo. Guarde os instrumentos... sabe como arrum-los melhor do que eu... enquanto providencio alguma coisa para comermos e desarmo a tenda. Vamos aproveitar enquanto o tempo se mantm assim... embora tudo indique que ser um dia glorioso. Se continuar assim esta noite, poderemos acampar no alto de uma das colinas inferiores e voc far mais algumas observaes.

Quarenta minutos depois eles estavam descendo. Rafe lanou um olhar ansioso para a gigantesca cordilheira desconhecida, antes de virar as costas. Era a sua cordilheira inexplorada e provavelmente nunca mais tornaria a v-la.

No tenha tanta certeza assim, murmurou uma voz em sua mente, mas ele ignorou-a. No acreditava em premonio.

Ele farejou as fragrncias das flores, meio apreciando, meio perturbado pela suavidade um pouco acre. As mais numerosas eram as pequenas flores laranja que Camilla colhera no dia anterior, mas havia tambm uma flor branca deslumbrante, no formato de uma estrela, com a corola dourada, e uma flor azul parecendo uma campnula, as hastes internas cobertas por um p dourado tremeluzente. Camilla inclinou-se, aspirando a intensa fragrncia. Rafe lembrou-se de adverti-la, depois de um momento:

- J esqueceu como Heather e Judy ficaram verdes? No aprendeu a lio?

Ela fitou-o, rindo.

- Se fosse me fazer mal, isso j teria acontecido... o ar est impregnado da fragrncia, ou ser que ainda no notou? Ah, como  lindo, to lindo... sinto-me como uma flor tambm, como se pudesse me embriagar com o perfume das flores...

Ela ficou imvel, extasiada, contemplando as lindas flores azuis em forma de campnulas, parecendo tremeluzir com o p dourado. Embriagada, pensou Rafe, embriagada com as flores. Ele deixou a mochila deslizar dos ombros e rolar para longe.

- Voc  uma flor - murmurou, com a voz rouca.

Ele pegou Camilla e beijou-a; ela ergueu os lbios para encontr-lo, timidamente a princpio, depois com crescente paixo. Permaneceram abraados no campo de flores ondulantes, at que Camilla desvencilhou-se e correu para o regato que descia pela encosta, rindo, abaixando-se para enfiar as mos na gua.

Rafe teve um pensamento, aturdido: O que aconteceu conosco? Mas o pensamento passou rpido por sua mente e desapareceu. O corpo esguio de Camilla parecia vibrar, entrava e saa de foco. Ela tirou as botas e as meias, mergulhou os ps na gua.

Rafe inclinou-se e puxou-a para a relva macia.

...

No acampamento l embaixo Heather Stuart despertou lentamente, sentindo o sol quente atravs da seda laranja da tenda. Marco Zabal ainda cochilava em seu canto, o cobertor puxado por cima da cabea; mas, enquanto ela olhava, ele comeou a se mexer, baixou o cobertor e sorriu-lhe.

- Quer dizer que voc tambm ainda dormia at agora?
- Os outros devem ter sado para a clareira - respondeu Heather. - Judy disse que queria testar as nozes de algumas rvores,  procura de carboidratos comestveis... e seu equipamento de teste no est aqui. Como se sente agora, Marco?
- Melhor - ele murmurou, esticando-se. - Talvez eu deva me levantar por algum tempo hoje. Alguma coisa no ar e no sol me faz sentir bem.
- Est mesmo um dia maravilhoso.

Heather tambm podia sentir um bem-estar e euforia extras no ar perfumado. Deve ser o teor elevado de oxignio.

Ela saiu para o ar claro, esticando-se toda, como um gato ao sol. Uma imagem ntida aflorou em sua mente, intensa e intrusa, estranhamente excitante; Rafe, puxando Camilla para seus braos...

- Lindo! - ela exclamou, respirando fundo, aspirando a fragrncia estranha, parecendo dourada, que parecia impregnar o vento quente.
- O que  lindo? Voc ! - disse Ewen, contornando a tenda e rindo. - Vamos dar um passeio pela floresta. . .
- Marco. . .
- Marco est melhor. J pensou que com tanta gente ao redor mal pudemos conversar desde o acidente?

De mos dadas, eles correram para as rvores; MacLeod, saindo da beira da floresta, as mos cheias de frutos redondos, esverdeados, estendeu um punhado. O sumo pingava de seu lbios.

- Tomem aqui. So maravilhosos. . .

Rindo, Heather mordeu o globo redondo e macio. Estava repleto de um sumo doce e fragrante; ela comeu tudo, vorazmente, estendeu a mo para pegar outro. Ewen tentou impedi-la.

- Heather, voc est louca! Esses frutos ainda no foram testados. . .
- Eu testei. - MacLeod soltou uma risada. - Comi meia dzia como desjejum e me sinto muito bem! Podem dizer que sou adivinho, se quiserem. No faro mal algum e contm todas as vitaminas que existem na Terra e mais algumas que nem conhecemos! Posso garantir!

Seus olhos se encontraram com os de Ewen. O jovem mdico, uma estranha percepo aflorando em sua mente, disse lentamente:

- Tem razo.  claro que sabe que so bons. Assim como aqueles cogumelos... - Ele apontou para alguns fungos cinza que cresciam numa rvore. - ... so saudveis e contm muita protena, mas aquilo... - Ele apontou para uma noz dourada. - ... venenoso. Duas mordidas o deixariam com uma tremenda dor de barriga e meia xcara mataria... como sei de tudo isso?

Ele esfregou a testa, sentindo por trs um estranho comicho, tirou um fruto de Heather.

- Pois ento vamos ficar todos loucos juntos. Maravilhoso! Muito melhor que as raes... Onde est Judy?
- Ela est bem - respondeu MacLeod, rindo. - Vou procurar mais alguns frutos!

Marco Zabal estava deitado sozinho na tenda, os olhos fechados, meio sonhando, sentindo atravs das plpebras o sol nas colinas bascas de sua infncia.  distncia, na floresta, tinha a impresso de ouvir uma msica, um canto que parecia se prolongar interminvel, alto, claro e melodioso. Levantou-se, sem se preocupar em vestir alguma coisa, ignorando as batidas fortes de advertncia do corao. Uma incrvel sensao de bem-estar e beleza parecia domin-lo. O sol brilhava na clareira inclinada, as rvores pareciam se erguer escuras e protetoras como um teto aconchegante, as flores pareciam faiscar e cintilar com um brilho que era como ouro, laranja, azul; cores que nunca vira antes tremeluziam diante de seus olhos.

Do fundo da floresta vinha o som de canto, alto, estridente, incrivelmente melodioso; a flauta de P, a lira de Orfeu, o chamado das sereias. Sentiu que a fraqueza se desvanecia, a juventude era restaurada.

No outro lado da clareira avistou trs de seus companheiros estendidos na relva, rindo, a moa chutando flores para o ar com os dedos dos ps descalos. Parou, extasiado, contemplando-a, envolvido por um momento nas teias da fantasia dela... sou uma mulher feita de flores... mas o canto distante o atraa; eles chamaram-no, mas Zabal sorriu, soprou um beijo para a moa, correu para a floresta como um jovem.

A distncia podia divisar um brilho branco - Uma ave? Um corpo nu? -, nunca soube at onde correu, mal sentindo o corao disparado, dominado pela euforia gloriosa de liberdade da dor, seguindo o brilho branco da pessoa distante - ou ave? - chamando com uma mistura de xtase e angstia:

- Espere, espere. . .

A cano tornou-se mais intensa, parecia preencher toda a sua cabea e corao. Gentilmente, sem sofrimento, caiu na relva perfumada. O canto continuou, e ele viu se inclinando em sua direo um rosto claro, cabelos longos e incolores balanando em torno dos olhos, uma voz muito suave, to suave que no podia ser humana, os cabelos se transformando em prata aos raios do sol que penetravam pelas rvores. E Marco Zabal chorou de felicidade, mergulhou alegremente com a mulher na escurido, o rosto terno e desvairado impresso em seus olhos agonizantes.

...

Rafe correu pela floresta, o corao disparado, escorregando e caindo no caminho ngreme. E gritava enquanto corria:

-  Camilla! Camilla!

O que acontecera? Num momento ela se encontrava em paz nos seus braos... e depois o terror total estampara-se em seu rosto e ela gritara, comeara a balbuciar alguma coisa sobre rostos nos picos, rostos nas nuvens, vastos espaos abertos esperando para se abaterem sobre ela e esmag-la, no instante seguinte desvencilhara-se e sara correndo entre as rvores, berrando desvairada.

As rvores pareciam balanar e cair diante de seus olhos, formar longas garras negras para agarr-lo, fazendo-o tropear, jogando-o em espinheiros, que deixavam seus braos arranhados, ardendo como se pegassem fogo. Um relmpago surgiu, com a cor da dor em seu brao; sentiu um terror sbito e incontrolvel, como se algum animal desconhecido abrisse impetuoso uma trilha na floresta, um estouro, cascos, batendo, batendo, esmagando-o... ele passou os braos em torno do tronco de uma rvore, agarrando-se com toda fora, as batidas do corao expulsando todos os outros pensamentos. O tronco era liso e macio, como o plo de algum animal; encostou o rosto quente ali. E das rvores rostos o observavam, rostos, rostos...

- Camilla... - ele balbuciou, atordoado, resvalando para o cho, onde ficou estendido, inconsciente.

Nas alturas, as nuvens se acumularam; o nevoeiro comeou a se formar. O vento morreu e uma chuva fina comeou a cair, pouco a pouco se misturando com neve; primeiro nas alturas, depois no vale. As flores fecharam suas campnulas; as abelhas e insetos procuraram seus buracos nos troncos das rvores e nos arbustos; e o plen espalhou-se no solo. . .

Camilla despertou, aturdida, na semi-escurido. Nada se lembrava depois que sara correndo, gritando, em pnico pela vastido como se fosse o espao interestelar, nada entre ela e as estrelas... no. Isso fora um delrio. Tudo teria sido um delrio? Ela explorou lentamente na escurido, foi recompensada por um sbito brilho. . . a entrada de uma caverna. Foi at l e estremeceu com o frio sbito. Usava apenas uma blusa fina de algodo e a cala, rasgada e desarrumada. . . no. Graas a Deus, o parka estava preso no pescoo pelas mangas. Rafe o pusera ali, enquanto estavam deitados juntos na margem do crrego.
Rafe... Onde ele estava? E j que pensava nisso, onde ela estava? Quanto dos sonhos incontrolveis e frenticos fora real, quanto no passara de uma fantasia insana? Era evidente que fora dominada por alguma febre, alguma doena que se encontrava  espreita ali. Aquele planeta horrvel! Aquele lugar horrvel! Quanto tempo teria passado? Por que estava ali sozinha? Onde haviam ficado seus instrumentos cientficos, sua mochila? E onde.... essa era a questo mais angustiante... onde se encontrava Rafe?

Ela fez um esforo para vestir o parka e levantou o zper. Sentiu que o pior da tremedeira se desvanecera, mas ainda estava com fome, frio e nuseas, o corpo doa e latejava com uma centena de arranhes e equimoses. Rafe a deixara ali, no abrigo da caverna, enquanto partia em busca de socorro? Permanecera prostrada em febre e delrio por muito tempo? No, ele teria deixado alguma mensagem, para o caso de ela recuperar a conscincia antes de sua volta.

Camilla olhou atravs da neve caindo, tentando calcular onde poderia se encontrar. Uma encosta escura erguia-se por cima. Devia ter se metido na caverna no terror desvairado dos espaos abertos ao redor, procurando alguma escurido e abrigo contra o medo que a dominava. Talvez MacAran vagueasse por aquele tempo terrvel  sua procura, poderiam andar por horas no escuro, perdendo um ao outro por poucos passos, com toda aquela neve.

A lgica forou-a a sentar e fazer uma anlise da situao. Estava bem agasalhada agora, podia se abrigar na caverna at o amanhecer. Mas o que aconteceria se MacAran tambm estivesse perdido na encosta da colina? Ambos teriam sido atacados por aquele medo sbito, aquele pnico? E de onde viera, aquela alegria, o abandono... No, devia deixar isso para depois, no podia pensar a respeito agora.

Onde MacAran a procuraria? A melhor coisa era subir, na direo do pico. Isso mesmo. Haviam deixado as mochilas ali; e era o nico lugar de onde podiam se orientar, quando o sol subisse e a neve cessasse. Ela iria subir, assumindo o risco de que a lgica levaria MacAran a fazer a mesma coisa. Se no, se estivesse sozinha quando o dia raiasse, seguiria para o acampamento, onde os outros poderiam ajudar... ou para a nave.

Ela foi subindo pela escurido, sob a neve caindo, tentando sempre seguir em linha reta. Depois de algum tempo adquiriu a impresso de que estava na mesma trilha pela qual haviam subido antes.

 isso mesmo. Era uma certeza interior, to profunda que ela passou a avanar mais depressa na escurido. No demorou muito para que avistasse, sem surpresa, uma pequena luz balanando, irradiando centelhas laranja contra os flocos de neve; e MacAran avanou em sua direo, e segurou-lhe as mos.

- Como soube onde me procurar? - indagou Camilla.
- Pressentimento... ou alguma outra coisa. -  claridade mnima da lanterna, ela podia ver a neve aderindo nas sobrancelhas e pestanas de MacAran. - Eu apenas sabia. Camilla... no vamos desperdiar nosso flego tentando descobrir agora como as coisas aconteceram. Ainda  uma longa subida para o lugar em que deixamos as mochilas e os equipamentos.

Contraindo os lbios em amargura  lembrana da maneira como se desfizera da mochila, ela indagou:

- Acha que ainda esto no lugar em que as deixamos? MacAran ps a mo sobre a sua.
- No se preocupe com isso. Vamos embora. Voc precisa descansar. Conversaremos a respeito mais tarde.

Ela relaxou, deixando-o guiar seus passos na escurido. MacAran explorava aquela nova certeza, especulando de onde tudo viera. Nunca, por um momento sequer, duvidara de que avanava diretamente para Camilla na escurido, podia senti-la  sua frente, mas no havia como dizer isso sem parecer completamente maluco.

Encontraram a pequena tenda armada sob a proteo da rochas. Camilla entrou agradecida, satisfeita porque MacAran a poupara da luta na escurido. MacAran sentia-se confuso; quando haviam armado a tenda? No haviam desarmado e guardado tudo nas mochilas, antes de comearem a descer, naquela manh? Fora antes ou depois de deitarem  margem do crrego? A preocupao angustiava-o, mas apressou-se em descart-la. Afinal, ambos se encontravam fora do normal, poderiam ter feito qualquer coisa sem perceberem. Ele experimentou um alvio considervel ao descobrir que as mochilas estavam impecavelmente arrumadas l dentro... Tivemos muita sorte, poderamos ter perdido todos os clculos...

- Quer que eu prepare alguma coisa para comer antes de deitar? Camilla sacudiu a cabea.
- Eu no conseguiria comer. Tenho a sensao de que estive delirando. O que nos aconteceu, Rafe?
- No tenho a menor idia. - Ele sentia-se inexplicavelmente inibido. - Comeu alguma coisa na floresta... talvez um fruto?
- No. Lembro que senti vontade, parecia muito saboroso, mas no ltimo instante... bebi gua.
- Esquea. gua  gua e Judy testou-a; assim, podemos exclu-la.
- Mas deve ter sido alguma coisa.
- Eis algo que no posso contestar. Mas prefiro no discutir o assunto esta noite. Poderamos remoer por horas, sem sequer chegar perto de uma resposta. - Ele apagou a luz. - Tente dormir. J perdemos um dia.

No escuro, Camilla murmurou:

- Resta-nos esperar que Heather tenha se enganado quanto  nevasca.

MacAran no disse nada. Mas pensou: ela disse nevasca ou apenas falou em tempo! O tempo aberrante poderia ter alguma relao com o que acontecera? Experimentou outra vez a estranha sensao de que estava perto de uma resposta e no conseguia perceb-la, o cansao era to grande que a soluo se esquivava. Ainda procurando, ele acabou pegando no sono.


CAPITULO
CINCO
Encontraram Marco Zabal depois de uma hora a procur-lo e cham-lo pela floresta, estendido ao lado do tronco acinzentado de uma rvore desconhecida, o corpo j rgido. A neve o cobrira com uma mortalha de um centmetro de espessura, e ao seu lado Judith Lovat se ajoelhava, to plida e imvel sob os flocos caindo que a princpio pensaram, consternados, que ela tambm morrera.

E depois ela se mexeu, fitou-os com olhos atordoados. Heather ajoelhou-se ao seu lado, ajeitou uma manta em torno de seus ombros, tentou obter sua ateno com palavras suaves. Judy no disse nada durante todo o tempo em que MacLeod e Ewen carregaram o corpo de Marco para a tenda. Heather teve de guiar seus passos, como se ela estivesse drogada ou em transe.

 medida que a pequena procisso fnebre avanava sob a neve, Heather teve a impresso ou fantasiou que podia sentir os pensamentos dos outros turbilhonando em seu crebro. O desespero sombrio de Ewen. . . que tipo de mdico eu sou, fico rolando pela relva, me divertindo, enquanto meu paciente sai correndo enlouquecido e morre... A estranha confuso de MacLeod, misturando-se com sua prpria fantasia, uma antiga lenda folclrica que ela ouvira na infncia, o heri nunca deveria ter mulher ou esposa, de carne e osso ou da terra das fadas, por isso fizeram para ele uma mulher de flores. . . eu era a mulher de flores. . .

Ewen arriou dentro da tenda, olhando fixamente para a frente, sem se mexer. Mas Heather, extremamente nervosa com o persistente olhar vidrado de Judy, foi sacudi-lo.

- Ewen! Marco est morto, no h nada que possa fazer por ele agora. Mas Judy continua viva e voc precisa dar um jeito de despert-la.

Arrastando-se, exausto, os pensamentos parecem uma nuvem negra ao seu redor, pensou Heather, sacudindo a cabea para desanuvi-la, Ewen foi inclinar-se para Judith Lovat, verificando o pulso, o corao. Iluminou os olhos dela com uma pequena lanterna e depois perguntou:

- Judy, foi voc quem estendeu o corpo de Marco do jeito como o encontramos?
- No, no fui eu - ela murmurou. - Era o belo, o belo. Pensei a princpio que era uma mulher, como um pssaro cantando, e seus olhos. . . seus olhos. . .

Ewen virou-se, desesperado, disse bruscamente:

- Ela ainda est delirando. Providencie alguma coisa para ela comer, Heather, tente faz-la engolir. Todos precisamos de alimento. . . e muito. Desconfio que metade do nosso problema neste momento  uma baixa taxa de acar no sangue.

MacLeod sorriu, amargo.

- Houve uma ocasio em que tomei uma dose do suco da felicidade contrabandeado de Alfa. Senti mais ou menos a mesma coisa. O que nos aconteceu, Ewen? Voc  o mdico, deve nos dizer.
- Deus  testemunha de que no sei. Pensei a princpio que eram os frutos, mas s comeamos a com-los depois. E todos tomamos a gua h trs dias, no houve mal algum. De qualquer maneira, nem Judy nem Marco tocaram no fruto.

Heather ps uma tigela de sopa quente em suas mos, depois foi se ajoelhar junto de Judith, ajudando-a a tomar a sopa, ao mesmo tempo que tomava a sua. MacLeod disse:

- No tenho a menor idia do que aconteceu primeiro. Parecia como... no sei direito... subitamente era como se um vento frio soprasse por meus ossos, sacudindo-me... e abrindo-me de alguma forma. Foi quando eu soube que os frutos eram bons para comer e experimentei um. . .
- Uma temeridade - comentou Ewen.

Mas MacLeod, ainda com aquela abertura, compreendeu que o jovem mdico estava apenas censurando a si mesmo por sua prpria negligncia.

- Por qu? Os frutos eram mesmo bons, ou estaramos doentes agora.

Heather interveio, hesitante:

- No posso deixar de pensar que foi alguma coisa relacionada com o tempo. Alguma alterao.
- Um vento psicodlico - escarneceu Ewen. - Um vento fantasma que nos deixou todos temporariamente insanos!
- J aconteceram coisas mais estranhas - insistiu Heather. Habilmente, ela conseguiu introduzir outra colher de sopa na boca frouxa de Judy. A mulher mais velha piscou, atordoada, e murmurou:
- Heather? Como vim at aqui?
- Ns a trouxemos, querida. Voc est bem agora.
- Marco. . . eu vi Marco. . .
- Ele est morto - informou Ewen, gentilmente. - Correu para a floresta quando todos enlouquecemos e no o vi mais. Deve ter forado o corao a um ponto insuportvel. . . eu o advertira para nem sequer tentar sentar.
- Quer dizer que foi o corao? Tem certeza?
- Tanta quanto  possvel sem uma autpsia. - Ewen tomou o resto da sopa. A cabea estava desanuviando, mas o sentimento de culpa persistia e sabia que nunca conseguiria se livrar por completo. - Devemos comparar as observaes, enquanto os acontecimentos ainda esto frescos em nossas mentes. Deve haver algum fator comum, alguma coisa que todos fizemos, comemos ou bebemos. . .
- Ou respiramos - acrescentou Heather. - S pode ter sido alguma coisa no ar, Ewen. Apenas ns trs comemos os frutos. Voc no comeu nada, no  mesmo, Judy?
- Comi, sim. . . uma coisa cinzenta na beira de uma rvore.
- Mas ns nem tocamos nisso - disse Ewen. - S MacLeod. Ns trs comemos os frutos, mas Marco e Judy no comeram. MacLeod comeu os fungos cinzentos, mas nenhum de ns comeu. Judy cheirava as flores e MacLeod as manuseava, mas nem Heather nem eu fizemos isso, at depois. Ns trs deitamos na relva. . . - Ele viu que o rosto de Heather ficava vermelho, mas continuou assim mesmo. - . . . e ns dois fazamos amor com ela, os trs sofriam alucinaes. Se Marco levantou e correu para a floresta, s posso presumir que ele tambm sofreu alucinaes. Como comeou no seu caso, Judy? Ela balanou a cabea.
- No sei. S posso dizer. . . as flores pareciam mais brilhantes, o cu dava a impresso. . . de se abrir como um gigantesco arco-ris. Arco-ris e prismas. Ouvi um canto, deviam ser passarinhos, mas no tenho certeza. Fui para o lugar das sombras, eram de tonalidades prpura, lils e azul. E foi ento que ele apareceu. . .
- Marco?

Ela sacudiu a cabea.

- No. Ele era muito alto e tinha cabelos prateados. . . Ewen comentou, compadecido:
- Judy, voc teve alucinaes. Eu pensei que Heather era feita de flores.
- As quatro luas. . . pude v-las, embora o cu estivesse claro - disse Judy. - Ele no falou coisa alguma, mas eu podia ouvi-lo pensando.
- Parece que todos ns tivemos essa iluso - declarou MacLeod. - Se  que foi mesmo uma iluso.
- Claro que foi - assegurou Ewen. - No encontramos nenhum vestgio de qualquer outra forma de vida inteligente aqui. Esquea, Judy, e trate de dormir. Quando voltarmos  nave. . . ter de haver um inqurito.

Negligncia do dever, isso ser o mnimo. Poderei alegar insanidade temporria?

Ele ficou observando Heather acomodar Judy no saco de dormir. Depois que a mulher mais velha finalmente dormiu, Ewen murmurou, exausto:

- Precisamos enterrar Marco. Detesto fazer isso sem uma autpsia, mas a alternativa seria carreg-lo de volta  nave.
- Vamos parecer muito idiotas se voltarmos e alegarmos que todos enlouquecemos ao mesmo tempo. - MacLeod no olhou para Ewen e Heather enquanto acrescentava, contrafeito: - Eu me sinto um idiota completo. . . sexo grupal nunca foi do meu agrado. . .
- Teremos todos de perdoar uns aos outros e esquecer - declarou Heather, firmemente. - Aconteceu, isso  tudo. E, por tudo o que sabemos, aconteceu com eles tambm. . . - Ela fez uma pausa, atordoada com o pensamento terrvel. - Imaginem esse tipo de coisa acontecendo com duzentos pessoas. . .
- No gosto nem de pensar - murmurou MacLeod, estremecendo. Ewen comentou que a insanidade coletiva no era uma novidade.
- Aldeias inteiras. A dana da loucura na Idade Mdia. E ataques de ergotismo. . . de centeio estragado transformado em po.
- No creio que a coisa, o que quer que tenha sido, espalhou-se pela montanha abaixo - disse Heather.
- Imagino  que   outro dos  seus pressentimentos - murmurou Ewen, suavemente. - A esta altura, desconfio que estamos todos bem perto disso. Vamos parar de teorizar sem fatos e esperar at termos alguns fatos.
- Ser que isto  um fato? - indagou Judy, sentando-se abruptamente. Todos pensavam que ela dormia. Judy tateou na blusa rasgada e tirou alguma coisa envolta em folhas. - Isto... ou isto.

Ela entregou a Ewen uma pequena pedra azul, como uma safira astria.

- Linda... - ele murmurou. - Mas voc a encontrou na floresta...
- Exatamente. E encontrei isto tambm.

Ela estendeu para Ewen e, por um momento, os trs no puderam literalmente acreditar em seus olhos.

Tinha menos de quinze centmetros de comprimento. O cabo era feito de alguma coisa que parecia osso trabalhado, delicado, mas sem qualquer ornamentao. Quanto ao resto, no podia haver a menor dvida.

Era uma pequena faca de pedra.

CAPITULO
SEIS
Nos dez dias de ausncia da expedio de explorao, a clareira parecia ter aumentado. Mais duas ou trs construes pequenas haviam sido erguidas em torno da nave; e numa beira da clareira havia uma rea cercada, com uma pequena placa que proclamava REA DE TESTE AGRCOLA.

- Isso deve ter alguma coisa a ver com a nossa comida - comentou MacLeod.

Mas Judith no disse nada e Ewen fitou-a atentamente. Ela se mantinha estranhamente aptica desde Aquele Dia - era assim que todos pensavam a respeito -, deixando Ewen na maior preocupao. No era um psiclogo, mas sabia que havia algo profundamente errado. Fiz tudo errado. Deixei Marco morrer, no fui capaz de trazer Judy de volta  realidade.

Chegaram ao acampamento quase despercebidos e por um instante MacAran sentiu uma pontada de apreenso. Onde estavam todos? Haviam tambm enlouquecido naquele dia? A loucura dominara a todos ali tambm? Quando ele e Camilla alcanaram o acampamento inferior da expedio, para encontrar Heather, Ewen e MacLeod ainda conversando em voz rouca na tentativa de encontrar alguma explicao, fora um momento terrvel. Se a loucura prevalecia naquele planeta, pronta a reclamar a todos, como poderiam sobreviver? Que coisas piores os aguardavam ali? Agora, correndo os olhos pela clareira vazia, MacAran experimentou outra vez uma pontada de medo; e depois avistou um pequeno grupo em uniforme mdico saindo do hospital de campanha e mais adiante alguns tripulantes entrando na nave. Relaxou; tudo parecia normal.

Mas ns tambm parecemos. . .

- Qual  a primeira coisa a fazer? - ele indagou. - Devemos apresentar um relatrio direto ao comandante?
-  o que pelo menos eu devo fazer - respondeu Camilla.

Ela parecia mais magra, quase encovada. MacAran sentiu vontade de pegar sua mo e confort-la, embora no soubesse direito o motivo. Desde que haviam deitado enlaados na montanha que sentia uma fome intensa por ela, um sentimento de proteo exagerado; contudo, ela o evitava sistematicamente, retirando-se para sua auto-suficincia antiga e profunda. MacAran estava magoado e ressentido, um tanto perdido. No se atrevia a toc-la, e isso o deixava irritado.

- Espero que ele queira receber a todos ns - disse MacAran. - Temos de comunicar a morte de Marco e onde o enterramos. E tambm trouxemos muitas informaes. Para no falar da faca de pedra.
- Tem razo. Se o planeta  habitado, isso cria outro problema - comentou MacLeod, mas sem discorrer a respeito.

O Comandante Leicester estava no interior da nave, mas um oficial l fora informou aos membros da expedio que ele dera ordens para que o avisassem assim que eles voltassem. O oficial mandou cham-lo, e eles ficaram esperando no domo pequeno, nenhum deles sabia o que iriam dizer.

O Comandante Leicester entrou no domo. Parecia um pouco mais velho, o rosto contrado, com novas rugas. Camilla levantou-se quando ele entrou, mas Leicester gesticulou para que ela tornasse a sentar.

- Esquea o protocolo, tenente - disse ele, gentilmente. - Todos parecem cansados. Foi uma viagem rdua? Vejo que o Dr. Zabal no est com vocs.
- Ele morreu, senhor - respondeu Ewen. - Foi picado por insetos venenosos. Apresentarei um relatrio completo mais tarde.
- Encaminhe-o paia o mdico-chefe - disse o comandante. - No estou mesmo qualificado a compreender. Os outros podem apresentar seus relatrios na prxima reunio. . . que dever ser esta noite. Sr. MacAran, conseguiu efetuar os clculos que desejava?

MacAran acenou com a cabea.

- Obtive, sim; at onde pudemos calcular, o planeta  um pouco maior do que a Terra, o que significa, com a gravidade menor, que sua massa deve ser inferior. Senhor, posso falar sobre tudo isso mais tarde. Neste momento, preciso fazer uma pergunta. Aconteceu alguma coisa excepcional aqui durante a nossa ausncia?

O rosto vincado do comandante assumiu uma expresso contrariada.

- O que est querendo dizer com excepcional? Todo este planeta  excepcional, e no acontece nada aqui que possa ser classificado de rotina.
- Algo como uma doena ou insanidade coletiva, senhor - explicou Ewen.

Leicester franziu o rosto.

- No posso imaginar do que esto falando. O que quer que seja, no houve relatrios do mdico-chefe sobre qualquer doena.
- O que o Dr. Ross est querendo dizer  que todos ns sofremos um ataque de alguma coisa como um delrio - disse MacAran. - Foi no dia seguinte  segunda noite sem chuva. Foi bastante disseminado para atingir Camilla. . . Tenente Del Rey. . . e a mim no pico e alcanar o outro grupo, quase dois mil metros abaixo. Todos nos comportamos. . . de uma maneira irresponsvel, senhor.
- Irresponsvel?

Leicester franziu o rosto ainda mais, fitando-os com uma expresso furiosa.

- Isso mesmo, irresponsvel. - Ewen enfrentou os olhos do comandante, com os punhos cerrados. - O Dr. Zabal estava se recuperando; corremos pela floresta e o deixamos sozinho. Ele se levantou em delrio, tambm saiu correndo e forou o corao. . . e foi por isso que morreu. Nossa capacidade de julgamento estava prejudicada; comemos frutos e fungos no testados. Houve. . . vrios processos de iluso.

Judith Lovat interveio, a voz firme:

- Nem tudo foi iluso.

Ewen olhou para ela e balanou a cabea.

- No creio que a Dra. Lovat esteja em condies de julgar, senhor. Seja como for, parece que todos tivemos iluses sobre ler os pensamentos uns dos outros.

O comandante respirou fundo, mortificado.

- Isso ter de ser analisado pela equipe mdica. No tivemos nada assim por aqui. Sugiro que todos faam seus relatrios para os respectivos chefes ou escrevam-nos para apresentar na reunio desta noite. Tenente Del Rey, quero ouvir o seu relatrio pessoalmente. Falarei com os outros mais tarde.
- Mais uma coisa, senhor - acrescentou MacAran. - Este planeta  habitado.

Ele tirou a faca de pedra da mochila e estendeu-a. Mas o comandante mal a olhou.

- Leve-a para o Major Fraser; ele  o nosso antroplogo. Diga-lhe que vou querer um relatrio esta noite. E agora, se os outros nos derem licena, por favor. . .

MacAran sentiu um estranho anticlmax ao deixarem o comandante e Camilla a ss. Enquanto procurava o antroplogo Fraser pelo acampamento, ele pouco a pouco identificou seu sentimento como cime. Como poderia competir com o Comandante Leicester? Ora, isso era um absurdo, o comandante tinha idade suficiente para ser pai de Camilla. Pensava mesmo que Camilla estava apaixonada pelo comandante?

No. Mas ela est emocionalmente presa a ele, e isso  ainda pior.

Se ele ficara desapontado com a falta de reao do comandante  faca de pedra, a reao do Major Fraser nada deixou a desejar.

- Venho afirmando desde que pousamos que este mundo  habitvel - disse ele, revirando a faca nas mos. - E aqui est a prova de que  habitado. . . por alguma coisa inteligente, no mnimo.
- Humanide? - indagou MacAran. Fraser deu de ombros.
- Como podemos saber? J se constatou a presena de formas de vida inteligente em trs ou quatro planetas, uma simiesca, outra felina e as demais inclassificveis... a xenobiologia no  minha especialidade. Um artefato no nos revela muita coisa... com quantas formas se pode projetar uma faca? Mas ajusta-se muito bem a uma mo humana, embora seja pequena.

As refeies para tripulantes e passageiros eram servidas numa rea enorme. Quando foi at l, para a refeio do meio-dia, MacAran esperava encontrar Camilla; mas ela chegou mais tarde e seguiu direto para um grupo de tripulantes. MacAran no conseguiu atrair sua ateno e teve a ntida impresso de que ela o evitava. Enquanto comia apaticamente o prato de rao, Ewen aproximou-se.

- Rafe, querem a nossa presena numa reunio da equipe mdica, se voc no tem outra coisa para fazer. Esto tentando analisar o que nos aconteceu.
- Acha mesmo que adiantar alguma coisa, Ewen? J falamos a respeito tantas vezes. . .
Ewen deu de ombros.
- No me cabe argumentar. Voc no est sob a autoridade do mdico-chefe,  claro, mas mesmo assim. . .
- Eles foram muito duros com voc por causa da morte de Zabal? - perguntou MacAran.
- No muito. Heather e Judy testemunharam que estavam todos fora de si. Mas eles querem seu relatrio e tudo o que puder dizer sobre Camilla.

MacAran deu de ombros e acompanhou-o.

A reunio da equipe mdica foi realizada numa das extremidades da tenda-hospital, meio vazia agora - os feridos mais graves haviam morrido, os menos graves j haviam se recuperado e retornado ao servio. Havia quatro mdicos qualificados, meia dzia de enfermeiras e alguns tcnicos cientficos para escutar os relatrios.

Depois de ouvir a todos, um de cada vez, o mdico-chefe, um homem distinto, de cabea branca, chamado Di Asturien, disse lentamente:

- Parece alguma forma de infeco propagada pelo ar. Possivelmente um vrus.
- Mas nada encontramos em amostras do ar - argumentou MacLeod. - E o efeito foi mais como o de uma droga.
- Uma droga transportada pelo ar? - disse Di Asturien. - Parece improvvel.  verdade que o efeito afrodisaco parece ter sido tambm considervel. Posso presumir corretamente que houve um estmulo sexual em todos vocs?
- J mencionei isso, senhor - respondeu Ewen. - Afetou ns trs... a Srta. Stuart, o Dr. MacLeod e eu. No teve o mesmo efeito no Dr. Zabal, ao que eu saiba, mas tambm ele se encontrava agonizante.
- Sr. MacAran?

Por algum estranho motivo, ele sentiu-se embaraado, mas apressou-se em dizer, antes que os olhos penetrantes de Di Asturien percebessem sua reao:

- Tambm, senhor. Pode confirmar com a Tenente Del Rey, se quiser.
- Hum... J soube, Dr. Ross, que neste momento est de qualquer forma ligado  Srta. Stuart, o que talvez nos permita descontar a reao. Mas o Sr. MacAran e a tenente. . .
- Estou interessado nela - ele declarou, a voz firme. - Mas, at onde posso saber, ela  completamente indiferente a mim. At mesmo hostil. Exceto sob a influncia de. . . do que nos aconteceu.

MacAran enfrentou a verdade nesse momento. Camilla no se virara para ele como uma mulher para um homem de quem gostava. Fora simplesmente afetada pelo vrus, droga ou qualquer outra coisa estranha que os levara  loucura. O que para ele fora amor, para ela no passara de loucura... e agora ela se ressentia. Para seu imenso alvio, o mdico-chefe no insistiu no assunto.
- Doutora Lovat?

Judy no levantou os olhos.

- No sei dizer. No me lembro. O que acho que posso recordar pode ter sido apenas iluso.
- Gostaria que cooperasse conosco, Dra. Lovat - insistiu Di Asturien.
- Prefiro no falar mais nada.

Judy ficou remexendo em alguma coisa no colo e no havia persuaso que pudesse for-la a acrescentar mais alguma coisa.

- Dentro de uma semana teremos de examinar as trs por causa de uma possvel gravidez - anunciou Di Austurien.
- Como pode ser necessrio? - indagou Heather. - Eu pelo menos estou tomando aplicaes regulares. No tenho certeza quanto a Camilla, mas tenho a impresso de que os regulamentos exigem isso de qualquer tripulante entre vinte e quarenta e cinco anos de idade.
Di Asturien parecia perturbado.
- Isso  verdade, mas h algo muito estranho que descobrimos numa reunio da equipe ontem. Conte a eles, enfermeira Raimondi.

Margaret Raimondi disse:

- Estou encarregada de manter os registros e distribuir anticoncepcionais e suprimentos sanitrios para todas as mulheres em idade menstrual, tanto tripulantes quanto passageiras. Conhecem o sistema; cada duas semanas, por ocasio da menstruao e no meio do intervalo, cada mulher se apresenta para uma injeo de hormnios ou, em alguns casos, para um teste que determinar a necessidade de injetar pequenas doses de hormnio na corrente sangunea, a fim de suprimir a ovulao. H cento e dezenove mulheres sobreviventes na faixa etria cor-reta, o que significa, com um ciclo arbitrrio mdio de trinta dias, que aproximadamente quatro mulheres deveriam se apresentar cada dia, para os suprimentos menstruais ou para a aplicao apropriada quatro dias depois do incio da menstruao. J se passaram dez dias desde o acidente, o que significa que cerca de um tero das mulheres deveria ter me procurado por um motivo ou outro. Digamos quarenta.
- E no se apresentaram - acrescentou o Dr. Di Asturien. - Quantas mulheres apareceram desde o acidente?
- Nove - respondeu a enfermeira Raimondi com uma expresso sombria. - Nove. Isso significa que dois teros das mulheres envolvidas tiveram seus ciclos biolgicos afetados neste planeta... ou pela mudana na gravidade ou por alguma perturbao hormonal. E como o anticoncepcional padro que usamos  inteiramente baseado no ciclo interno, no temos como saber se  ou no eficaz.

MacAran no precisava que algum lhe explicasse como era sria a situao. Uma onda de gravidez poderia ser emocionalmente perturbadora. Bebs - ou at mesmo crianas pequenas - no suportariam a propulso interestelar, mais rpida do que a luz; e desde a aceitao universal de anticoncepcionais confiveis e as leis demogrficas na Terra superpovoada, uma onda de sentimento tornara o aborto completamente inconcebvel. Crianas indesejveis simplesmente no eram concebidas. Mas haveria uma alternativa naquele caso?

- E claro que em novos planetas as mulheres muitas vezes ficam estreis por alguns meses, em grande parte por causa das mudanas no ar e na gravidade - disse o Dr. Di Asturien. - Mas no podemos contar com isso.

MacAran estava pensando: se Camilla estiver grvida, vai me odiar? A perspectiva de um filho dos dois ser destrudo era assustadora. Ewen perguntou, muito srio:

- O que vamos fazer, Doutor? No podemos exigir que duzentos homens e mulheres faam um voto de castidade!
- Claro que no. Seria pior para a sade mental do que os outros perigos. Mas devemos alertar a todos que no temos mais certeza da eficcia de nosso programa anticoncepcional.
-  o nico jeito. E a providncia deve ser adotada o mais depressa possvel.
- O comandante convocou uma reunio geral para esta noite, tripulantes e colonos - informou Di Asturien. - Talvez eu possa anunciar na ocasio. - Ele fez uma careta. - No estou ansioso por essa reunio. O anncio ser extremamente impopular. Como se j no tivssemos problemas suficientes...

A reunio geral foi realizada na tenda-hospital, o nico lugar com espao suficiente para caber tripulantes e passageiros. Comeara a ficar nublado no meio da tarde e, quando a reunio comeou, caa uma chuva fina e fria, e podiam-se ver relmpagos distantes por cima dos picos das colinas. Os membros da expedio de explorao sentaram na frente, juntos, para o caso de serem chamados a apresentar um relatrio. Camilla, no entanto, no ficou com eles. Entrou com o Comandante Leicester e os outros oficiais da tripulao, e MacAran notou que todos usavam o uniforme formal. Isso lhe pareceu um mau sinal. Por que precisavam enfatizar sua solidariedade e autoridade daquele jeito?

Os eletricistas da tripulao haviam montado um palanque e um sistema de alto-falantes, o que permitia que a voz do comandante, baixa e um tanto rouca, fosse ouvida por todo o vasto espao.

- Pedi que todos viessem aqui esta noite - disse ele -, em vez de se apresentarem apenas a seus lderes, porque num grupo deste tamanho, apesar de todas as precaues, os rumores podem comear e tambm escapar ao controle. Em primeiro lugar, vou anunciar as boas notcias. Ao que melhor podemos saber e acreditar, o ar e a gua neste planeta so capazes de sustentar a vida indefinidamente, sem danos para a sade, o solo provavelmente aceitar colheitas da Terra para complementar nossos suprimentos alimentares durante o perodo em que formos obrigados a permanecer aqui. Devo agora transmitir as notcias que no so to boas. As avarias das unidades de propulso e computadores da nave so muito maiores do que calculamos inicialmente e no h possibilidade de reparos imediatos ou rpidos. Embora seja possvel que venhamos a levantar vo eventualmente, com a nossa disposio atual de pessoal e material no podemos efetuar os reparos.

Ele fez uma pausa e houve uma agitao de vozes, consternadas, apreensivas. O Comandante Leicester levantou a mo e acrescentou:

- No estou dizendo que devemos perder as esperanas. Mas, em nossa situao atual, no podemos realizar os reparos. Para tirarmos a nave da superfcie deste planeta teremos de promover profundas mudanas em nossa estrutura atual. Ser um projeto a longo prazo, exigindo a cooperao total de cada homem e mulher presentes.

Silncio, e MacAran especulou o que ele estaria querendo dizer com isso. O que exatamente o comandante insinuava? Os reparos podiam ou no podiam ser efetuados?

- Pode parecer uma declarao contraditria - continuou o comandante. - No dispomos dos materiais indispensveis para os reparos. Contudo, juntando todos ns, possumos o conhecimento para fazer os reparos; e temos um planeta inexplorado  nossa disposio, onde certamente poderemos encontrar as matrias-primas e construir o material necessrio.

MacAran franziu o rosto, especulando sobre o que exatamente isso significava. O Comandante Leicester passou a explicar:

- Muitas das pessoas que seguiam para as colnias possuem habilidades que sero teis l, mas de nada nos servem aqui. Dentro de um ou dois dias vamos instituir um departamento de pessoal para promover um levantamento de todas as habilidades conhecidas. Alguns de vocs registrados como agricultores ou artesos ficaro sob o comando de nossos cientistas ou engenheiros a fim de serem treinados. Exijo um empenho total.

No fundo da tenda, Moray levantou-se e disse:

- Posso fazer uma pergunta, Comandante?
- Pode.
- Est querendo dizer que as duzentas pessoas aqui reunidas podem, num prazo de cinco a dez anos, desenvolver um cultura tecnolgica capaz de construir... ou reconstruir... uma nave estelar? Que podemos descobrir os metais, miner-los, refin-los, mold-los e criar as mquinas necessrias?

O comandante declarou calmamente:

- Com a plena cooperao de todos, isso  possvel. Calculo que levar de trs a cinco anos.

Moray declarou, em tom incisivo:

- Voc est louco! Pede-nos para desenvolver uma tecnologia inteira!
- O que o homem j fez, o homem pode fazer de novo - insistiu o Comandante Leicester, imperturbvel. - Afinal, Sr. Moray, lembro que no temos alternativa.
- Claro que temos!
- J chega! - disse o comandante, a voz firme. - Sente-se, por favor.
- No! - exclamou Moray. - Se realmente acredita que tudo isso  possvel, ento s posso presumir que ficou completamente louco! Ou que a mente de um engenheiro ou um espaonauta funciona de maneira to diferente da mente de um homem so que no h a menor possibilidade de comunicao. Diz que isso levar de trs a cinco anos. Posso respeitosamente lembr-lo de que dispomos de alimentos e suprimentos mdicos apenas para um perodo de um ano a dezoito meses? Posso tambm lembr-lo de que mesmo agora, quando nos aproximamos do vero, o clima  muito rigoroso e nossos abrigos so insuficientes? O inverno neste mundo, com sua exagerada inclinao no eixo, provavelmente  mais brutal do que qualquer coisa que qualquer terrqueo j experimentou.
- Isso no prova a necessidade de sairmos deste mundo o mais depressa possvel?
- No - respondeu Moray. - Prova a necessidade de encontrarmos fontes de alimentao e abrigos confiveis.  nisso que precisamos de um empenho total! Esquea a sua nave, Comandante. No ir mais a lugar nenhum. Recupere o bom senso. Somos colonos, no cientistas. Temos tudo de que precisamos para sobreviver aqui. . . para nos instalarmos aqui. Mas no poderemos fazer isso se metade de nossas energias estiver devotada a um plano insensato de concentrar todos os recursos para consertar uma nave irremediavelmente avariada!

Houve um pequeno tumulto na assemblia, um turbilho de gritos, perguntas, protestos indignados. O comandante repetidamente pediu ordem, e os gritos acabaram se desvanecendo para murmrios. Moray declarou:

- Exijo uma votao!

O tumulto recomeou. O comandante disse:

- Recuso-me a aceitar sua proposta, Sr. Moray. A questo no ser submetida  votao. Posso lembr-lo de que estou no momento no comando supremo da nave? Devo ordenar sua priso?
- Priso coisa nenhuma! - berrou Moray, desdenhoso. - No est no espao agora, Comandante. No est na cabine de comando de sua nave. No tem autoridade sobre nenhum de ns, Comandante...  exceo talvez de sua tripulao, se eles quiserem obedecer.

Leicester levantou-se, o rosto to branco quanto a camisa, os olhos faiscando em fria.

- Lembro a todos vocs que a expedio de MacAran, enviada para explorar, descobriu vestgios de vida inteligente neste planeta. A Fora Expedicionria da Terra tem como poltica no instalar colnias em planetas habitados. Se nos instalarmos aqui, provavelmente vamos provocar um choque cultural numa cultura da Idade da Pedra.

Outro tumulto. Moray gritou, tambm furioso:

- Acha que suas tentativas de desenvolver um tecnologia aqui para efetuar os seus reparos no fariam isso? Em nome de Deus, senhor, temos tudo de que precisamos para estabelecer uma colnia aqui. Se desviarmos todos os nossos recursos para o seu esforo insano de reparar a nave,  duvidoso at que consigamos sobreviver!

O Comandante Leicester fez um esforo evidente para se controlar, mas sua raiva era patente. E ele disse, asperamente:

- Est sugerindo que abandonemos o esforo... e mergulhemos no barbarismo?

Moray tornou-se de repente muito solene. Adiantou-se e foi parar ao lado do comandante. Quando falou, a voz estava calma, controlada:

- Espero que no, Comandante. E a mente de um homem que o transforma num brbaro, no sua tecnologia. Talvez tenhamos de passar sem uma tecnologia de alto nvel, pelo menos por algumas geraes, mas isso no significa que no possamos instituir aqui um mundo bom para ns e nossos filhos, um mundo civilizado. J houve civilizaes que existiram por sculos quase sem tecnologia. A iluso de que a cultura do homem  apenas a histria de suas tecnoestruturas no passa de propaganda dos engenheiros, senhor. No tem a menor base na sociologia... ou na filosofia.

O Comandante protestou, em tom rspido:

- No estou interessado em suas teorias sociais, Sr. Moray. O Doutor Di Asturien levantou-se.
- H uma coisa que deve ser levada em considerao, Comandante. Fizemos uma descoberta muito inquietante hoje...

Nesse momento uma violenta trovoada sacudiu a tenda-hospital. As luzes montadas s pressas apagaram. E, da entrada, um dos homens da segurana gritou:

- Comandante! Comandante! A floresta est em chamas!

CAPITULO
SETE
Todos mantiveram o controle. O Comandante Leicester gritou da plataforma:

- Providenciem algumas luzes! Segurana, quero uma iluminao aqui!

Um dos jovens da equipe mdica encontrou uma lanterna para o comandante e um dos oficiais gritou:

- Permaneam todos em seus lugares e esperem por ordens! No h perigo aqui! Acendam as luzes o mais depressa possvel!

MacAran estava bastante prximo da entrada para ver o claro distante se elevando contra a escurido. Em poucos minutos as lanternas estavam sendo distribudas, e Moray disse da plataforma, em tom de urgncia:

- Comandante, dispomos de equipamentos para derrubar rvores e deslocar terra. Deixe-me ordenar que uma equipe abra aceiros em torno do acampamento.
- Certo, Sr. Moray - disse Leicester, bruscamente. - Cuide disso. Quero todos os oficiais de comando reunidos aqui. Precisamos ir  nave e proteger todos os materiais inflamveis ou explosivos.

Ele se encaminhou apressado para o fundo da tenda. Moray ordenou que todos os homens aptos se reunissem na clareira e requisitou todas as lanternas disponveis que no estivessem em uso na nave.

- Formem os mesmos pelotes que tivemos para escavar as sepulturas - ele ordenou.

MacAran descobriu-se numa equipe com o Padre Valentine e oito estranhos, derrubando rvores, numa faixa de trs metros, em torno da clareira. O fogo ainda era um rugido distante, numa encosta a muitos quilmetros, um claro vermelho contra o cu, mas o ar recendia a fumaa, com um estranho cheiro acre. Algum ao lado de MacAran comentou:

- Como a floresta pode pegar fogo depois de tanta chuva?

Ele recordou uma coisa que Marco Zabal dissera naquela primeira noite:

- As rvores so muito resinosas... praticamente um pavio. Algumas podem at arder mesmo molhadas... podemos fazer uma fogueira com lenha verde. Creio que um raio poderia provocar um incndio quase que a qualquer momento.

Tivemos sorte, pensou MacAran, por termos acampado no meio da floresta e nunca pensarmos em incndio ou na abertura de aceiros. E disse para o homem:

- Desconfio que precisaremos de um aceiro permanente ao redor de qualquer acampamento ou rea de trabalho.
- Fala como se achasse que ficaremos aqui por muito tempo - interveio o Padre Valentine.
MacAran inclinou-se para sua serra e falou sem levantar os olhos:
- No importa de que lado se esteja... do comandante ou de Moray, tudo indica que passaremos pelo menos alguns anos aqui.

Ele sentia-se muito cansado e inseguro com qualquer coisa naquele momento para decidir se tinha alguma preferncia pessoal; e, de qualquer forma, tinha certeza de que ningum o consultaria sobre sua opo. L no fundo, porm, sabia que lamentaria se algum dia deixassem aquele mundo. O Padre Valentine tocou em seu ombro.

- Acho que a tenente est  sua procura.

MacAran empertigou-se ao ver Camilla Del Rey se aproximando. Ela parecia exausta e abatida, os cabelos desgrenhados e o uniforme sujo. Ele sentiu vontade de tom-la nos braos, mas em vez disso permaneceu imvel, observando a tentativa de Camilla de no fit-lo nos olhos enquanto dizia:

- Rafe, o comandante quer falar com voc. Conhece a rea melhor do que qualquer outro. Acha que o incndio pode ser combatido ou contido?
- No no escuro... e no sem equipamento pesado - respondeu MacAran.

Mas ele acompanhou-a de volta ao alojamento do comandante. No podia deixar de admirar a eficincia com que fora montada a operao de preveno de incndio, os poucos equipamentos de combate ao fogo da nave sendo transferidos para o hospital. O comandante teve bastante bom senso para usar Moray aqui. So de fato muito parecidos, seria timo se pudessem trabalhar pelos mesmos objetivos. Mas neste momento so a fora irresistvel e o objeto irremovvel.

A chuva fina se transformava em chuva forte com neve quando eles alcanaram o domo. O espao restrito estava apinhado e iluminado apenas por uma nica lanterna, cuja pilha parecia j estar pifando. Moray dizia:

- ... nossas foras de energia j comeam a se esgotar. Antes de podermos fazer mais alguma coisa, senhor, em seu plano ou no meu,  preciso encontrar algumas fontes de iluminao e calor. Temos equipamento para energia do vento e energia solar entre os materiais de colonizao, mas tenho minhas dvidas se este sol oferece suficiente luz e radiao para contarmos com um bom suprimento de energia solar. MacAran... - Ele virou-se. - Posso presumir que h crregos nas montanhas? So bastante grandes para serem represados?
- No pelo que vimos nos poucos dias que passamos nas montanhas - respondeu MacAran. - Mas h muito vento.
- Isso nos dar um paliativo temporrio - declarou o Comandante Leicester. - MacAran, sabe exatamente onde se localiza o incndio?
- Est bem distante para no representar um perigo imediato para ns. Mas vamos precisar de aceiros daqui por diante, em qualquer lugar em que nos instalemos. Mas creio que este incndio no ser um perigo. A chuva comea a se transformar em neve e acho que vai abaf-lo.
- Se pode arder na chuva...
- A neve  mais tmida e mais pesada... - MacAran foi interrompido por uma rajada de tiros. -- O que  isso?
- Um estouro de animais... provavelmente fugindo do incndio - explicou Moray. - Seus oficiais esto abatendo animais para alimento. Comandante, mais uma vez, sugiro que se poupe munio para emergncias absolutas. Mesmo na Terra, os animais so agora caados em condies recreativas, com arco e flecha. H prottipos no departamento de recreao e precisaremos us-los para aumentar o suprimento de alimentos.
- Tem uma poro de idias, no  mesmo? - resmungou Leicester.

Ao que Moray respondeu, tenso:

- Comandante, dirigir uma espaonave  o seu ofcio. O meu  instituir uma sociedade vivel, com o aproveitamento mais econmico possvel dos recursos disponveis.

Os dois se fitaram por um momento  luz fraca, os outros no domo esquecidos. Camilla dera uma volta para se colocar atrs do comandante e MacAran teve a impresso de que ela o apoiava mentalmente, alm de fisicamente. Havia l fora todos os rudos do acampamento e sempre o silvo da neve batendo no domo. E de repente houve uma rajada de vento mais forte, uma lufada de ar frio entrou no domo; Camilla foi fechar a passagem, lutando contra o vento, e no conseguiu. A porta bateu furiosamente, desprendeu-se das dobradias improvisadas e derrubou a jovem. MacAran correu para ajud-la. O Comandante Leicester praguejou baixinho e comeou a gritar por um dos seus ajudantes. Moray levantou a mo e disse calmamente:

- Precisamos de abrigos mais resistentes e mais permanentes, Comandante. Estes foram construdos para durar seis semanas. Posso ordenar para que sejam construdos abrigos que resistam por alguns anos?

O Comandante Leicester ficou em silncio, e com sua nova e exagerada sensibilidade MacAran teve a impresso de que podia ouvir seus pensamentos. Isso seria uma cunha? Poderia aproveitar os talentos indubitveis de Moray sem conceder muito poder aos colonos, o que diminuiria o seu? Quando o comandante falou, a voz era amargurada, mas ele cedeu cortesmente:

- Conhece os problemas de sobrevivncia, Sr. Moray. Sou um cientista... e um espaonauta. Eu o porei no comando do acampamento, numa base temporria. Determine as prioridades e requisite tudo o que precisar.

Leicester foi at a porta e parou ali, contemplando o turbilho de neve.

- Nenhum incndio pode resistir a isso. Chame os homens e alimente-os, antes que eles voltem a abrir os aceiros. Est no comando, Moray... por enquanto.

Ele se mantinha empertigado e indmito, mas a voz era cansada. Moray fez uma ligeira reverncia. No havia qualquer sinal de subservincia no gesto.

- No pense que estou desistindo - advertiu Leicester. - A nave ser consertada.

Moray deu de ombros.

-  bem possvel. Mas no ser possvel repar-la se no sobrevivermos pelo tempo necessrio para isso. E, no momento, isso  tudo o que me interessa.

Ele virou-se para Camilla e MacAran, ignorando o comandante ao acrescentar:

-  MacAran, seu grupo conhece pelo menos um pouco da regio. Quero um levantamento local de todos os recursos, inclusive em termos de alimentos... a Dra. Lovat pode cuidar disso.  uma navegadora, Tenete Del Rey, sabe como operar os instrumentos. Pode providenciar uma pesquisa do clima, a fim de podermos us-la para previses do tempo? - Ele fez uma pausa. - A madrugada no  a ocasio mais propcia para isso. Comearemos pela manh.

Ele se encaminhou para a entrada, encontrou-a bloqueada pelo Comandante Leicester, parado ali, observando a neve. Tentou contorn-lo duas vezes, acabou batendo em seu ombro. O comandante estremeceu e deu um passo para o lado. Moray disse:

- A primeira providncia  tirar aqueles pobres coitados da tempestade. Vai dar as ordens, Comandante, ou eu posso dar?

Leicester fitou-o nos olhos com uma hostilidade evidente, mas disse suavemente:

- Isso no tem importncia. No estou preocupado com qual de ns d as ordens, e Deus o ajude se deseja apenas o poder para d-las. Camilla, procure o Major Layton e diga-lhe para suspender todas as operaes de preveno de incndio e providenciar para que todos sejam alimentados antes de se recolherem.

A jovem puxou o capuz sobre a cabea e afastou-se apressada pela neve.

- Voc pode ter os seus talentos, Moray - acrescentou o comandante. - E, se precisar, pode usar os meus. Mas gostaria que se lembrasse de um ditado antigo no servio espacial. Quem intriga para conquistar o poder merece obt-lo.

Ele saiu do domo, deixando o vento penetrar. MacAran, observando Moray, sentiu que de alguma forma vaga o comandante levara a melhor.

CAPTULO
OITO
Os dias se alongavam, mas mesmo assim parecia nunca haver claridade ou tempo suficiente para todo o trabalho que precisava ser realizado no acampamento. Trs dias depois do incndio, aceiros com dez metros de largura haviam sido abertos em torno do acampamento e pelotes de bombeiros estavam organizados para emergncias. Foi mais ou menos nessa ocasio que MacAxan partiu, com um grupo de colonos, para efetuar o levantamento pedido por Moray. Os nicos membros da expedio anterior que o acompanhavam agora eram Judith Lovat e MacLeod. Judy ainda se mantinha retrada e apartada, quase no falando. MacAran preocupava-se com ela, mas Judy trabalhava com a maior eficincia e parecia ser dotada de uma percepo quase psquica dos locais onde pareciam encontrar tudo aquilo que procuravam. De um modo geral, aquela expedio de explorao pela floresta transcorreu sem incidentes. Determinaram trilhas para possveis acessos ao vale em que haviam avistado pela primeira vez as manadas de animais estranhos, avaliaram os danos causados pelo incndio - que no eram muito extensos - e mapearam os crregos e rios locais. MacAran recolheu amostras de rochas das colinas locais para se verificar o potencial de contedo de minrios.

Apenas um acontecimento mais significativo rompeu a monotonia um tanto agradvel da expedio. Uma noite, quase ao pr-do-sol, abriam uma trilha por um trecho excepcionalmente denso da floresta quando MacLeod, adiantado, parou de repente, virou-se com um dedo nos lbios para pedir silncio e chamou MacAran.

Ele se adiantou, com Judy ao seu lado, na ponta dos ps. Ela parecia estranhamente excitada.

MacLeod apontou para cima, entre as rvores. Dois enormes troncos erguiam-se a uma altura incrvel, sem galhos laterais pelo menos por vinte metros; e havia uma ponte entre eles. No havia outra maneira de chamar a estrutura; uma ponte de um material que parecia vime entrelaado, construda com requinte, inclusive com corrimo.

MacLeod sussurrou:

- A est a prova de seus aborgines. Ser que so arbreos? E por isso que no os vemos? 

Judy disse bruscamente:

- Cale-se!

 distncia, soou um grito pequeno, estridente, inarticulado; e depois, por cima deles, na ponte, surgiu uma criatura.

Todos puderam observ-la muito bem naquele momento. Tinha cerca de um metro e meio de altura, a pele clara ou coberta por um plo claro, segurando os corrimos da ponte com mos indubitveis - ningum teve a presena de esprito de contar os dedos -, um rosto liso, mas estranhamente humanide, o nariz achatado e olhos vermelhos. Por quase dez segundos ficou imvel na ponte, olhando para eles, parecendo quase to surpreso quanto os exploradores; e depois, com um grito estridente que parecia com o de um pssaro, correu pela ponte, subiu entre as rvores e desapareceu.

MacAran deixou escapar um longo suspiro. Ento aquele mundo era mesmo habitado, no desocupado e aberto  humanidade. MacLeod perguntou baixinho:

- Judy, foram essas as criaturas que voc viu naquele dia? O que chamou de o belo?

Judy assumiu a estranha obstinao que qualquer meno quele dia provocava.

- No - ela respondeu, a voz suave, mas decidida. - Esses so os irmozinhos, os pequenos que no so sbios.

E nada mais conseguiram arrancar e logo desistiram de interrog-la. Mas MacLeod e o Major Fraser estavam na maior felicidade.

- Humanides arbreos. Noturnos, a julgar pelos olhos, provavelmente simiescos, embora sejam mais parecidos com trsios do que com macacos. Obviamente sapientes... usam ferramentas e produzem artefatos. Homo arborens. Homens vivendo em rvores.

Assim que MacLeod concluiu seus comentrios, MacAran disse, hesitante:

- Se tivermos de ficar aqui... como duas espcies sapientes podem sobreviver no mesmo planeta? Isso no acarreta invariavelmente uma guerra fatal pelo domnio?

- Se Deus quiser, no - respondeu Fraser. - Afinal, houve quatro espcies sapientes na Terra por muito tempo. A humanidade... e os golfinhos, baleias e provavelmente os elefantes tambm. Apenas aconteceu que ns ramos a nica espcie tecnolgica. Eles habitam nas rvores, ns habitamos no solo. No h conflito, at onde posso perceber... ou pelo menos nenhum conflito necessrio.

MacAran no tinha tanta certeza, mas no manifestou suas reservas.

Por mais pacfica que fosse a expedio, ocorreram perigos inesperados. No vale com as manadas, a que deram o nome por convenincia de Plancies de Zabal, os animais eram espreitados por enormes predadores parecidos com felinos, que s eram mantidos  distncia durante a noite por fogueiras. E nos picos MacAran avistou pela primeira vez os pssaros com a voz de banshee, a voz de esprito: eram imensos, sem asas, com garras terrveis, deslocando-se com tanta velocidade que somente um ltimo recurso desesperado ao raio laser, que levavam para emergncias, evitou que o Dr. Fraser fosse estripado por um golpe violento. MacLeod, dissecando o pssaro morto, descobriu que era completamente cego.

- Ser que localiza a presa pela audio? Ou de que maneira ento?
- Desconfio que sente o calor do corpo - respondeu MacAran. - Parecem viver apenas na neve.

Os terrveis pssaros receberam o nome de banshees ou pssaros-espritos, e depois disso passaram a evitar os desfiladeiros, a no ser  luz do dia. Tambm encontraram os montes das formigas parecidas com escorpies, cujas picadas haviam matado o Dr. Zabal, e debateram a convenincia de envenen-las. MacLeod foi contra, sob a alegao de que aquelas formigas podiam ser parte importante de uma corrente ecolgica, que no podia ser afetada. Finalmente concordaram em exterminar apenas os formigueiros num raio de cinco quilmetros da nave e alertar a todos para o perigo das picadas. Foi uma providncia provisria, mas tambm tudo o que faziam naquele planeta era provisrio.

- Se sairmos daqui - comentou o Dr. Fraser, a voz um pouco rouca -, deveremos deixar tudo praticamente da maneira como encontramos.

Quando voltaram ao acampamento, depois de trs semanas de pesquisas, descobriram que dois prdios permanentes de madeira e pedra j haviam sido construdos: um salo de recreao comunitrio e refeitrio, e o outro para ser usado como laboratrio. Foi a ultima vez que MacAran mediu qualquer coisa por semanas; ainda no conheciam a extenso do ano do planeta, mas por uma questo de convenincia e distribuio de servios e turnos de trabalho, instituram um ciclo arbitrrio de dez dias, com um dia em cada dez de feriado geral. Vastas hortas haviam sido preparadas e as sementes j comeavam a brotar, enquanto se realizava uma colheita cuidadosa de alguns frutos da floresta j examinados.

Um pequeno gerador de vento fora montado, mas a energia era rigorosamente racionada, e velas fabricadas com resinas das rvores eram usadas para a iluminao noturna. Os domos temporrios ainda alojavam a maioria do pessoal, exceto os que ficavam no hospital; MacAran partilhava o seu com uma dzia de outros homens solteiros. No dia seguinte ao retorno foi chamado ao hospital por Ewen Ross, junto com Judy.

- Perderam o anncio do Dr. Di Asturien - disse ele. - Em suma, nossos anticoncepcionais hormonais so inteis aqui. Ainda no se registrou nenhuma gravidez at agora, exceto um aborto prematuro bastante duvidoso, mas temos nos baseado nos hormnios h tanto tempo que ningum mais conhece os mtodos pr-histricos de preveno. Tambm no dispomos do equipamento de teste de gravidez, j que ningum precisa disso numa espaonave. O que significa que, se ocorrer alguma gravidez, esta pode avanar demais para um aborto seguro antes que seja diagnosticada.

MacAran sorriu, amargurado.

- Pode poupar seu flego no que me diz respeito. A nica mulher em que estou interessado no momento nem sabe que eu existo... ou pelo menos gostaria que eu no existisse.

Ele nem sequer vira Camilla desde que voltara. Ewen indagou:

- E voc, Judy? Verifiquei a sua ficha mdica. Est na idade em que a contracepo  voluntria, em vez de compulsria...

Ela sorriu.

- Por causa da minha idade, no  provvel que me deixe arrebatar desprevenida pela emoo. No tive qualquer atividade sexual nesta viagem... no h ningum por quem me interesse. Por isso, no me dei ao trabalho de temer as aplicaes.
- Mesmo assim, procure Margaret Raimondi... ela est fornecendo informaes de emergncia para qualquer eventualidade. O sexo  voluntrio, Judy, mas a informao  compulsria. Pode optar pela absteno... mas deve ter a liberdade de decidir em contrrio. Assim, trate de conversar com Margaret e obtenha as informaes.

Ela comeou a rir, e ocorreu a MacAran que no vira Judith Lovat rir desde o dia da estranha loucura que atacara a todos. Mas o riso parecia ter um tom histrico, o que o deixou apreensivo. S ficou aliviado quando ela disse finalmente:

- Est certo. Que mal pode fazer?

Judy retirou-se. Ewen ficou observando-a se afastar, tambm apreensivo.

- Estou preocupado com Judy. Ela parece ser a nica permanentemente afetada pelo que nos aconteceu, mas no temos psiquiatras que possamos dispensar, e de qualquer maneira Judy continua em condies de realizar seu trabalho... o que  sempre uma definio legal de sanidade. Ainda assim, espero que ela se recupere. Seu comportamento foi normal durante a expedio?

MacAran acenou com a cabea. E, depois de um momento, disse, pensativo:

- Talvez ela tivesse alguma experincia de que no nos falou. Parece se sentir  vontade aqui. Alguma coisa como o que voc me contou sobre MacLeod saber que os frutos eram bons para comer. Um choque emocional poderia desenvolver poderes psquicos latentes?

Ewen balanou a cabea.

- S Deus sabe, e estamos muito ocupados para verificar. Alm do mais, como se poderia conferir uma coisa assim? Enquanto ela se mantiver bastante normal para desempenhar suas funes, no posso interferir.

Deixando o hospital, MacAran circulou pelo acampamento. Tudo parecia tranqilo, da pequena oficina em que se construam implementos agrcolas  rea da nave, onde as mquinas estavam sendo retiradas e guardadas. Foi encontrar Camilla no domo avariado pelo vento na noite do incndio; j fora reparado e reforado, os controles de computador instalados no interior. Ela fitou-o com uma expresso que parecia de hostilidade declarada.

- O que voc quer? Moray mandou-o aqui para me dar a ordem de transformar isto numa estao meteorolgica ou qualquer coisa assim?
- No, mas parece uma boa idia - respondeu MacAran. - Outra nevasca como a que nos atingiu na noite do incndio poderia ser desastrosa, se no estivermos alerta.

Ela adiantou-se e fitou-o nos olhos. Os braos estavam esticados ao longo do corpo, os punhos cerrados, o rosto contrado pela raiva.

- Acho que vocs todos devem ter ficado completamente loucos. Eu no esperava outra coisa dos colonos... so apenas civis e s se preocupam em organizar sua preciosa colnia. Mas voc tambm, Rafe! Possui o treinamento de um cientista, devia compreender o que isso significa! Tudo o que temos  a esperana de reparar a nave... se desperdiarmos nossos recursos em qualquer outra coisa, as chances se tornaro cada vez menores! - Ela parecia frentica. - E teremos de permanecer aqui para sempre!
- Lembre-se, Camilla, de que eu tambm era um dos colonos. Deixei a Terra para me juntar  colnia Coronis...
- Mas aquilo  uma colnia regular, com tudo organizado para convert-la... para convert-la numa parte da civilizao! - exclamou Camilla. -  uma coisa que posso entender. Suas habilidades e instruo valeriam alguma coisa!

MacAran inclinou-se e ps as mos nos ombros da jovem.

- Camilla...

Ele imprimiu todo o seu anseio  palavra. Ela no chegou a reagir, mas ficou imvel entre suas mos, fitando-o. Seu rosto estava contrado e angustiado.

- Camilla, quer me escutar por um momento? Estou com o comandante at o fim, disposto a fazer tudo o que for necessrio para que a nave decole. Mas tambm penso que isso pode no acontecer, no final das contas, e quero fazer tudo o que for possvel para conseguirmos sobreviver nesse caso.
- Sobreviver para qu? - disse Camilla, quase frentica. - Para reverter  selvageria, sobreviver como camponeses, brbaros, sem nada que torne a vida digna de ser vivida? Seria melhor morrermos num ltimo esforo!
- No entendo por que diz isso, meu amor. Afinal, os primeiros humanos comearam com menos do que temos. Talvez o mundo deles tivesse um clima um pouco melhor, mas por outro lado ns contamos com dez ou doze mil anos de conhecimento humano. Um grupo de pessoas que o Comandante Leicester considera bastante capacitado a reparar uma nave estelar deve dispor de conhecimentos suficientes para organizar aqui uma boa sociedade, para si mesmo e seus filhos... e para todas as geraes subseqentes.

Ele tentou atra-la para seus braos, mas Camilla desvencilhou-se, plida e furiosa.

- Prefiro morrer, como qualquer ser humano civilizado! - ela gritou. - Voc  pior que o grupo das Novas Hbridas... o pessoal de Moray... aquele bando idiota de retorno  natureza, fazendo o jogo dele...
- Nada sei a respeito... Camilla, minha querida, no fique zangada comigo, por favor. Estou apenas tentando ver os dois lados do problema...
- Mas s h um lado! E se voc no percebe isso, ento  uma pessoa com quem nem vale a pena falar! Estou envergonhada. . . envergonhada de mim mesma por ter pensado um dia que voc poderia ser diferente!

As lgrimas escorriam por suas faces e ela removeu-as com as mos, furiosa.

- Saia daqui e fique longe de mim! Saia daqui!

MacAran tinha o temperamento geralmente associado  cor de seus cabelos. Baixou as mos como se tivesse se queimado e virou-se.

- Ser um prazer! - disse ele, atravs dos dentes cerrados.

E saiu do domo, batendo a porta reforada com tanta fora que a fez tremer. L dentro, Camilla arriou num banco, com as mos no rosto, e chorou desesperadamente, at que uma violenta onda de nusea a sacudiu, obrigando-a a cambalear para a rea de latrina das mulheres. Finalmente saiu de l, a cabea latejando, o rosto afogueado, todos os nervos doloridos.

Ao retornar ao domo do computador, uma lembrana aflorou em sua mente. Aquilo j lhe acontecera trs vezes agora. . . e num mpeto de intenso medo e rejeio, ela levou as mos  boca, mordendo as articulaes com fora.

- Oh, no! - ela sussurrou. - Oh, no, no. . .

A voz extinguiu-se em splicas e imprecaes balbuciadas, os olhos cinza arregalados em terror.

MacAran seguira para a rea de recreao e refeitrio, que num instante se tornara um centro para a comunidade numerosa e desordenada. Num quadro de avisos improvisado deparou com um comunicado sobre uma reunio da Comuna das Novas Hbridas. Ele j vira isso antes. Os colonos aceitos pela Fora Expedicionria da Terra consistiam no apenas de indivduos, como ele e Jenny, mas tambm de pequenos grupos ou comunas, famlias ampliadas, at mesmo de algumas empresas, que desejavam expandir suas operaes ou abrir sucursais. Todos eram cuidadosamente examinados para determinar como se ajustariam no desenvolvimento equilibrado da nova colnia; afora isso, porm, constituam uma turma bastante heterognea. MacAran desconfiou que a Comuna das Novas Hbridas era uma das muitas pequenas comunidades neo-rurais que haviam se afastado da corrente social na Terra, ressentidas com sua industrializao e organizao. Muitas dessas comunidades haviam partido para as colnias nas estrelas; todos concordavam que podiam ser desajustados na Terra, mas eram excelentes colonos. Ele nunca lhes dispensara qualquer ateno antes, mas agora estava curioso, depois das palavras de Camilla. Ser que a reunio estaria franqueada a pessoas de fora?

MacAran recordou vagamente que aquele grupo reservara algumas vezes uma das reas de recreao da nave para suas reunies. Pareciam ter uma vida comunitria muito coesa. Ora, na pior das hipteses poderiam lhe pedir que se retirasse.

Encontrou-os no refeitrio, vazio entre as refeies. A maioria sentava num crculo e tocava instrumentos musicais. Um jovem alto, de cabelos compridos e tranados, disse a MacAran:

- A reunio  apenas para os membros, amigo.

Mas uma moa de cabelos ruivos soltos, caindo at a cintura, interveio:

- No, Alastair. Ele  MacAran e integrou a equipe de explorao, conhece muitas das respostas de que precisamos. Entre, homem. Seja bem-vindo.

Alastair soltou uma risada.

- Tem toda razo, Fiona. E com um nome como MacAran, ele deveria ser de qualquer maneira um membro honorrio.

MacAran entrou. Com alguma surpresa, avistou no crculo a figura gorducha, de cabelos louros avermelhados, de Lewis MacLeod. Ele comentou:

- No tive um contato maior com vocs na nave e no sei o que representam.
- Somos neo-ruralistas, construtores do mundo - respondeu Alastair. - Alguns representantes do sistema podem nos chamar de antitecnocratas, mas no somos os destruidores. Apenas procuramos por uma alternativa honrosa para a sociedade existente na Terra e geralmente somos to bem-acolhidos nas colnias quanto eles ficam contentes ao nos verem deixar a Terra. E agora nos diga, MacAran: o que est acontecendo aqui? Quando poderemos partir para construir a nossa prpria colnia?
- Sabem tanto quanto eu. O clima aqui  terrvel, todos j sabem; se  assim no vero, deve ser muito pior no inverno.

Fiona riu.

- A maioria de ns foi criada nas Hbridas ou mesmo nas Orkneys, onde se encontra o pior clima da Terra. O frio no nos assusta, MacAran. Mas queremos nos estabelecer em vida comunitria, a fim de podermos instituir nossos hbitos e costumes, antes do inverno comear.
- No tenho certeza se o Comandante Leicester permitir que algum deixe o acampamento - respondeu MacAran. - A prioridade ainda  reparar a nave, e creio que ele considera a todos ns como uma nica comunidade. Se comearmos a nos dispersar. . .
- No somos cientistas - protestou Alastair. - No podemos passar cinco anos trabalhando numa nave estelar.  contra toda a nossa filosofia!
- A sobrevivncia. . .
- Sobrevivncia...! - MacAran compreendia muito pouco do galico de seus antepassados, mas calculou que Alastair dissera uma palavra obscena. - A sobrevivncia significa para ns organizar uma colnia aqui, o mais depressa possvel. Assinamos um contrato para irmos at Coronis. O Comandante Leicester cometeu um erro e trouxe-nos para c. Mas  tudo a mesma coisa para ns. Para nossos propsitos, aqui  ainda melhor.

MacAran olhou para MacLeod, franzindo as sobrancelhas.

- No sabia que voc pertencia a este grupo.
- E eu no pertencia - respondeu MacLeod. - Sou apenas um agregado, mas concordo com eles. . . e quero ficar aqui.
- Pensei que eles no aprovavam os cientistas. Fiona explicou:
- Aceitamos os cientistas quando usam seus conhecimentos para servir e ajudar a humanidade... no para manipul-la ou destruir sua fora espiritual. Estamos felizes por contar com o Dr. MacLeod... Lewis, pois no usamos ttulos... como um dos nossos, com seus conhecimentos de zoologia.

MacAran indagou, espantado:

- Esto pensando em promover um motim contra o Comandante Leicester?
- Motim? - interveio um rapaz que ele no conhecia. - No somos seus tripulantes nem sditos. Queremos apenas viver como faramos ao chegar ao novo mundo. No podemos esperar trs anos at que ele desista de sua idia desvairada de reconstruir a nave. At l, j poderamos ter uma comunidade funcional.
- E se ele conseguir reparar a nave e continuar a viagem para Coronis? Vocs ficariam aqui?
- Este  o nosso mundo - declarou Fiona, indo postar-se ao lado de Alastair, os olhos gentis, mas determinados. - Nossos filhos nascero aqui.

MacAran ficou chocado.

- Est querendo dizer. . .
- No sabemos, mas algumas de nossas mulheres podem j estar grvidas - respondeu Alastair. -  o sinal de nosso compromisso com este mundo, nosso sinal de rejeio da Terra e do mundo que o Comandante Leicester quer nos impor. E pode dizer isso a ele.

Enquanto MacAran se retirava, os instrumentos musicais soaram de novo e uma voz triste de mulher comeou a entoar uma das antigas canes de eterna melancolia das ilhas, um lamento pelos mortos, saindo de um passado mais atormentado e abalado por guerras e exlios do que qualquer outro povo na Terra:

Gaivota branca como a neve, diga,
Oh, diga-me, por favor,
Onde repousam nossos belos jovens.
Onda sobre onda jazem,
No h suspiro
Saindo de seus lbios frios;
Algas marinhas so sua mortalha,
O triste canto do mar os embala.
A cano provocou um aperto na garganta de MacAran, as lgrimas comprimiram-se contra os olhos. Eles lamentam, pensou ele, mas sabem que a vida continua. Os escoceses foram exilados por sculos, por milnios. Este  apenas mais um exlio, um pouco mais distante do que os anteriores, mas cantaro as antigas canes sob as novas estrelas e encontraro novas montanhas e novos mares. . .

Deixando o refeitrio, ele puxou o capuz sobre a cabea. quela altura, deveria estar comeando a chover. Mas no estava.

CAPITULO
NOVE
MacAran j testemunhara o que duas noites sem chuva e sem neve podiam causar naquele planeta. As reas de horta explodiram em vegetao, muitas flores, principalmente as pequenas flores laranja, cobriram o cho em toda parte. As quatro luas apresentavam-se em sua glria antes mesmo do pr-do-sol e permaneciam no cu at depois do amanhecer, com um fluxo de claridade lils.

A floresta estava seca e comearam a se preocupar, mantendo uma equipe de vigilncia contra incndios. Moray teve a idia de instalar pra-raios no alto de cada colina, presos em rvores enormes, a alguns quilmetros do acampamento. Podia no evitar um incndio no caso de uma tempestade mais violenta, mas poderia diminuir um pouco os perigos.

E l em cima, nas alturas, as enormes flores douradas em forma de campnulas se abriram, o plen de doce fragrncia espalhando-se pelas encostas superiores. No alcanara o vale.

Ainda no. . .

Depois de uma semana de tardes sem neve, noites de luar e dias quentes - quentes pelos padres daquele planeta, que fariam com que a Noruega parecesse um balnerio de vero -, MacAran foi pedir o assentimento de Moray para outra excurso pelos contrafortes. Achava que deveria aproveitar o tempo excepcionalmente favorvel para coletar mais espcimes geolgicos e talvez localizar cavernas que pudessem servir como abrigos de emergncia, em exploraes posteriores. Moray ocupara uma pequena sala no canto da rea de recreao como seu gabinete. Enquanto MacAran esperava do lado de fora, Heather Stuart entrou no prdio.

- O que acha desse tempo? - ele perguntou.

Era o antigo hbito da Terra prevalecendo. Quando em dvida, fale sobre o tempo. E havia muito para se falar sobre o tempo naquele planeta, e tudo era ruim.

- No me agrada - respondeu Heather, muito sria. - No esqueci o que aconteceu na montanha quando tivemos uns poucos dias claros.

Voc tambm!, pensou MacAran. Mas ele protestou:

- Como o tempo poderia ser responsvel, Heather?
- Vrus transportado pelo ar. Plen transportado pelo ar. Poeiras qumicas transportadas pelo ar. Sou microbiloga, Rafe. Voc ficaria surpreso se soubesse o que pode haver nuns poucos centmetros cbicos de ar, gua ou solo. Na sesso de informaes Camilla disse que a ltima coisa de que se lembrava antes de iniciar o comportamento aberrante foi o fato de haver cheirado flores. Lembro tambm que o ar estava impregnado com a fragrncia.

Ela fez um pausa, sorrindo contrafeita, antes de continuar: -  claro que a minha recordao pode no ser uma prova e peo a Deus para no ter de descobrir outra vez por experincia e erro. Acabei de constatar que no estou grvida e no quero passar por isso outra vez. Quando penso na maneira como as mulheres deviam viver antes da inveno de anticoncepcionais realmente seguros, nunca sabendo de um ms para outro... - Ela estremeceu. - Rafe, Camilla j tem certeza? Ela no fala mais comigo.

- No sei - respondeu MacAran, um tanto sombrio. - Ela tambm no fala mais comigo.

O rosto sensvel de Heather assumiu uma expresso de consternao.

- Oh, Rafe, sinto muito! Fiquei to feliz por vocs dois, Ewen e eu espervamos... Acho que Moray j vai poder receb-lo.

A porta se abrira e o ruivo grandalho chamado Alastair esbarrou neles ao sair, virando-se e meio gritando:

- A resposta ainda  no, Moray! Vamos embora... todos ns, a comunidade inteira! Imediatamente, esta noite!

Moray estava na porta agora.

- So muito egostas, hem? Falam sobre comunidade, mas esto se referindo apenas a seu pequeno grupo... no  comunidade maior da humanidade neste planeta. Nunca lhe ocorreu que todos ns, as duzentas e tantas pessoas aqui, formamos uma comunidade compulsoriamente? Somos a humanidade aqui, somos a sociedade. Onde est o seu senso de responsabilidade em relao ao semelhante, meu rapaz?

Alastair baixou a cabea e murmurou:

- Vocs no defendem as mesmas coisas que ns.
- Todos queremos o bem comum e a sobrevivncia - respondeu Moray, calmamente. - O comandante vai acabar concordando. D-me uma chance de conversar com os outros, pelo menos.
- Est apenas tentando nos manipular. . .
- Tem medo do que eu possa lhes dizer? Tem medo de que eles no aceitem o que voc quer?

Alastair, acuado, explodiu:

- Est  bem,  fale com eles!  Mas posso garantir que no  vai adiantar!

Moray passou pela porta, dizendo a MacAran, enquanto avanava:

- O que quer que seja, meu rapaz, ter de esperar. Preciso conversar com aqueles jovens lunticos, persuadi-los a considerar todos ns como uma grande famlia. . . no pensar apenas em sua pequena famlia!

Os trinta membros da comuna das Novas Hbridas estavam reunidos l fora. MacAran notou que haviam tirado o uniforme de superfcie distribudo pelo comando da nave, usavam trajes civis e carregavam mochilas. Moray adiantou-se e comeou a falar. Do lugar em que se encontrava, na porta do salo de recreao, MacAran no podia ouvir suas palavras, mas houve muitos gritos e discusses. MacAran observou os pequenos turbilhes de poeira atravs do campo arado, o vento soprando nas rvores  beira da clareira como um murmrio marinho que nunca cessava. Teve a impresso de que havia uma cano no vento. Olhou para Heather ao seu lado, o rosto dela parecia brilhar e faiscar ao sol, quase uma cano visvel. E ela murmurou, a voz rouca:

- Msica. . . msica no vento. . .
- Por Deus, o que eles esto fazendo? - balbuciou MacAran. - Promovendo um baile?

Ele afastou-se de Heather, enquanto um grupo de guardas da Segurana, uniformizados, aproximava-se da nave. Um deles foi se postar diante de Alastair e Moray e comeou a falar. MacAran chegou perto a tempo de ouvir o final:

- ... larguem as mochilas. Tenho ordens do comandante para levar todos sob custdia, por desero numa emergncia.
- Seu comandante no tem qualquer autoridade sobre ns, com ou sem emergncia! - berrou o ruivo grandalho.
Uma das moas pegou um punhado de terra e arremessou, provocando risos frenticos nos outros. Moray suplicou angustiado aos homens da Segurana:

- No faam nada! No h necessidade disso! Deixem-me cuidar deles!

O oficial atingido pela terra que a moa arremessara sacou sua arma. MacAran, dominado pelo mpeto de um medo que j conhecia, murmurou:

- Vai comear.

Ele correu, enquanto os rapazes e moas da comuna largavam as mochilas e atacavam, uivando e berrando como demnios.

Um homem da Segurana largou seu rifle e desatou em gargalhadas desvairadas. Jogou-se no cho e foi rolando, aos gritos. MacAran, com um resqucio de percepo, recolheu a arma descartada, arrancou outra do segundo homem e correu para a nave, enquanto um terceiro guarda da Segurana, que tinha apenas uma pistola, disparava. No crebro transtornado de MacAran o tiro ressoou como uma galeria infinita de ecos. Com um berro estridente, uma das moas caiu no cho, se contorcendo em agonia.

MacAran, carregando os rifles, irrompeu no domo do computador, onde se encontrava o comandante. Leicester franziu as sobrancelhas, exigindo uma explicao. MacAran observou as sobrancelhas rastejarem como lagartas, criarem asas e voarem pelo domo... no. NO! Lutando contra o ataque vertiginoso de irrealidade, ele balbuciou:

- Comandante, est acontecendo de novo! O que nos aconteceu nas encostas! Pelo amor de Deus, tranque as armas e a munio antes que algum seja morto! Uma das moas j foi baleada e...
- O qu? - A expresso de Leicester era de total incredulidade. - Com certeza est exagerando...
- J passei por isso, Comandante!

MacAran fazia um esforo desesperado para reprimir o impulso de se jogar e rolar pelo cho, agarrar o comandante pela garganta e sacudi-lo at a morte. . .
-  real. ... conhece Ewen Ross. Sabe que ele tem um treinamento mdico completo e meticuloso... mas ficou pela floresta se divertindo com Heather e MacLeod enquanto um paciente agonizante passava por ele e caa mais adiante com a aorta rompida. Camilla... a Tenente Del Rey... largou sua luneta e saiu correndo atrs de borboletas.
- E voc acha que essa... essa epidemia vai atacar aqui?
- Comandante, eu tenho certeza! - suplicou MacAran. - Estou... estou lutando para resistir neste momento...

Leicester no se tornara comandante de uma nave estelar pela ausncia de imaginao ou por se recusar a enfrentar emergncias. Ao estampido de um segundo tiro no espao antes da clareira, ele correu para a porta, apertando um boto de alarme na passagem. Como ningum respondesse, ele gritou, correndo atravs da clareira.

MacAran, correndo atrs, avaliou a situao num relance. A moa alvejada pelo guarda ainda se encontrava no cho, contorcendo-se em dor; guardas e jovens da comuna se engalfinhavam, berrando insultos. Um terceiro tiro soou; um dos guardas soltou um uivo de dor e caiu, segurando o joelho.

- Danforth! - gritou o comandante.

Danforth virou-se, a arma levantada. Por uma frao de segundo, MacAran pensou que ele ia puxar o gatilho outra vez, mas o hbito de muitos anos de obedincia ao comandante fez o enlouquecido oficial hesitar. Apenas por um instante, mas a esta altura MacAran j dera um pulo e derrubou-o no cho, a arma escapando de sua mo. Leicester pegou-a no mesmo instante, abriu, tirou as balas e guardou no bolso.

Danforth lutava como um louco, as mos em garras golpeando MacAran, tentando agarrar sua garganta. MacAran tambm sentia um impulso de raiva incontrolvel querendo domin-lo, manchas vermelhas turbilhonando diante de seus olhos. Tinha vontade de estraalhar, morder, arrancar os olhos do homem... com um tremendo esforo, recordando o que acontecera antes, retornou  realidade e deixou o homem levantar. Danforth olhou aturdido para o comandante e comeou a chorar, limpando os olhos com os punhos cerrados, balbuciando palavras incoerentes. O Comandante Leiceste berrou:

- Vai pagar caro por isso, Danforth! Recolha-se aos alojamentos! Danforth engoliu em seco uma ltima vez. Relaxou e sorriu indolente para seu superior, depois murmurou ternamente:
- Comandante, algum j lhe disse que tem enormes e lindos olhos azuis? Por que no vamos...

Sorrindo, inocente, na mais absoluta seriedade, ele fez uma proposta obscena, que levou Leicester a ofegar, ficar roxo de raiva, respirar fundo para gritar outra vez. MacAran segurou o brao do comandante.

- No faa nada de que possa se arrepender depois, Comandante. No percebe que ele no sabe o que faz ou diz?

Danforth j perdera o interesse e afastou-se, chutando seixos, distrado. Ao redor, a briga j perdera o mpeto; metade dos combatentes sentara no cho, cantarolando, enquanto os outros se separavam em grupos de dois ou trs. Alguns afagavam uns aos outros com total absoro animal e uma completa ausncia de inibio, estendidos na relva spera; outros j se encaminhavam, sem qualquer discriminao - homem e mulher, mulher e mulher, homem e homem - para satisfaes mais diretas e ativas. O Comandante Leicester ficou olhando para a orgia em plena luz do dia, com a mais profunda consternao, e comeou a chorar.

Uma onda de repulsa aflorou em MacAran, extinguindo a preocupao inicial e a compaixo pelo homem. Ao mesmo tempo, ele se descobriu dividido entre emoes vertiginosas e conflitantes, um impulso crescente de luxria, incutindo o desejo de se jogar no cho com os corpos entrelaados, um ltimo resqucio de pesar pelo comandante - ele no sabe o que est fazendo, nem mesmo tanto quanto eu... e uma onda de nusea cada vez mais intensa. Abruptamente ele se virou, um pnico doentio apagando tudo o mais, cambaleou e afastou-se correndo da cena.

Por trs dele, uma jovem de cabelos compridos, pouco mais que uma criana, aproximou-se do comandante, exortou-o a deitar, aninhou a cabea em seu colo e ninou-o como um beb, cantarolando suavemente em galico. . .

Ewen Ross viu e sentiu a primeira onda de irracionalidade crescente... atingiu-o como pnico... e ao mesmo tempo, no hospital, um paciente ainda envolto por ataduras e comatoso h dias levantou-se, arrancou as bandagens, abriu os ferimentos e sangrou at a morte, rindo, sob o olhar horrorizado de Ewen e uma enfermeira. A enfermeira jogou um enorme vidro de desinfetante no homem agonizante. Ewen, fazendo um esforo frentico para controlar as ondas de loucura que ameaavam domin-lo (o cho balanava num terremoto, uma vertigem incontrolvel enchia de nusea suas entranhas e cabea, cores insanas turbilhonavam diante de seus olhos...), saltou para a enfermeira e, depois de uma breve luta, arrancou o bisturi com que ela cortava os prprios pulsos. Resistiu aos braos da enfermeira que o envolviam (jogue-a na cama agora, arranque suas roupas...) e correu para o Dr. Di Asturien, balbuciando uma splica apavorada para que trancasse todos os venenos, narcticos e instrumentos cirrgicos. Recrutando apressadamente a ajuda de Heather (afinal, ela tinha alguma lembrana de seu primeiro ataque), conseguiram guardar a maior parte e esconderam a chave em segurana, antes que o hospital inteiro enlouquecesse...

No fundo da floresta, o sol to raro povoava a relva e as clareiras com flores, impregnava o ar com o plen trazido das alturas pelo vento.

Insetos zumbiam de flor em flor, de folha em folha; pssaros acasalavam, construam ninhos de pena, com seus ovos protegidos nas paredes isolantes de lama e palha, para chocar resguardados e alimentados com nctares e resinas armazenados at o prximo encantamento de calor. Gramneas e cereais espalhavam suas sementes, que as prximas nevascas fertilizariam e umedeceriam para brotar.

Nas plancies, os animais parecidos com veados corriam  solta, estourando, lutando, acasalando, enquanto os ventos impregnados de plen lanavam as estranhas fragrncias no fundo de seus crebros. E nas rvores, nas encostas inferiores, os pequenos humanides peludos estavam desvairados, arriscando-se at o cho - alguns pela nica vez em suas vidas -, banqueteando-se com frutos que amadureciam de um momento para outro, correndo pelas clareiras numa indiferena ensandecida aos animais  espreita. Geraes e milnios de memria, em seus genes e crebros, ensinaram-lhes que desta vez at mesmo seus inimigos naturais eram incapazes de manter o longo esforo da caada. A noite assentou sobre o mundo das quatro luas; o sol escuro mergulhou num estranho e claro crepsculo, as raras estrelas apareceram. Uma depois da outra, as luas escalaram o cu; a enorme lua de brilho violeta, outra verde-clara, a terceira como um disco azul, a menor lembrando uma prola branca. Na clareira em que se encontrava a imensa nave estelar, estranha quele mundo, sinistra e ameaadora, os homens da Terra respiravam o estranho vento e o plen que o impregnava, impulsos inslitos irrompendo em seus crebros.

O Padre Valentine e meia dzia de tripulantes estavam estendidos no meio do mato, exaustos e saciados.

No hospital, pacientes febris gemiam sem qualquer assistncia ou corriam desvairados para a clareira e a floresta, em busca de alguma coisa que no sabiam o que era. Um homem com a perna quebrada correu por mais de um quilmetro atravs da floresta antes que a perna cedesse. Ficou cado ali, rindo ao luar, enquanto um animal parecido com um tigre lambia seu rosto, carinhosamente.

Judith Lovat estava deitada em seu alojamento, balanando a enorme pedra azul na corrente em torno do pescoo; mantivera-a oculta sob as roupas durante todo aquele tempo. Tirara-a agora, como se os estranhos padres estelares l dentro exercessem alguma influncia hipntica. Lembranas turbilhonavam em sua mente, da estranha loucura sorridente que j a dominara antes. Depois de algum tempo, como se seguisse algum chamado inaudvel, ela se levantou, vestiu agasalhos, apropriando-se calmamente das roupas mais quentes de sua colega de alojamento (esta, uma jovem chamada Eloise, que fora oficial de comunicaes na nave, sentava naquele momento sob uma rvore de folhas compridas, escutando os estranhos sons do vento na copa e cantando sem palavras). Judy atravessou a clareira e embrenhou-se pela floresta. No sabia para onde seguia, mas tinha certeza de que seria orientada quando chegasse o momento. Por isso, foi subindo em linha reta, nunca se desviando, ouvindo a msica no vento.

Frases escutadas em outro planeta ecoavam vagamente em sua mente, pela mulher gemendo por seu amante demnio...

No, no um demnio, ela pensou, mas muito inteligente, estranho e belo para ser humano... Ela se ouviu soluar enquanto andava, recordando a msica, os ventos e flores tremeluzentes, os estranhos e luminosos olhos do ser meio lembrado, o medo que rapidamente se transformara em encantamento e depois em felicidade, um senso de intimidade mais intenso do que qualquer outra coisa que j conhecera.

Fora alguma coisa assim, como as antigas lendas da Terra, um peregrino atrado por uma criatura fantstica, o poeta que apregoara em seu encantamento:

Uma dama na floresta conheci,
Uma criana que era uma fada,
Longos cabelos, suaves passos,
E os olhos luminosos...

Seria assim? Ou era... E o Filho de Deus contemplou as filhas dos homens e achou que eram belas...

Judy era uma cientista bastante disciplinada para ter conscincia de que havia algo de loucura naquelas estranhas aes. No tinha a menor dvida de que algumas de suas lembranas estavam influenciadas e alteradas pelo estranho estado de percepo em que mergulhara. Contudo, a experincia e a comprovao da realidade tambm deviam ser levadas em considerao. Se havia um toque de loucura em tudo aquilo, por trs da loucura tambm havia algo real; e era to real quando o contato tangvel em sua mente agora, que dizia: "Venha. Ser conduzida e no sofrer mal algum."

Ela ouviu o curioso farfalhar das folhas por cima da cabea e parou, olhando, prendendo a respirao na expectativa. To profundo era o seu anseio e esperana de ver o rosto estranho e inesquecvel que quase chorou ao constatar que era apenas um dos pequenos, as criaturas de olhos vermelhos, espiando-a, tmido e selvagem, atravs das folhas. Depois, desceu pelo tronco e postou-se  sua frente, trmulo mas confiante, estendendo as mos.

Judy no podia alcanar sua mente. Sabia que os pequenos eram muito menos desenvolvidos do que ela, e a barreira da linguagem era enorme. Mas, de alguma forma, eles se comunicavam. O pequeno homem-das-rvores sabia quem era ela, o que procurava e por qu; Judy sabia que ele fora enviado  sua procura e trazia uma mensagem que ela ansiava em ouvir. Ela divisou outros rostos estranhos e tmidos nas rvores, e um momento depois, quando se certificaram de sua boa disposio, desceram e a cercaram. Um deles deslizou a mo fria por seus dedos, outro enfeitou-a com folhas e flores. Tinham um comportamento quase reverente enquanto a conduziam, e Judy acompanhou-os sem protesto, sabendo que aquilo era apenas um prlogo para o verdadeiro encontro, que tanto desejava.

Houve uma tremenda exploso na nave avariada. O solo tremeu e os ecos ressoaram pela floresta, assustando os pssaros e levando-os a alar vo das rvores. Subiram numa nuvem que escureceu o sol por um instante, mas ningum prestou ateno na clareira em que se encontravam os terrqueos. . .

Moray estava deitado no solo macio e arado da horta, escutando com um profundo conhecimento interior o suave crescimento das plantas fincadas na terra. Parecia-lhe, naqueles momentos de percepo expandida, que podia ouvir a relva e folhas crescendo, que algumas das plantas transplantadas da Terra se queixavam, choravam, agonizavam, enquanto outras, naquele solo estranho, vicejavam e mudavam, as clulas internas se alterando e transformando, como era necessrio para se adaptarem e sobreviverem. Ele no seria capaz de traduzir nada disso em palavras e, como um homem pragmtico e materialista, jamais acreditaria racionalmente em PES. Contudo, com os centros desusados de seu crebro estimulados pela estranha loucura do momento, ele no tentava racionalizar ou acreditar. Apenas sabia e aceitava o conhecimento, tinha certeza de que nunca mais o deixaria.

O Padre Valentine foi despertado pelo sol elevando-se sobre a clareira. A princpio, atordoado, ainda repleto com a estranha percepo, ficou sentado, contemplando admirado o sol e as quatro luas, que podia ver nitidamente, por um jogo de luz ou por causa dos sentidos to aguados, no amanhecer violeta: verde, violeta, prola-alabastro e azul-pavo. E, depois, a memria envolveu-o. Horrorizado, viu os tripulantes espalhados ao seu redor, ainda em sono profundo, exaustos. Todo o horror insuportvel do que fizera, naquelas ltimas horas de escurido e anseios animais, aflorou numa mente muito confusa e hiperestimulada para sequer ter conscincia da prpria loucura.

Um dos tripulantes tinha uma faca no cinto. O pequeno sacerdote, lgrimas escorrendo pelo rosto, pegou-a e comeou a eliminar todas as testemunhas de seu pecado, murmurando para si mesmo as frases da extrema-uno enquanto observava o sangue jorrar...

Foi o vento, pensou MacAran. Heather estava certa; era alguma coisa no vento. Alguma substncia, transportada pelo ar, poeira ou plen, que causava aquela loucura. J a conhecera antes e desta vez tinha alguma noo do que acontecia; o suficiente para trabalhar durante os estgios iniciais, arrebatado apenas pelos ataques recorrentes de sbito pnico ou euforia, trancando armas, munio, venenos do hospital ou do laboratrio qumico. Sabia que Heather e Ewen faziam a mesma coisa, numa extenso limitada, no hospital. Mesmo assim, sentia-se atordoado pelo horror do ltimo dia e noite; e quando a noite caiu, sabendo racionalmente que um homem meio so poderia fazer muito pouco contra duzentos homens e mulheres completamente enlouquecidos, foi se esconder na floresta, apegando-se desesperado  sanidade, contra as ondas recorrentes de loucura que o envolviam. Aquele planeta amaldioado! Aquele mundo amaldioado, com os ventos da loucura que sopravam das colinas altas, uma loucura voraz, que dominava tanto homens quanto animais. Um vento-fantasma, um vento-esprito, que a tudo dominava, semeando a loucura e o terror!

O comandante est certo. Temos de escapar deste mundo. Ningum pode sobreviver aqui, nada humano, somos vulnerveis demais. . .

Ele sentiu uma ansiedade desesperada por Camilla. Naquela noite desvairada de estupro, assassinato, terror, pnico fora de controle, batalha brutal e destruio, onde ela estaria? Sua busca inicial por Camilla fora infrutfera, embora tentasse, consciente dos sentidos aguados, "escutar" da estranha maneira que lhe permitira na montanha localiz-la infalivelmente, atravs da nevasca. Mas seu prprio medo agia como esttica, turvando um receptor sensvel; podia senti-la, mas onde? Ela teria se escondido, como ele depois de compreender a inutilidade da busca, apenas tentando escapar  loucura dos outros? Fora dominada pela luxria e a frentica euforia sensual de alguns dos outros, envolvera-se em algum dos grupos que procuravam loucamente o prazer, indiferentes a tudo o mais? O pensamento era agonia para MacAran, mas tambm a alternativa mais segura. Era a nica alternativa suportvel - de outra forma o pensamento de que Camilla poderia ter encontrado algum tripulante enlouquecido e assassino antes que as armas estivessem trancadas, o pavor de que ela pudesse ter corrido para a floresta numa recorrncia do pnico e ali fora atacada e morta por algum animal, poderia lev-lo  insanidade total.

Sua cabea zumbia e ele cambaleava, enquanto atravessava a clareira. Junto de arbustos perto do crrego avistou corpos imveis - mortos, feridos ou saciados, no dava para saber. Uma rpida verificao revelou que Camilla no estava ali, e ele continuou. O cho parecia se transformar em rocha sob seus ps, e precisava de toda a sua concentrao para no sair correndo loucamente entre as rvores, procurando. . . procurando. . . ele fez um esforo para retornar  conscincia de sua busca e seguiu em frente.

No estava no centro de recreao, onde os membros da Comuna das Novas Hbridas esparramavam-se em sono exausto ou tocavam distrados os instrumentos musicais. No estava no hospital, onde uma nevasca de papel indicava o lugar em que algum delirara com os registros mdicos. . . abaixe, pegue um punhado de pedaos de papel, deixe escorrer entre os dedos como neve caindo, deixe turbilhonar ao vento. . . MacAran nunca soube quanto tempo ficou parado ali, escutando o vento e contemplando as nuvens de papel, antes que a onda de loucura tornasse a retroceder, como um maremoto, arrastando e sugando tudo que encontrava na praia. Mas o sol estava encoberto por nuvens rpidas e o vento era gelado quando ele se recuperou e comeou, numa onda de pnico, a procurar em todos os cantos por Camilla.

Entrou finalmente no domo do computador, encontrando-o na escurido. (O que acontecera com as luzes? Aquela exploso apagara todas, desligara todos os controles de energia da nave!). Pensou a princpio que estava deserto. E depois,  medida que os olhos se ajustaram  escurido, divisou sombras indefinidas no canto; o Comandante Leicester e... isso mesmo, Camilla, ajoelhada ao lado, segurando sua mo.

quela altura, ele encarava como um fato corriqueiro que podia de fato ouvir os pensamentos do comandante. Por que eu nunca a vi realmente antes, Camilla! MacAran ficou espantado e, numa pequena parte s de sua mente, envergonhado com a onda de emoo primitiva que o dominou, uma raiva incontrolvel que aflorava nele e bradava: Esta mulher  minha!

Adiantou-se, erguendo-se na ponta dos ps, sentindo a garganta inchar, os lbios repuxados, os dentes  mostra, soltando um rosnado sem palavras. O Comandante Leicester levantou-se de um pulo e enfrentou-o, desafiador. Com aquela estranha sensibilidade aguada, MacAran teve conscincia do erro que o comandante cometia. . .

Outro louco, preciso proteger Camilla contra ele, ainda posso cumprir esse dever por minha tripulao... e o pensamento coerente foi sufocado por um mpeto de raiva e desejo. O que deixou MacAran enlouquecido. Leicester agachou-se e pulou para ele, os dois caram, engalfinhados, rugindo do fundo de suas gargantas, num combate primitivo. MacAran ficou por cima e, num relance, viu que Camilla se recostava tranqilamente na parede, os olhos dilatados e ansiosos. Compreendeu que ela estava excitada pela viso de homens brigando e aceitaria - passivamente, sem se importar - o que triunfasse na luta... E foi ento que outra onda de sanidade invadiu MacAran. Desvencilhou-se do comandante, fazendo um esforo para levantar. E disse, em voz baixa, urgente:

- Senhor, isso  um absurdo. Se lutar, poder resistir. Tente, senhor, faa um esforo para permanecer so. . .

Mas Leicester, rolando para um lado, livre agora, tratou de se levantar, rosnando de raiva, os lbios salpicados de espuma, os olhos desfocados e desvairados. Baixando a cabea, ele arremeteu para MacAran com toda fora. Bastante controlado agora, Rafe recuou. E disse, pesaroso:

- Sinto muito, Comandante.

Um nico golpe, bem dirigido, acertou o queixo de Leicester, derrubando o homem enlouquecido, sem sentidos.

MacAran contemplou-o por um momento, a raiva se desvanecendo como gua escoando pelo ralo. Aproximou-se de Camilla e ajoelhou ao seu lado. Ela fitou-o e sorriu, e de repente, de uma maneira que ele no podia mais duvidar, tornaram a fazer contato. MacAran murmurou, gentilmente:

- Por que no me disse que estava grvida, Camilla? Eu teria me preocupado, mas isso me deixaria feliz tambm.

No sei. A princpio tive medo, no podia aceitar; mudaria demais a minha vida.

Mas no se importa agora? Ela disse em voz alta:

- No, no me importo, no neste momento, mas as coisas esto muito diferentes agora. Posso mudar outra vez.
- Ento no  uma iluso - disse MacAran. - Estamos mesmo lendo as mentes um do outro.
- Claro. - Camilla estava imvel, com um sorriso sereno. - No sabia disso?

Era mesmo claro, pensou MacAran;  por isso que os ventos trazem a loucura.

O homem primitivo na Terra devia ter PES, toda a gama de poderes psquicos, como uma fora de sobrevivncia de reserva. No apenas explicaria a convico persistente neles, contra as provas mais nfimas, mas tambm explicaria a sobrevivncia onde a mera sapincia no podia ser responsvel. Um ser frgil, o homem primitivo no poderia sobreviver sem a capacidade de saber (com sua viso mais turva que a das aves, a audincia menos de um dcimo que a de qualquer co ou carnvoro) onde podia encontrar comida, gua, abrigo; como evitar os inimigos naturais. Mas,  medida que desenvolveu a civilizao e a tecnologia, esses poderes fora de uso se perderam. O homem que anda pouco perde a capacidade de correr e escalar; contudo, os msculos existem e podem ser desenvolvidos, como cada atleta e artista de circo aprende. O homem que confia em cadernos de anotaes perde a capacidade dos velhos bardos, de memorizar longas epopias e genealogias. Mas durante todos aqueles milnios os antigos poderes psquicos permaneceram latentes em seus genes e cromossomos, em seu crebro. . . e algum elemento qumico no estranho vento (plen? poeira? vrus?) os estimulara de novo.

Loucura, portanto. O homem, acostumado a usar apenas cinco dos seus sentidos, bombardeado por novos dados dos outros que no eram usados, o crebro primitivo tambm estimulado ao mximo, no podia suportar e reagia - alguns pela perda total e terrvel da inibio; alguns com xtase; alguns com a recusa cega em encarar a verdade.

Se queremos sobreviver neste mundo, ento devemos aprender a escutar; a encarar; a usar, no a combater.

Camilla pegou sua mo e disse em voz alta, suavemente:

- Escute, Rafe, o vento est cessando; chover em breve e tudo isso acabar. Podemos mudar... eu posso mudar de novo com o vento, Rafe. Vamos aproveitar o fato de estarmos juntos agora... enquanto podemos.

A voz parecia to triste que MacAran quase chorou. Em vez disso, porm, pegou a mo de Camilla e os dois deixaram o domo em silncio. Ela parou na porta por um instante, retirou a mo gentilmente e voltou. Inclinou-se para o comandante, ajeitou o bluso enrolado sob sua cabea, ajoelhou-se ao seu lado, beijou-o no rosto. Depois se levantou e voltou para Rafe, agarrando-se a ele, tremendo suavemente com as lgrimas no derramadas, enquanto saam do domo.

...

As brumas se acumularam no alto das encostas e uma chuva fina comeou a cair. As pequenas criaturas peludas de olhos vermelhos, como se despertassem de um longo sonho, olharam frenticas ao redor e correram para a segurana de seus caminhos nas rvores e abrigos de galhos e vime entrelaados. Os animais brincando nos vales gritaram suavemente em confuso e fome, abandonaram a diverso e corridas, voltaram a pastar calmamente ao longo dos crregos. E, como se despertassem de pesadelos longos e confusos, os homens da Terra, sentindo a chuva em seus rostos, os efeitos do vento se dissipando em suas mentes, despertaram e descobriram que, em muitos casos, o pesadelo era terrivelmente real.

O Comandante Leicester recuperou a conscincia lentamente, no domo do computador deserto, ouvindo os rudos da chuva cair na clareira l fora. Os maxilares doam; encontrou a maior dificuldade para se levantar, passou a mo pelo rosto, pesaroso, lutando para recuperar a memria dos estranhos e confusos pensamentos das ltimas trinta e seis horas. O rosto estava com a barba por fazer, o uniforme sujo e amarfanhado. Memria? Ele sacudiu a cabea, aturdido; sentiu dor e comprimiu as mos contra as tmporas que latejavam.

Fragmentos afloraram em sua mente, meio reais, como um longo sonho. Tiros e uma briga; o rosto meigo de uma jovem ruiva, a lembrana inconfundvel de seu corpo, nu e acolhedor... fora real ou apenas uma fantasia delirante? Uma exploso que sacudira a clareira... a nave? Sua mente ainda se encontrava muito nebulosa para saber o que fizera ou para onde fora depois disso, mas lembrava-se de ter voltado para aquele lugar e encontrado Camilla sozinha, claro que ela protegeria o computador, como a galinha protege o pinto. Uma lembrana vaga de um longo tempo com Camilla, segurando sua mo, enquanto ocorria uma comunho estranha e profunda, intensa e completa, ntima, mas de certa forma no sexual, embora houvesse isso tambm - ou essa parte era iluso, memria confusa da moa ruiva cujo nome ignorava? - as estranhas canes que ela cantara, outro mpeto de medo e sentimento protetor, uma exploso em sua mente, depois a escurido e o sono.

A sanidade voltou, uma lenta ascenso, em recuo do pesadelo. O que acontecera com a nave, a tripulao, os outros, naquele tempo de loucura? Ele no sabia. Mas era melhor descobrir. Recordava vagamente que algum fora baleado, antes que ele assumisse um comportamento aberrante... ou isso tambm seria parte da loucura? Apertou o boto pelo qual chamava os guardas da nave, mas no houve resposta. Percebeu que as luzes tambm no funcionavam. Ento algum desligara as fontes de energia, na loucura. Quais seriam os outros danos? Era melhor sair e verificar. Mas onde estava Camilla?

Naquele momento ela se desvencilhava de Rafe, relutante, dizendo gentilmente:

- Preciso ir embora para verificar que danos a nave sofreu, querido. E saber tambm o que aconteceu com o comandante. No se esquea de que ainda sou parte da tripulao. Nosso tempo acabou... pelo menos por enquanto. Haver muita coisa para todos ns fazermos. Preciso procurar o comandante... eu sei, eu sei, mas tambm o amo, no como a voc... estou aprendendo muita coisa sobre o amor, meu querido, e ele pode estar ferido.

Ela atravessou a clareira sob a chuva, que comeava a se misturar com neve. Espero que algum encontre algum tipo de animal peludo, pensou Camilla. As roupas projetadas para a Terra no agentariam um inverno aqui. Era um pensamento bastante rotineiro, no fundo de sua mente, enquanto entrava no domo escuro.

- Onde esteve, tenente? - perguntou o comandante, a voz pastosa. - Tenho uma estranha impresso de que lhe devo uma desculpa, mas no consigo lembrar por qu.

Camilla correu os olhos pelo domo rapidamente, avaliando os danos.

- No tem sentido me chamar de tenente aqui, pois antes me tratava por Camilla... antes de pousarmos aqui.
- Onde esto todos, Camilla? Posso supor que foi a mesma coisa que atingiu vocs nas montanhas?
- Acho que sim. Creio que muito em breve estaremos atolados at as orelhas nas conseqncias. - Ela estremeceu. - Estou assustada, Comandante. . .

Ela fez uma pausa, com um estranho sorriso, antes de acrescentar:

- Nem mesmo sei seu nome.
-  Harry - respondeu o Comandante Leicester, distrado, os olhos fixos no computador.

Soltando uma sbita exclamao, Camilla adiantou-se. Encontrou uma das velas de resina distribudas para a iluminao e acendeu-a, levantando-a para examinar o painel de controle.

Os bancos principais de memria eram protegidos por placas contra poeira, avarias, apagamento acidental e interferncia. Ela pegou uma ferramenta e comeou a soltar as placas, com uma pressa frentica. O comandante aproximou-se, contagiado por sua atitude de urgncia, e disse:

- Pode deixar que eu seguro a vela.

Depois que ele a pegou, Camilla passou a trabalhar ainda mais depressa, murmurando:

- Algum mexeu nas placas, Comandante. No gosto disso... Uma placa protetora se soltou, e ela ficou olhando atentamente, o rosto empalidecendo lentamente, as mos baixando, em horror e consternao.
- Sabe o que aconteceu - ela balbuciou, a voz prendendo na garganta. -  o computador. Pelo menos metade dos programas... talvez mais... foi apagada. Eliminada. E sem o computador...
- Sem o computador - acrescentou o Comandante Leicester, lentamente - a nave no passa de algumas toneladas de ferro-velho. Estamos liquidados, Camilla. Encalhados aqui para sempre.

CAPITULO
DEZ
Muito acima da floresta, num abrigo de vime entrelaado e folhas, a chuva caindo suavemente l fora, Judy repousava numa espcie de estrado coberto por um tecido macio, absorvendo, no apenas com palavras, o que o belo aliengena de olhos prateados tentava lhe dizer.

A loucura tambm se abate sobre ns e me sinto profundamente pesaroso por ter me intrometido na vida de seu povo dessa maneira. Houve um tempo - no agora, mas perdido em nossa histria - em que o nosso povo viajava, como o seu faz agora, pelas estrelas.  possvel at que todos os homens tenham o mesmo sangue, remontando ao princpio dos tempos, e que vocs tambm sejam nossos irmos, como o povo peludo das rvores. E na verdade tudo indica que assim , j que ns dois nos encontramos sob a loucura do vento e agora voc tem essa criana. No  que eu lamente. . .

Um toque leve como uma pena em sua mo, no mais do que isso, mas Judy sentiu que jamais conhecera algo to terno quanto os olhos tristes do aliengena.

Agora, sem a loucura em meu sangue, sinto apenas um profundo pesar por voc, minha pequena. Nenhum dos nossos poderia gerar uma criana na solido, mas voc deve voltar para seu povo. No poderamos cuidar de voc. No suportaria o frio nos lugares em que habitamos mesmo no auge do vero e no inverno morreria com toda certeza, minha criana.
Todo o ser de Judy se projetou num grito de angstia: Nunca mais tornarei a v-lo?

S posso entrar em contato com voc to claramente em ocasies como esta, veio a resposta, embora sua mente esteja mais aberta para mim do que antes. As mentes de seu povo so como portas parcialmente fechadas. Seria mais sensato para mim deix-la partir agora, para voc nunca recordar o tempo de loucura, mas... Um longo silncio, um suspiro profundo. No posso, no posso, como poderia deix-la partir e nunca saber...

O estranho aliengena estendeu a mo, pegando e puxando a pedra pendurada no pescoo de Judy por uma corrente fina. Usamos essas pedras - s vezes - para o treinamento de nossas crianas. Adultos, no precisamos. Foi um presente de amor para voc; talvez um ato de loucura, talvez insensato, meus superiores certamente diriam isso. Mas se sua mente permanecer bastante aberta para dominar a pedra, talvez eu possa entrar em contato com voc s vezes, saber que est tudo bem com voc e a criana.

Ela olhou para a pedra, que era azul, como uma safira astria, com pequenas pintas de fogo internas, apenas por um instante; depois tornou a fitar o ser aliengena. Mais alto do que um humano, com enormes olhos cinza-claros, quase prateados, pele clara e feies delicadas, dedos compridos e esguios, ps descalos apesar do frio intenso, cabelos compridos, quase incolores, flutuando como seda leve pelos ombros; estranho e bizarro, mas belo, com uma beleza que impressionava a mulher a ponto de lhe causar angstia. Com infinita ternura e tristeza, o aliengena inclinou-se e comprimiu-a por um instante contra seu corpo delicado. Judy sentiu que isso era uma coisa excepcional, uma coisa estranha, uma concesso a seu desespero e solido. Claro. Uma raa teleptica teria pouco uso para manifestaes assim.

E agora voc deve partir, minha pobre pequena. Eu a levarei at a beira da floresta, o Povo Pequeno a guiar em seguida. (Temo o seu povo, eles so violentos e selvagens e suas mentes... suas mentes esto fechadas...)

Judy ficou olhando para o estranho, seu prprio pesar pela despedida se toldando na percepo do medo e angstia do outro.

- Eu compreendo - ela sussurrou.

O rosto do aliengena relaxou um pouco.

Tornarei a v-lo?

H muitas possibilidades, tanto para o bem quanto para o mal, criana. S o tempo sabe, nada posso prometer. Com movimentos gentis, ele envolveu-a com o manto forrado de pele. Judy balanou a cabea, tentando reprimir as lgrimas; s depois que ele desapareceu na floresta  que ela perdeu o controle e chorou, seguindo o pequeno aliengena peludo que viera para conduzi-la pelas trilhas estranhas.

...

- Voc  o suspeito lgico - disse o Comandante Leicester, asperamente. - Jamais escondeu que no quer deixar este planeta e a sabotagem do computador significa que ser feita a sua vontade, nunca mais poderemos partir.
- No, Comandante, est completamente enganado. - Moray fitou-o nos olhos sem vacilar. - Eu sempre tive certeza de que nunca deixaramos este planeta. Reconheo que me ocorreu, durante o... Como podemos chamar? Durante o delrio coletivo? Isso mesmo; ocorreu-me durante o delrio coletivo que talvez fosse uma boa coisa se o computador deixasse de funcionar, pois isso o obrigaria a parar de fingir que podamos reparar a nave...
- Eu no estava fingindo -protestou o comandante, a voz fria. Moray deu de ombros.
- Palavras no tm mais importncia. Muito bem, eu queria obrig-lo a parar de se iludir a respeito e se empenhar no problema mais srio da sobrevivncia. Mas no sou o culpado. Para ser franco, poderia ter feito, se me ocorresse, mas no sei distinguir um lado do computador de outro. . . no saberia como deix-lo fora de ao. Imagino que poderia t-lo explodido... sei que ouvi a exploso... mas acontece que nesse momento eu estava deitado na horta... Ele fez uma pausa, rindo subitamente.
- ... divertindo-me a valer com um p de repolho ou coisa parecida.

Leicester franziu o rosto.

- Ningum explodiu o computador ou deixou-o fora de ao. Apenas apagaram os programas. Qualquer pessoa instruda poderia fazer isso.
- Qualquer pessoa instruda e com conhecimentos de uma nave estelar, talvez - disse Moray. - Comandante, no sei como convenc-lo, mas sou um ecologista, no um tcnico. No sou capaz sequer de formular um programa de computador. Mas se o computador no est pifado, por que tanta confuso? No pode reprogram-lo ou qualquer que seja a palavra que costumam usar? As fitas ou o que quer que seja usado so insubstituveis?

Leicester ficou abruptamente convencido. Moray no sabia mesmo. E disse, secamente:

- Para sua informao, o computador continha cerca da metade da soma total de conhecimento humano sobre fsica e astronomia. Mesmo que em minha tripulao houvesse quatro dzias de titulares do Real Colgio de Astronomia de Edinburgh, precisaramos de trinta anos s para reprogramar os dados de navegao. E no estou nem contando os programas mdicos... ainda no os verificamos... ou qualquer outro do material da biblioteca da nave. Considerando tudo, a sabotagem do computador  um vandalismo humano pior do que o incndio da biblioteca de Alexandria.
- S posso repetir que no fui eu e no sei quem foi. Procure por algum em sua tripulao com os conhecimentos tcnicos. - Moray soltou uma risada seca, em que no havia qualquer divertimento. - E algum que fosse capaz de manter o controle por tempo suficiente. Os mdicos j descobriram o que nos atingiu?

Leicester deu de ombros.

- O melhor palpite que ouvi at agora  de que era um p transportado pelo ar, contendo algum violento alucingeno. Ainda no foi identificado e provavelmente no ser at que a situao no hospital se acalme um pouco.

Moray balanou a cabea. Sabia que o comandante acreditava nele agora e, na verdade, no estava muito satisfeito com a destruio do computador. Enquanto todos os esforos de Leicester se concentrassem na tentativa de administrar os reparos da nave, era improvvel que houvesse alguma interferncia nas providncias de Moray para garantir a sobrevivncia da colnia. Agora, sendo um comandante sem uma nave, era bem possvel que ele se intrometesse na maneira como enfrentavam um mundo novo. Pela primeira vez, Moray compreendeu a velha piada sobre a frota espacial:

"No se pode aposentar um comandante de uma nave estelar.  preciso abat-lo a tiros."

O pensamento provocou-lhe medos perigosos. Moray no era um homem violento, mas durante as trinta e seis horas do estranho vento descobrira profundezas suas angustiantes e de que no desconfiava. Talvez algum mais pense nisso na prxima vez... o que me leva a ter tanta certeza de que haver uma prxima vez? Ou talvez eu mesmo pense; como posso ter qualquer certeza agora?

Virando-se, como se assim pudesse escapar ao pensamento indesejvel, ele perguntou:

- J tem algum relatrio sobre os danos?
- Dezenove mortos... no h relatrios mdicos, mas pelo menos quatro pacientes no hospital morreram por negligncia - respondeu Leicester, bruscamente. - Dois suicdios. Uma jovem cortou-se e sangrou at a morte usando um vidro quebrado, mas provavelmente foi acidente em vez de suicdio. E... imagino que j soube do Padre Valentine.

Moray fechou os olhos.

- Ouvi falar dos assassinatos. No estou a par dos detalhes.
- Duvido que algum vivo esteja - disse Leicester. - Ele prprio no sabe e provavelmente no saber se o Chefe Di Asturien no quiser lhe dar um calmante ou algo parecido. Tudo o que sei  que de alguma forma ele envolveu-se com um grupo de tripulantes que estavam se divertindo... uma diverso sexual... l na beira do rio. As coisas se tornaram desvairadas. Depois que a primeira onda se dissipou um pouco, ele compreendeu o que estivera fazendo, aposto que no foi capaz de enfrentar e comeou a cortar gargantas.
- Quer dizer que ele foi um dos suicidas? Leicester sacudiu a cabea.
- No. Calculo que ele recuperou a conscincia a tempo de compreender que o suicdio tambm seria um pecado mortal. Estranho... Acho que estou me tornando calejado para os horrores desse seu maravilhoso planeta paradisaco... tudo o que posso pensar agora  que ele teria poupado muitos problemas se fosse em frente e consumasse o suicdio. Agora terei de julg-lo por homicdio e depois decidir ou fazer as pessoas decidirem se temos ou no a pena capital aqui. Moray sorriu, desolado.
- Por que se incomodar? Que outro veredicto poderia haver que no o de insanidade temporria!
- Por Deus, voc tem toda razo! - exclamou Leicester, passando a mo pela testa.
- Vamos falar srio, Comandante. Podemos ter de enfrentar isso outra vez, muitas outras vezes. Pelo menos at descobrirmos a causa. Sugiro que desarme imediatamente os homens da Segurana; o primeiro sinal ocorreu quando um guarda atirou numa moa e depois num colega. Sugiro que, se tivermos outra noite sem chuva, que sejam trancadas todas as armas letais, facas de cozinha, instrumentos cirrgicos e assim por diante. Provavelmente no evitar todos os problemas, j que no  possvel guardar todas as pedras e pedaos de pau do planeta. Veja o que lhe aconteceu: algum evidentemente esqueceu quem era e o agrediu.

Leicester coou o queixo.

- Acreditaria que briguei por uma mulher, na minha idade?

Pela primeira vez os dois sorriram um para o outro, com os primrdios de uma simpatia mtua, que logo retrocedeu.

- Pensarei em suas sugestes - disse Leicester. - No ser fcil.
- Nada aqui ser fcil, Comandante - respondeu Moray, sombriamente. - Mas tenho o pressentimento de que, se no iniciarmos uma campanha profunda por uma tica de no-violncia... uma tica que resista mesmo sob uma presso como o delrio coletivo... nenhum de ns conseguir sobreviver ao vero.

CAPITULO
ONZE
Os dias do vento haviam poupado a horta, pensou MacAran. Talvez algum instinto de sobrevivncia profundo dissesse aos colonos enlouquecidos que ali estava sua salvao.- Os reparos no hospital estavam sendo realizados e equipes recrutadas para trabalho manual retiravam coisas da nave. Moray deixara amargamente claro que por muitos anos aquela seria a nica reserva de metal para ferramentas e implementos. Pouco a pouco, o interior da grande nave estelar ia sendo canibalizado; mveis dos alojamentos e reas de recreao eram removidos e convertidos para uso nos prdios de dormitrio e comunitrio, ferramentas da oficina de reparos, utenslios da cozinha e at da ponte de comando eram inventariados por grupos de escriturrios. MacAran sabia que Camilla andava ocupada, verificando o computador para descobrir que programas permaneciam intactos. At os implementos menores, canetas esferogrficas e cosmticos para as mulheres nos suprimentos da cantina, tudo era inventariado e racionado. Quando aqueles suprimentos da cultura da Terra, de orientao tecnolgica, se esgotassem, no haveria mais, e Moray dissera que j se projetavam substitutos para uma transio ordenada.
A clareira exibia uma curiosa mistura, refletiu MacAran; os pequenos domos construdos com plstico e fibra, avariados na nevasca e consertados com madeiras locais mais resistentes; as pilhas de mquinas complexas, cuidadas e guardadas por tripulantes uniformizados, sob o comando do engenheiro-chefe Patrick; o pessoal da Comuna das Novas Hbridas trabalhando - por sua prpria escolha, MacAran sabia - na horta e na floresta.

Ele tinha dois papis na mo - o hbito antigo de despachar memorandos ainda persistia; calculava que a reduo dos suprimentos de papel acabaria por elimin-lo. Pelo que seriam substitudos? Sistemas de campainhas codificados para cada pessoa, como havia em algumas grandes lojas de departamentos para atrair a ateno de algum em particular? Mensagens verbais? Ou conseguiriam descobrir alguma maneira de fabricar papel com produtos locais e manteriam o apoio de muitos sculos nos memorandos escritos? Um dos papis lhe dizia para se apresentar no hospital, a fim de fazer o que era classificado de exame de rotina; o outro pedia que se apresentasse no gabinete de Moray para anlise de trabalho e distribuio de tarefas.

De um modo geral, o anncio de que o computador estava intil e a nave tinha de ser abandonada fora recebido sem muito clamor. Um ou outro tripulante murmurara que o responsvel deveria ser linchado, mas no momento no havia como descobrir quem apagara as fitas de navegao do computador ou quem dinamitara uma das cmaras de propulso com uma bomba improvisada. A suspeita da exploso recaa, como no podia deixar de ser, num tripulante que recentemente solicitara admisso na Comuna das Novas Hbridas e cujo corpo mutilado fora encontrado no interior da nave, perto do local; e todos se contentaram em parar as investigaes por a.

MacAran desconfiava que a tranqilidade era temporria, uma conseqncia do choque; mais cedo ou mais tarde haveria novas tempestades, mas por enquanto todos aceitavam a necessidade urgente de unio para reparar os danos e assegurar a sobrevivncia contra os rigores insuspeitados do inverno desconhecido. O prprio MacAran no sabia direito como se sentia, mas de qualquer forma j se encontrava disposto para uma colnia e secretamente parecia-lhe que podia ser mais interessante colonizar um planeta "selvagem" do que outro j muito ajustado e reformado pela Fora Expedicionria da Terra. Mas ele no estava preparado para ser isolado da civilizao da Terra - no haveria naves estelares, nenhum contato ou comunicao com o resto da Galxia, talvez por muitas geraes, talvez para sempre. E isso doa. Ele ainda no aceitara; sabia que podia nunca aceitar.

Ele entrou no prdio em que ficava o gabinete de Moray, leu o aviso na porta (NO BATA, ENTRE) e entrou para encontrar Moray conversando com uma jovem desconhecida que devia ser, pelos trajes, da Comuna das Novas Hbridas.

- Claro, claro, minha cara, sei que voc quer ser designada para trabalhar na horta, mas sua ficha indica que trabalhou em arte e cermica e precisaremos de seus conhecimentos nessa rea. Sabia que o primeiro ofcio desenvolvido em quase todas as civilizaes  o de ceramista? Alm do mais, no houve um relatrio de que voc est grvida?
- Houve, sim. A Cerimnia de Anunciao para mim foi ontem. Mas nossa gente sempre trabalha quase at o parto.

Moray sorriu.

- Fico contente por saber que voc se sente bastante bem para continuar a trabalhar. Mas as mulheres nas colnias nunca tm permisso para realizarem trabalhos manuais pesados.
- O Artigo Quatro. . .
- O Artigo Quatro foi projetado para a Terra, para as condies da Terra - interrompeu-a Moray, com uma expresso sombria. - Deve pensar melhor nas condies de vida em outros planetas, com outra gravidade, diferentes contedos de luz e oxignio, Alarma. Este planeta  um dos privilegiados, com bastante oxignio e pouca gravidade; assim, no haver bebs com anoxia ou com a sndrome da presso. Mas mesmo nos melhores planetas a simples mudana j  perigosa e constitui uma estatstica terrvel para uma populao to reduzida quanto a nossa. Metade das mulheres permanece estril de cinco a dez anos, metade das mulheres frteis aborta por um perodo de cinco a dez anos. E metade das crianas que nascem vivas morre antes de completar um ms, num perodo de cinco a dez anos. As mulheres das colnias precisam ser mimadas, Alanna. Coopere ou ser submetida a sedativos e internada no hospital. Se quer ser uma das afortunadas com um beb vivo e saudvel, em vez de morto, deve cooperar... e comear agora.

Depois que ela se retirou, com um memorando para o hospital, parecendo atordoada e chocada, MacAran tomou seu lugar por trs da mesa atravancada. Moray fez uma careta.

- Presumo que ouviu tudo. Gostaria de ter meu cargo. . . apavorar as moas grvidas?
- No.

MacAran pensou em Camilla, tambm grvida. Portanto, ela no estava estril. Mas havia uma possibilidade em duas de que abortasse... e depois uma possibilidade de cinqenta por cento de que a criana morresse. Eram estatsticas sinistras e provocaram-lhe um calafrio de horror. Camilla teria sido avisada? Sabia de tudo? Estaria cooperando? Ele no tinha como saber; ela se mantinha trancada com o comandante, trabalhando com o computador, durante a metade dos ltimos dez dias. Moray disse, franzindo o rosto:

- Desa das nuvens. Voc  um dos afortunados, MacAran... no est tecnologicamente desempregado.
- Como?
-  um gelogo e precisamos que trabalhe naquilo para que foi treinado. Ouviu-me dizer a Alanna que uma das primeiras indstrias de que precisamos, o mais depressa possvel,  a de cermica. E para a cermica precisamos de caulim ou um bom substituto. Tambm precisamos de pedras para construes confiveis... precisamos de concreto ou cimento de alguma espcie... alm de calcrio ou alguma outra coisa com as mesmas propriedades; e tambm de silicatos para vidro, minrios diversos... em suma, o que precisamos  de um levantamento geolgico desta parte do planeta, e tem de ser antes que o inverno comece. Voc no  prioridade um, Mac... mas est na categoria dois ou trs. Pode formular um plano para avaliao e explorao em um ou dois dias e me informar quantos homens vai precisar para a coleta e teste de amostras?
- Posso, sim, ser relativamente fcil. Mas pensei que havia dito que no poderamos tentar uma civilizao tecnolgica...
- E no podemos... ou pelo menos no como o Engenheiro Patrick usa a palavra. No h indstria pesada. No h transporte mecanizado. Mas no existe uma coisa que se possa chamar de civilizao no-tecnolgica. At mesmo os homens das cavernas tinham tecnologia... fabricavam instrumentos de pedra, ou ser que nunca viu um dos seus centros de produo? O homem  um usurio de ferramentas... um tcnico. Nunca tive qualquer noo de que comearamos como selvagens. A questo  outra: que tecnologias podemos absorver, especialmente durante as trs ou quatro primeiras geraes?
- Planeja com tanta antecedncia?
- Tenho de faz-lo.
- Disse que meu trabalho no  a primeira prioridade. Qual  a primeira?
- Alimentos - respondeu Moray, realista. - Mais uma vez, estamos com sorte. O solo  arvel aqui... embora eu desconfie que apenas precariamente, o que exigir o uso de fertilizantes e adubo composto... e a agricultura  possvel. J conheci planetas em que a prioridade de obteno de alimentos consumiria tanto tempo que at mesmo os ofcios mnimos teriam de ser adiados por duas ou trs geraes. A Terra no os coloniza, mas poderamos ter encalhado em algum. Pode at haver animais domesticveis aqui; MacLeod j est cuidando disso. A segunda prioridade  providenciar abrigos... e, por falar nisso, verifique as encostas inferiores  procura de cavernas quando fizer sua pesquisa. Podem ser mais quentes do que qualquer coisa que seremos capazes de construir, pelo menos durante o inverno. Depois de alimento e abrigo, vm os ofcios mais simples... os pequenos confortos da vida: tecelagem, cermica, combustvel e iluminao, roupas, msica, instrumentos agrcolas, mveis. J tem uma noo do quadro geral, MacAran. Comece agora a planejar sua pesquisa e designarei homens suficientes para realiz-la.

Ele ofereceu outro dos seus sorrisos tristes e acrescentou:

- Como eu disse, voc  um dos afortunados. Esta manh terei de dizer a um especialista em comunicaes no espao profundo, sem qualquer outro ofcio, que seus conhecimentos so absolutamente obsoletos pelo menos por dez geraes e oferecer-lhe a escolha entre agricultor, carpinteiro e ferreiro.

Enquanto se retirava, MacAran no pde deixar de pensar outra vez em Camilla. Seria algo assim que estaria reservado para ela? No, claro que no, qualquer comunidade civilizada devia ter algum proveito para uma biblioteca de informaes computadorizadas. Mas ser que Moray, com suas prioridades sombrias, compreenderia isso?

Ele encaminhou-se para o hospital, ao meio-dia, sob as sombras violeta, o sol pairando alto e vermelho, como um olho injetado.  distncia, um vulto solitrio trabalhava sobre as rochas, construindo uma cerca baixa. Era o Padre Valentine, cumprindo sua penitncia. MacAran aceitava, em princpio, a teoria de que a colnia no podia dispensar nenhum par de mos; que o Padre Valentine podia expiar seus crimes por um trabalho til mais facilmente do que sendo pendurado pelo pescoo at a morte; e com a lembrana de sua prpria loucura a oprimi-lo (como poderia ter matado o comandante sem qualquer hesitao em seu acesso de cime!), MacAran no podia sequer encontrar em seu corao o nimo para esquivar-se ou sentir horror do padre. O julgamento do Comandante Leicester fora digno do Rei Salomo: o Padre Valentine estava obrigado a enterrar os mortos, os que ele matara e os outros, devendo criar um cemitrio e construir uma cerca, contra os animais selvagens ou a profanao, erguer um memorial apropriado para a sepultura coletiva dos que haviam perecido no acidente. MacAran no tinha certeza de qual seria o propsito til de um cemitrio, a no ser talvez o de lembrar aos terrqueos como a morte estava prxima da vida e a loucura da sanidade. Mas aquele trabalho manteria o padre afastado dos outros, tripulantes e colonos, que podiam no ter a mesma conscincia do quo prximos haviam estado de repetir seu crime, at que a memria misericordiosamente desvanecesse um pouco; e proporcionaria bastante trabalho rduo e penitncia para satisfazer as necessidades de punio at do homem mais desesperado.

Por algum motivo, a viso do homem solitrio e encurvado tirou de MacAran o nimo para comparecer ao outro compromisso, no hospital. Ele se afastou na direo da floresta, passando pela horta, onde os colonos das Novas Hbridas cuidavam das longas fileiras de plantas brotando. Alastair, de joelhos, transplantava pequenas mudas verdes de um viveiro; retribuiu ao aceno de MacAran com um sorriso. Eles sentiam-se felizes pelo resultado, aquela vida lhes conviria perfeitamente. Alastair disse alguma coisa ao garoto que segurava a caixa com as mudas, levantou-se e encaminhou-se para MacAran.

- O padrn... Moray... me disse que voc vai realizar um trabalho geolgico. Quais so as possibilidades de encontrar materiais para a fabricao de vidro?
- No sei. Por que pergunta?
- Num clima como este vamos precisar de estufas - disse Alastair - "luz do sol concentrada". Algo para proteger as plantas novas contra as nevascas. Estou fazendo o que posso com folhas de plstico, refletores" de papel laminado e ultravioleta, mas no passa de uma improvisao temporria. Procure tambm fertilizantes naturais e nitratos. O solo aqui no  muito rico.
- Anotarei tudo - prometeu MacAran. - Voc era agricultor por ofcio na Terra?
- No. Mecnico de veculos... especialista em trnsito. - Alastair fez uma careta. - O comandante estava falando em me converter num mecnico espacial para ajudar nos reparos. Acho que deveria rezar todas as noites para a pessoa que explodiu a nave.
- Est certo, tentarei descobrir seus silicatos.

MacAran no pde deixar de especular em que lugar entraria, nas rigorosas prioridades de Moray, a fabricao de vidro. E o que dizer dos instrumentos musicais? Ele diria que isso era muito importante. At mesmo os selvagens tinham msica e ele no podia imaginar a vida sem instrumentos musical, muito menos, tinha certeza, aqueles membros de uma comunidade que gostava de cantar.

Se o inverno for to terrvel quanto  provvel, a msica pode nos manter a todos sadios; e aposto que Moray, como o filho da me esperto que , j chegou a essa concluso.

Como em resposta a seu pensamento, uma das moas trabalhando na horta alteou a voz numa cano lamentosa. Era uma voz profunda e rouca, tinha alguma semelhana com a de Camilla. Era uma cano antiga e triste das Hbridas:

Minha Caristiona,
Responders ao meu chamado?
Nenhuma resposta esta noite?
Ah, tanto pesar...
Ah, minha Caristiona...

Camilla, por que voc no vem para mim, por que no me responde? Responders a meu chamado... ah, meu pesar...

L no fundo meu corao lamenta,
Dos olhos escorrem as lgrimas. . .
Minha Caristiona, responders a meu chamado?

Sei que voc se sente infeliz, Camilla, mas por que no vem at a mim?

Camilla entrou no hospital devagar e contrariada, segurando a ficha de exame. Era um resqucio confortador da rotina da nave, mas ela franziu o rosto, irritada, quando em vez do rosto familiar do mdico-chefe Di Asturien (pelo menos ele fala espanhol!) deparou com o jovem Ewen Ross.

- Onde est o Chefe? Voc no tem autoridade para examinar o pessoal da nave!
- O Chefe est operando o homem que foi baleado no joelho durante o Vento Fantasma; de qualquer maneira, eu estou no comando dos exames de rotina, Camilla. Qual  o problema? - O rosto jovem e arredondado tinha uma expresso insinuante. - Ser que eu no sirvo? Posso lhe garantir que minhas credenciais so maravilhosas. Alm do mais, pensei que ramos amigos... companheiros de desgraa do primeiro vento! No destrua meu amor-prprio!

Contra a sua vontade, ela no pde conter o riso.

- Ewen, seu patife, voc  insuportvel. Mas  isso mesmo, creio que no passa de rotina. O Chefe anunciou o fracasso dos anticoncepcionais h dois meses, e parece que fui uma das vtimas. E apenas um caso de aborto.

Ewen assoviou baixinho.

- Lamento, Camilla - disse ele, gentilmente -, mas no ser possvel.
- Mas estou grvida!
- Ento meus parabns ou qualquer outra coisa. Talvez tenha a primeira criana nascida aqui, a menos que uma das moas da Comuna chegue na sua frente.

Camilla franziu o rosto, sem entender.

- Acho que, no final das contas, terei mesmo de falar com o Chefe.  evidente que voc no conhece os regulamentos do Servio Espacial.

Havia uma profunda compaixo nos olhos de Ewen; compreendia muito bem a situao.

- Di Asturien lhe daria a mesma resposta - ele disse gentilmente. - Tenho certeza de que sabe que nas colnias os abortos s so realizados para salvar uma vida ou evitar o nascimento de uma criana defeituosa demais. . . e nem mesmo tenho certeza se dispomos de instalaes aqui para isso. Um alto ndice de natalidade  absolutamente indispensvel pelo menos nas trs primeiras geraes... no sabia que as mulheres no so aceitas como voluntrias pela Fora Expedicionria da Terra se no estiverem na idade de gerar e no assinarem um contrato para terem filhos?
- Eu estaria isenta, mesmo assim, embora no seja voluntria para colnia nenhuma - protestou Camilla. - Era da tripulao da nave. E voc sabe to bem quanto eu que as mulheres com formao cientfica avanada esto isentas... se no fosse assim, nenhuma mulher com uma carreira importante iria para as colnias. Vou lutar contra isso, Ewen! No aceitarei um parto compulsrio! Nenhuma mulher est obrigada a ter um filho!

Ewen sorriu pesaroso para a mulher furiosa.

- Sente-se, Camilla. Seja sensata. Em primeiro lugar, minha querida, o prprio fato de possuir uma formao cientfica avanada a torna muito preciosa para ns. Precisamos dos seus genes muito mais do que de sua competncia. No precisaremos de conhecimentos como os seus por meia dzia de geraes... ou mais. Mas os genes de inteligncia superior e capacidade matemtica devem ser preservados. No podemos correr o risco de sua extino.
- Est tentando me dizer que serei obrigada a ter filhos? Como alguma selvagem, um tero ambulante dos planetas pr-histricos? - O rosto dela estava plido de raiva. - Isso  totalmente inadmissvel! Todas as mulheres da tripulao vo protestar quando souberem disso! Faremos uma greve!

Ewen deu de ombros.

- Duvido muito. Antes de mais nada, voc interpretou a lei da maneira errada. As mulheres no podem se apresentar como voluntrias para as colnias se no tiverem os genes intactos, estiverem em idade de gerar e assinarem um contrato para terem filhos... mas as mulheres alm dessa idade so ocasionalmente aceitas, se possuem formao mdica ou cientfica. Afora isso, o fim de seus anos frteis significa o fim de sua possibilidade de ser aceita para uma colnia... e sabe qual  o tempo de espera para as colnias? Eu esperei quatro anos; os pais de Heather inscreveram-na quando ela tinha dez anos, est agora com vinte e trs. As leis de superpopulao da Terra determinam que algumas mulheres permaneam nas listas de espera por doze anos para terem um segundo filho.
- No posso imaginar por que se do a esse trabalho - murmurou Camilla, com evidente repulsa. - Uma criana j deve ser suficiente para qualquer mulher que tenha alguma coisa por cima do pescoo, a menos que seja uma autntica neurtica, sem nenhum senso independente de amor-prprio.
- Camilla - disse Ewen, ainda mais gentilmente -, trata-se de um problema biolgico. J no sculo XX eles fizeram experincias com ratos, populaes dos guetos e no sei mais o qu, e descobriram que uma das primeiras conseqncias da superpopulao era o colapso do comportamento maternal.  uma patologia. O homem  um animal racional, e por isso os socilogos chamaram de "Liberao Feminina" e coisas assim; mas no fundo era uma reao patolgica  superpopulao. Mulheres que no podiam ter filhos precisavam receber alguma outra incumbncia, para resguardar sua sade mental. Mas isso provoca um desgaste. Quando vo para as colnias, as mulheres assinam um contrato para terem um mnimo de dois filhos; mas a maioria, depois que deixa o aglomeramento da Terra, recupera a sade mental e emocional, e a famlia colonial mdia  de quatro filhos... o que  o certo, em termos psicolgicos. Quando a criana nascer, voc provavelmente ter tambm os hormnios normais e ser uma boa me. Se no, pelo menos a criana ter seus genes e a entregaremos a alguma mulher estril para cri-la. Confie em mim, Camilla.
- Est querendo me dizer que serei obrigada a ter esse filho de qualquer maneira?
- Exatamente. - A voz de Ewen tornou-se subitamente dura. - Da mesma forma que as outras. Isto , desde que possa levar a gravidez at o fim. H uma possibilidade em duas de que venha a abortar.

Firme, implacvel, ele repetiu as estatsticas que MacAran ouvira de Moray naquele mesmo dia.

- Se tivermos sorte, Camilla, contamos agora com cinqenta e nove mulheres frteis. Mesmo que todas engravidem este ano, teremos sorte se houver doze crianas vivas... e o nvel vivel para a sobrevivncia desta comuna exige que sejamos pelo menos quatrocentas pessoas antes que as mulheres mais velhas comecem a perder a fertilidade. Ser muito difcil, e tenho a impresso de que qualquer mulher que se recusar a ter tantos filhos quanto for capaz fisicamente vai se tornar muito impopular. Uma espcie de Inimiga Pblica Nmero Um.

A voz de Ewen era dura, mas, com a sensibilidade aguada que adquirira desde que o primeiro Vento o abrira s emoes dos outros, ele absorveu as imagens terrveis que atravessavam a mente de Camilla:

no uma pessoa, apenas uma coisa, um tero ambulante, uma coisa usada para a procriao, minha mente ignorada, meus talentos inteis... uma mera fmea para a reproduo...

- No ser to ruim assim - ele comentou, com profunda compaixo. - Haver muita coisa para voc fazer. Mas  assim que tem de ser, Camilla. Tenho certeza de que  pior para voc do que para algumas outras, mas a mesma regra se aplica a todas. Nossa sobrevivncia depende disso.

Ewen desviou os olhos; no podia suportar a agonia de Camilla. E ela murmurou, os lbios contrados numa linha determinada:

- Talvez fosse melhor no sobreviver, em tais condies.
- No discutirei isso com voc enquanto no estiver se sentindo melhor. No valeria a pena. Marcarei um exame pr-natal para voc com Margaret...
- No farei exame nenhum!

Ewen levantou-se rapidamente. Fez sinal para uma enfermeira por trs de Camilla e segurou seu pulso com firmeza, imobilizando-a. Uma agulha espetou o brao de Camilla; ela fitou-o com uma desconfiana furiosa, os olhos j comeando a ficar vidrados.

- O que...
- Um sedativo inofensivo. Os suprimentos so escassos, mas ainda dispomos do suficiente para mant-la calma. Quem  o pai, Camilla? MacAran?
- No  da sua conta!
- Concordo, mas preciso saber, para os registros genticos. O Comandante Leicester?
- MacAran.

Ela sentiu um mpeto de raiva intensa e, subitamente, com uma angstia corrosiva, recordou... como haviam sido felizes durante os Ventos...

Ewen contemplou o corpo inerte de Camilla com um profundo pesar e disse  enfermeira:

- Chame Rafael MacAran. Ele deve estar presente quando ela despertar. Talvez possa lhe incutir um pouco de bom senso.
- Como ela pode ser to egosta? - indagou a enfermeira, horrorizada.
- Ela foi criada num satlite espacial e na colnia Alfa - explicou Ewen. - Ingressou no Servio Espacial aos quinze anos e durante toda a sua vida foi persuadida de que ter filhos era uma coisa pela qual no devia se interessar. Mas vai aprender.  apenas uma questo de tempo.

Mas, secretamente, ele especulou quantas mulheres da tripulao reagiriam da mesma maneira - a esterilidade tambm podia ser determinada por fatores psicolgicos - e quanto tempo levaria para se superar aquele medo e averso condicionados.

Seria mesmo possvel, no momento oportuno, elevar os habitantes da colnia para um nmero vivel, naquele mundo to rigoroso, brutal e inspito?

CAPTULO
DOZE
MacAran sentou ao lado de Camilla adormecida, pensando na entrevista que acabara de ter com Ewen Ross. Depois de explicar a situao de Camilla, Ewen fizera-lhe s mais uma pergunta:

- Lembra-se de ter feito sexo com mais algum durante o Vento? E quero que saiba que no estou perguntando por pura curiosidade. Algumas mulheres e alguns homens no conseguem se lembrar ou indicaram pelo menos meia dzia. Juntando tudo o que todos se lembram, podemos eliminar determinadas pessoas; isto , para os registros genticos posteriores. Por exemplo, se alguma mulher indica trs homens como possveis responsveis por sua gravidez, precisamos apenas fazer exames de sangue com os trs para determinar... dentro de limites razoveis,  claro... o pai verdadeiro.
- S com Camilla - respondera MacAran. Ewen sorrira.
- Pelo menos voc  coerente. Espero que consiga meter um pouco de bom senso na cabea daquela jovem.
- No posso imaginar Camilla como uma grande me - comentara MacAran, sentindo-se desleal.
Ewen dera de ombros.

- Isso tem alguma importncia? Teremos muitas mulheres querendo filhos e incapazes de t-los, abortando durante a gravidez ou perdendo-os no parto. Se ela no desejar a criana depois que nascer, no nos faltaro mes adotivas!

Agora essa perspectiva provocou algum ressentimento em Rafael MacAran, enquanto observava a moa drogada. O amor entre os dois, mesmo nas melhores ocasies, derivara da hostilidade, fora uma gangorra de ressentimento e desejo, e agora a ira escapara ao controle. Uma jovem mimada, ele pensou. Teve tudo como queria durante toda a sua vida e agora, ao primeiro sinal de que pode ter de ceder a outras consideraes que no a sua prpria convenincia, ela comea a criar a maior confuso!  demais!

Como se a violncia de seus pensamentos irados penetrasse pelos vus tnues da droga, os olhos azuis de Camilla se abriram. Ela olhou ao redor, num espanto momentneo, para as paredes translcidas do hospital e para MacAran ao seu lado.

- Rafe?

Uma expresso de angstia estampou-se em seu rosto, e MacAran pensou: Pelo menos ela no est mais me chamando de MacAran. Ele falou to gentilmente quanto podia:

- Lamento que no esteja se sentindo bem, amor. Pediram-me que viesse ficar com voc por algum tempo.

Ela contraiu o rosto quando a memria lhe voltou. MacAran pde sentir sua raiva e angstia. Foi como um desespero a domin-lo e desligou seu ressentimento, como se fosse um interruptor.

- Lamento sinceramente, Camilla. Sei que no queria isso. Pode me odiar, se tem de odiar algum. A culpa  minha. No agi de maneira responsvel. Sei disso.

A gentileza e a disposio de assumir toda a culpa desarmaram-na.

- No, Rafe, isso no  justo com voc. Na ocasio em que aconteceu eu queria tanto quanto voc. Portanto, no h sentido em culp-lo. O problema  que perdemos o hbito de relacionar gravidez e sexo, assumimos agora uma atitude civilizada a respeito. E  claro que nenhum de ns podia imaginar que os anticoncepcionais regulares no estavam funcionando.

Rafe inclinou-se para pegar sua mo.

- Muito bem, partilharemos a culpa. Mas no pode tentar se lembrar de como nos sentimos durante o Vento? Fomos muito felizes naquele momento.
- Eu me encontrava insana na ocasio. E voc tambm.

A amargura intensa na voz de Camilla fez com que ele se encolhesse de angstia, no apenas por si mesmo, mas tambm por ela. Camilla tentou retirar a mo, mas ele a manteve firmemente.

- Estou so agora... pelo menos acho que estou... e ainda amo voc, Camilla. No tenho palavras para expressar quanto.
- Pensei que me odiava.
- Eu no poderia odi-la. No estou feliz por voc no querer essa criana. Se estivssemos na Terra, provavelmente concordaria que voc tem o direito de escolher... de no gerar essa criana, se no quisesse. Mas isso tambm no me deixaria feliz, e voc no pode esperar que eu lamente porque a criana ter uma oportunidade de viver.
- Ento est contente porque serei obrigada a gerar essa criana? - ela indagou, furiosa.
- Como posso me sentir contente com uma coisa que a deixa to infeliz? - perguntou MacAran, desesperado. - Pensa que encontro alguma satisfao em v-la infeliz? Deixa-me angustiado, est me matando! Mas voc est grvida e sofrendo, e se a faz sentir-se um pouco melhor dizer essas coisas... eu amo voc, e o que posso fazer a respeito, a no ser escutar e desejar ser capaz de dizer alguma coisa til? S gostaria que voc ficasse um pouco mais feliz com a situao, Camilla, que eu no me sentisse to completamente desamparado.

Camilla podia sentir sua confuso e aflio como se fossem dela prpria. Essa persistncia de um efeito que associara apenas com o tempo dos ventos arrancou-a de sua ira e autocompaixo. Lentamente, sentou na cama e pegou a mo de MacAran.

- No  culpa sua, Rafe - ela disse, gentilmente. - Se o faz to infeliz o fato de eu me comportar assim, tentarei mudar. No posso fingir que quero uma criana, mas se devo t-la... e parece que  esse o caso... prefiro que seja sua que de qualquer outro. - Ela sorriu e acrescentou: - Suponho... pelo que aconteceu naquela ocasio... que poderia ser qualquer um, mas fico contente que tenha sido voc.

Rafe MacAran descobriu-se incapaz de falar... e depois compreendeu que no precisava. Inclinou-se e beijou a mo de Camilla.

- Farei tudo o que puder para tornar as coisas mais fceis para voc, Camilla... e gostaria de poder fazer ainda mais.

Moray j distribura as tarefas para a maioria dos colonos e tripulantes quando o engenheiro-chefe Laurence Patrick foi consult-lo, como o Representante da Colnia, em companhia do Comandante Leicester. Patrick disse:

- Muito antes de ser um especialista em propulso M-AM, Moray, eu era um especialista em pequenos veculos de superfcie. H metal suficiente na nave para construir diversos veculos assim, e eles poderiam ser acionados por pequenas unidades propulsoras adaptadas. Seria uma tremenda ajuda para localizar e estruturar os recursos do planeta, e estou disposto a me encarregar da construo. Quando posso comear?
- Lamento, Patrick, mas isso no poder acontecer durante a sua vida ou a minha - respondeu Moray.
- No estou entendendo - protestou Patrick, irritado. - No seria de grande ajuda na explorao e melhor aproveitamento dos recursos? Est querendo criar uma sociedade selvagem e brbara? Por acaso a Fora Expedicionria da Terra tornou-se um ninho de antitecnocratas e neo-ruralistas?

Moray sacudiu a cabea, impassvel.

- Claro que no. Minha primeira misso colonial foi um planeta em que projetei uma civilizao altamente tcnica, baseada no aproveitamento mximo da energia eltrica, da qual muito me orgulho. E tenciono... ou melhor dizendo, tencionava, tendo em vista a nossa catstrofe... ir para l ao me aposentar e no sair mais at o final dos meus dias. Minha designao para a colnia de Coronis significava que eu projetava culturas tecnolgicas. Mas pelo rumo dos acontecimentos aqui...
- Ainda  possvel - interveio o Comandante Leicester. - Podemos legar uma herana tecnolgica para nossos filhos e netos, Moray, e algum dia, mesmo que ns fiquemos retidos aqui pelo resto da vida, nossos descendentes podero voltar. No conhece a histria, Moray? Da inveno do barco a vapor ao desembarque do homem na Lua foram menos de duzentos anos. De l aos propulsores M-AM que nos levaram a Alfa Centauri foram menos de cem anos. Podemos todos morrer neste pedao de rocha esquecido e provavelmente morreremos mesmo aqui. Mas se pudermos preservar intacta nossa tecnologia, o suficiente para levar nossos netos de volta ao fluxo principal da civilizao humana, ento no teremos morrido em vo.

Moray fitou-o com profunda compaixo.

- Ser possvel que ainda no entendeu? Pois deixe-me explicar-lhe, Comandante, e a voc tambm, Patrick. Este planeta no suportaria qualquer tecnologia avanada. Em vez de um ncleo de nquel e ferro, os principais metais so no-condutores de baixa densidade, o que explica a gravidade to reduzida. A rocha, at onde podemos dizer sem equipamentos sofisticados de que no dispomos e no podemos construir, possui um elevado teor de silicatos, mas baixo em minrios metlicos. Os metais sempre sero raros por aqui... extremamente raros. O planeta de que falei, com um grande aproveitamento de energia eltrica, possui enormes depsitos de combustvel fssil e inmeros rios descendo montanhas para converso em energia... alm de um sistema ecolgico bastante resistente. Este planeta parece ter uma rea agrcola mnima, pelo menos nesta regio. A cobertura florestal  a nica coisa que impede uma eroso macia, e por isso devemos aproveitar a madeira com o maior cuidado. Temos de preservar as florestas como essenciais  vida. Alm disso, no podemos dispensar a mo-de-obra necessria para construir os veculos de que falou, guarnec-los e mant-los; e ainda seria necessrio abrir estradas para que pudessem trafegar. Posso dar os dados e cifras exatos, se quiserem, mas vou resumir a situao: se insistirem numa tecnologia mecanizada, estaro assinando uma sentena de morte... se no para todos ns, pelo menos para nossos netos. Seria possvel sobreviver por trs geraes, porque com to pouca gente poderamos nos deslocar para outra parte do planeta, depois que esgotarmos uma. Mas no mais do que isso.
- Vale a pena sobreviver ou mesmo ter netos se eles vivero assim? - indagou Patrick, com grande amargura.
Moray deu de ombros.
- No posso obrig-los a ter netos. Mas tenho uma responsabilidade com as crianas que j esto a caminho, e h colnias sem tecnologia avanada que contam com uma lista de espera to longa quanto as que existem para os planetas baseados no uso da eletricidade. Nossa linha vital aqui no so vocs, lamento dizer; no passam. . . permita-me ser um tanto brusco, Comandante... de peso morto. As pessoas de que precisamos neste mundo so as que integram a Comuna das Novas Hbridas... e desconfio que, se sobrevivermos, ser exclusivamente por causa delas.
- Bom, acho que isso nos diz qual  a situao. - O Comandante Leicester pensou por um momento. - Mas o que ns teremos pela frente, Moray?

Moray consultou os registros.

- A ficha pessoal informa que seu hobby na academia era a fabricao de instrumentos musicais. No  uma das principais prioridades, mas no inverno poderemos tirar grande proveito das pessoas que sabem alguma coisa a respeito. At l, sabem alguma coisa sobre a produo de vidro, enfermagem prtica, diettica ou ensino elementar?
- Ingressei no servio como auxiliar do Corpo Mdico, antes de fazer o curso de oficial - informou Patrick, surpreendentemente.
- Pois ento v falar com Di Asturien no hospital. Por enquanto, vou registr-lo como servente, sujeito  convocao de todos os homens aptos para o programa de construo. Um engenheiro deve ser capaz de cuidar de problemas de arquitetura. No seu caso, Comandante...

Leicester protestou, irritado:

-  idiotice me chamar de Comandante. Afinal, comandante do qu?
- Muito bem, Harry. - Moray sorriu. - Desconfio que ttulos e coisas assim vo desaparecer em trs ou quatro anos. Mas no privarei ningum, se quiser manter o seu.
- Considere que j esgotei o meu - declarou Leicester. - Vai me recrutar para trabalhar com uma enxada na horta? Agora que no tenho mais o comando de uma espaonave,  a nica coisa para que sirvo.
- Est enganado. Precisarei daquilo que o transformou num comandante. . . liderana, talvez.
- Alguma lei contra a preservao dos conhecimentos tecnolgicos que possumos? Programar tudo no computador, talvez para esses nossos netos hipotticos?
- No to hipotticos no seu caso - disse Moray. - Fiona MacMorair... ela foi registrada no hospital como um caso de "possvel gravidez"... indicou seu nome como o provvel pai.
- Mas quem  neste mundo infernal essa tal de Fiona no sei o qu? - indagou Leicester, furioso. - Nunca ouvi falar dessa moa!

Moray soltou uma risada.

- E isso tem alguma importncia? Por acaso passei a maior parte daquele vento fazendo amor com ps de repolho e mudas de soja, ou pelo menos escutando me contarem seus problemas, mas a maioria se dedicou a atividades um pouco menos... srias, digamos assim. O Dr. Di Asturien vai lhe perguntar os nomes de quaisquer possveis contatos femininos.
- Tive de lutar pela nica de que me lembro e perdi. - Leicester esfregou a equimose se desvanecendo no queixo. - No, espere um pouco...  uma jovem ruiva, do grupo da Comuna?
- No conheo a jovem pessoalmente. Mas cerca de trs quartos da pessoas das Novas Hbridas so ruivas... uma maioria de escoceses, com uns poucos irlandeses. Eu diria que tem uma possibilidade superior  mdia, a menos que a jovem aborte, de ter um filho ruivo daqui a nove ou dez meses. Sendo assim, Leicester, voc tambm tem um interesse neste mundo.
Leicester corou, um rubor lento e furioso.
- No quero que meus descendentes vivam em cavernas e escavem a terra em busca de alimentos. Quero que saibam de que tipo de mundo viemos.

Moray levou algum tempo para responder:

- Eu lhe pergunto com a maior seriedade... no precisa responder, pois no sou o guardio de sua conscincia, mas peo que pense a respeito... no seria melhor deixar que nossos descendentes desenvolvam uma tecnologia tpica deste mundo? Em vez de tent-los com conhecimentos que poderiam destruir este planeta?
- Estou confiando que meus descendentes tero bom senso - respondeu Leicester.
- Muito bem, pode programar tudo no computador, se  isso o que quer. - Moray deu de ombros. - Talvez eles tenham bastante bom senso para nunca us-lo.

Leicester virou-se para sair.

- Posso ter minha assistente de volta? Ou Camilla Del Rey foi designada para algo importante, como cozinhar ou fazer cortinas para o hospital?

Moray sacudiu a cabea.

- Poder t-la de volta assim que ela sair do hospital. Mas Camilla est relacionada como grvida, deve ter apenas trabalhos leves, e eu pensava em lhe pedir para preparar alguns textos elementares de matemtica. Mas o computador no exige muito esforo fsico; se ela quiser voltar, no tenho objees.

Ele olhou deliberadamente para os organogramas de trabalho que apinhavam a mesa; e Harry Leicester, ex-comandante de uma nave estelar, compreendeu que, para todos os propsitos prticos, fora dispensado.


CAPITULO
TREZE
Ewen Ross hesitou, olhando para as fichas genticas, e tornou a fitar Judith Lovat.

- Acredite, Judy, no estou querendo criar problemas para voc, mas isso ajudaria muito em nossos registros. Quem foi o pai?
- No acreditou quando eu lhe disse antes. Portanto, se conhece a resposta melhor do que eu, pode anotar o que quiser.
- No sei como lhe responder, Judy. No me lembro de estar com voc, mas se disser que fui eu...

Ela balanou a cabea, obstinada, e Ewen suspirou.

- A mesma histria de um aliengena. Ser que no percebe como isso  fantstico? Como  totalmente inacreditvel? Est querendo dizer que os aborgines deste mundo so bastante humanos para cruzarem com nossas mulheres? - Ele hesitou. - No est por acaso tentando bancar a engraada, Judy?
- No estou querendo postular tese alguma, Ewen. No sou uma geneticista, apenas uma especialista em diettica. Estou apenas lhe dizendo o que aconteceu.
- Durante um tempo em que esteve insana. Duas vezes. Heather tocou de leve em seu brao.
- Ewen, Judy no est mentindo. Ela diz a verdade... ou o que acredita ser a verdade. Tenha calma.
- Mas suas crenas no constituem uma prova! - Ewen suspirou e deu de ombros. - Muito bem, Judy, seja como quiser. Mas deve ter sido MacLeod... ou Zabal. Ou eu. Deve ter sido qualquer coisa que voc pensa que se lembra.
- Se voc diz assim, ento  claro que deve ter sido.

Judy levantou-se calmamente e retirou-se, sabendo sem precisar olhar o que Ewen estava escrevendo: Pai desconhecido; possvel: MacLeod, Lewis; Zabal, Marco; Ross, Ewen. Heather comentou, depois que ela saiu e fechou a porta:

- Foi um pouco grosseiro com ela, querido.
- Acontece apenas que acho que no temos lugar para a fantasia num mundo to inspito como este. Afinal, Heather, fui treinado para salvar vidas a qualquer custo... a qualquer custo! E j vi pessoas morrerem... deixei que morressem! Quando estamos sos, temos que ser super sos para compensar!

Heather pensou a respeito por um momento.

- Como pode julgar, Ewen? Talvez o que parea sanidade na Terra possa ser tolice aqui. Por exemplo, sabe que o Chefe est treinando grupos de mulheres para cuidados pr-natais e para atuarem como parteiras... caso percamos pessoas demais neste inverno para a equipe mdica cuidar. Ele tambm disse que no faz pessoalmente um parto desde que era interno... isso no  necessrio no Servio Espacial,  claro. E uma das primeiras coisas que ele nos disse foi o seguinte: se uma mulher est prestes a abortar, no precisam adotar quaisquer providncias extraordinrias para evitar. Se fazer a me repousar e mant-la aquecida no salvar a criana, nada mais poder salv-la; nem hormnios, nem drogas para fortalecer o feto, absolutamente nada!
- Mas isso  fantstico! - exclamou Ewen. - Quase criminoso!
- Mas foi o que o Dr. Di Asturien disse. Na Terra, seria mesmo criminoso. Mas aqui, ele argumentou, uma ameaa de aborto pode ser a maneira da natureza descartar um embrio que no ser capaz de se adaptar ao ambiente...  diferente gravidade e assim por diante.  melhor deixar a mulher ter um aborto prematuro e comear de novo, em vez de desperdiar seis meses com uma criana que morrer ou crescer defeituosa. Alm disso, na Terra podemos nos dar ao luxo de salvar crianas defeituosas... genes letais, retardados mentais, deformidades congnitas, insultos fetais e assim por diante. Existem l equipamentos sofisticados e estrutura mdica para coisas como transfuses totais, transplantes de hormnios do crescimento, reabilitao e treinamento se a criana crescer defeituosa. Mas aqui, a menos que queiramos um dia adotar as medidas cruis de expor ou matar os bebs defeituosos, seria melhor mant-los num mnimo absoluto... e cerca de metade das crianas defeituosas nascidas na Terra... talvez noventa por cento, ningum sabe com certeza, virou rotina agora na Terra impedir um aborto espontneo a qualquer custo... so o resultado de salvar crianas que deveriam ter morrido, nos erros da natureza. Num mundo como este,  uma questo de absoluta sobrevivncia para nossa raa; no podemos permitir que genes letais e defeituosos sejam disseminados. Entende agora o que eu queria dizer? Insanidade na Terra... fatos concretos para a sobrevivncia aqui. A seleo natural deve prevalecer... e isso significa que no podemos adotar mtodos hericos para evitar os abortos espontneos, no deve haver mtodos extremos para salvar os bebs moribundos ou lesionados no parto.
- E o que isso tem a ver com a histria delirante de Judy sobre um aliengena como pai de seu filho?
- S uma coisa, Ewen: precisamos aprender a pensar por novas maneiras... e no rejeitar coisas de imediato porque parecem fantsticas.
- Acredita mesmo que  algum aliengena no-humano...  ora, Heather, essa no! Pelo amor de Deus!
- Que Deus? Todos os Deuses que conheo pertencem  Terra. No sei quem foi o pai do beb de Judy. Eu no estava l. Mas ela estava, e na ausncia de prova em contrrio aceito a sua palavra. Judy no  uma mulher fantasiosa e, se diz que algum aliengena apareceu e fez amor com ela, deixando-a grvida, acreditarei nisso at prova em contrrio. Pelo menos at ver o beb. Se for sua imagem, de Zabal ou MacLeod, talvez ento eu acredite que Judy teve uma crise. Mas durante o segundo Vento voc se comportou de maneira racional, at certo ponto. MacAran se comportou de maneira racional, at certo ponto. Parece evidente que depois da primeira exposio mantemos um pouco de controle nas exposies subseqentes  droga ou plen. Judy apresentou um relato racional do que fez na segunda vez, e era coerente com o que aconteceu na primeira. Assim, por que no conceder a ela o benefcio da dvida?

Lentamente, Ewen riscou os nomes, deixando apenas pai desconhecido.

- Isso  tudo o que podemos dizer com certeza - ele finalmente comentou. - Deixaremos assim.

No prdio grande que ainda servia como refeitrio, cozinha e rea de recreao - embora uma cozinha coletiva separada estivesse em construo, feita com pedras nativas translcidas - um grupo de mulheres da Comuna das Novas Hbridas, com suas saias de tart e os casacos quentes do uniforme que usavam agora, preparava o jantar. Uma delas, uma jovem de compridos cabelos ruivos, cantava com uma voz de soprano:

Quando o dia chega ao fim,
Triste vagueio pela gua,
Onde um homem, do sol nascido,
Cortejou a filha da fada,
Por que devo sentar e suspirar,
Puxando samambaias, uma a uma,
Sempre sozinha e cansada?

Ela parou de cantar quando Judy entrou.

- Est tudo pronto, Dra.Lovat. Eu disse que tinha ido ao hospital, e resolvemos comear sem esper-la.
- Obrigada, Fiona. Diga-me uma coisa: o que estava cantando?
- Uma das canes de nossa ilha. No fala galico? Achei que no... chama-se Cano de Amor da Fada... sobre uma fada que se apaixonou por um mortal e vagueia pelas colinas de Skye por toda a eternidade, ainda  sua procura, querendo saber por que ele nunca voltou. Fica mais bonito em galico.
- Pois ento cante em galico - disse Judy. - Seria horrivelmente inspido se apenas uma lngua sobrevivesse aqui. Diga-me outra coisa Fiona: o padre no come no refeitrio, no  mesmo?
- No. Algum leva as refeies para ele.
- Posso levar hoje? Eu gostaria de conversar com ele. Fiona verificou uma escala de trabalho fixada na parede.
- Ser que no teremos tarefas permanentes enquanto no soubermos quem est grvida e quem no est? Est certo, direi a Elsie que voc cuidar disso. E um daqueles sacos ali.

Ela encontrou o Padre Valentine trabalhando no cemitrio, cercado pelas enormes pedras que estava colocando no monumento. Ele pegou a comida, desembrulhou-a e ps numa pedra plana. Judy sentou ao seu lado e disse:

- Padre, preciso de sua ajuda. No quer ouvir minha confisso? Ele sacudiu a cabea lentamente.
- No sou mais um padre, Dra. Lovat. Como eu poderia ter a insolncia de passar julgamento em nome de Deus sobre os pecados de outra pessoa?

Ele sorriu. Era um homem baixo e franzino, no devia ter mais do que trinta anos, mas agora parecia abatido e velho.

- De qualquer forma, tenho muito tempo para pensar enquanto levanto pedras aqui. Como posso sinceramente pregar ou ensinar o Evangelho de Cristo num mundo em que Ele nunca ps os ps? Se Deus quer que este mundo seja salvo, ter de enviar algum para salv-lo... o que quer que isso signifique.

Ele enfiou a colher na tigela de carne e cereal.

- Trouxe o seu almoo? Ainda bem. Em teoria, aceito o isolamento. Na prtica, anseio pela companhia de meus semelhantes muito mais do que jamais pensei que poderia.

Suas palavras descartavam a questo da religio, mas Judy, em sua confuso interior, no se sentia disposta a desistir to facilmente.

- Quer dizer que vai nos deixar sem ajuda pastoral de qualquer tipo, Padre?
- Creio que nunca fiz muita coisa nesse campo. E at me pergunto: ser que algum padre jamais fez? No  preciso dizer que farei qualquer coisa que puder por algum como um amigo...  o mnimo que posso fazer; se empenhasse todo o resto da minha vida nisso, nem sequer comearia a compensar o que cometi, mas  melhor do que sentar num saco de aniagem murmurando oraes de penitncia.
- Posso compreender isso, eu acho. Mas est mesmo querendo dizer que no h lugar para a f ou religio, Padre?

Ele fez um gesto de protesto.

- Gostaria que no me chamasse de "padre". Irmo, se quiser. Temos todos que ser irmos e irms no infortnio aqui. No, eu no disse isso, Dra. Lovat... no sei o seu nome cristo... Judith? Eu no disse isso, Judith. Todo ser humano precisa acreditar na bondade de algum poder que o criou, no importa como o chame, precisa de uma estrutura religiosa ou tica. Mas no creio que precisamos de sacramentos ou sacerdcios de um mundo que  apenas uma lembrana e no ser nem isso para nossos filhos e os filhos de nossos filhos. tica, sim. Arte, sim. Msica, ofcios, conhecimento, humanidade... sim. Mas no rituais que rapidamente se transformaro em supersties. E certamente no um cdigo social ou um conjunto de atitudes de comportamento puramente arbitrrias que nada tm a ver com a sociedade em que vivemos agora.
- Mas no trabalharia dentro da estrutura da Igreja na colnia Coronis?
- Acho que sim. No tinha pensado a respeito. Perteno  Ordem de So Cristvo de Centaurus, que foi organizada para levar a Igreja Catlica Reformada s estrelas... Aceitei como uma misso meritria. Nunca pensei realmente a respeito... no  um pensamento srio, compenetrado, profundo. Mas aqui, na minha pilha de pedras, tenho muito tempo para pensar. - Ele sorriu. - No  de admirar que costumassem pr criminosos para quebrar pedras na Terra. Mantm as mos ocupadas e proporciona todo o tempo para o pensamento.
- Ento no acha que uma tica de comportamento seja absoluta? - murmurou Judy. - No h nada de definido ou divinamente ordenado aqui?
- Como poderia haver? Sabe o que eu fiz, Judith. Se no tivesse sido criado com a noo de que certas coisas eram por si mesmas, por sua prpria natureza, o suficiente para me mandarem direto para o inferno, eu poderia absorver quando despertei, depois do Vento. Talvez ficasse envergonhado, transtornado, com o estmago embrulhado, mas no teria a convico, no fundo de minha mente, de que nenhum de ns merecia viver depois daquilo. No havia no seminrio gradaes de certo e errado, apenas virtude e pecado, nada intermedirio. Os assassinatos no me perturbaram, em minha loucura, porque aprendera no seminrio que a lascvia era um pecado pelo qual poderia ir para o inferno. Assim, como o assassinato poderia ser pior? Pode-se ir para o inferno apenas uma vez, e eu j estava condenado. Uma tica racional me diria que qualquer coisa que eu e aqueles pobres tripulantes, que Deus os guarde, fizemos durante aquela noite de loucura prejudicava apenas nossa dignidade e senso de decncia, se  que isso importava. Estava a quilmetros, a galxias de assassinato.
- No sou uma teloga... Pa... ahn... Valentine, mas algum pode cometer um pecado mortal em estado de completa insanidade?
- Pode estar certa de que j revirei essa questo pelo avesso. No ajuda saber que se eu fosse capaz de correr para meu confessor e obter seu perdo por todas as coisas que fiz em minha loucura... coisas horrveis por alguns padres, mas essencialmente inofensivas... poderia me abster de matar aqueles pobres coitados. Tem de haver alguma coisa errada com um sistema que permite assumir e se livrar da culpa como um casaco. Quanto  loucura... nada pode aflorar na loucura que j no existisse antes. O que realmente no pude enfrentar, comeo a compreender agora, no foi apenas o conhecimento de que na loucura fizera algumas coisas proibidas com outros homens, mas sim o conhecimento de que as fizera com satisfao e de bom grado, que no mais acreditava que eram erradas e que para sempre depois daquilo, quando visse aqueles homens, haveria de lembrar o tempo em que nossas mentes se abriram por completo uns para os outros, em que conhecemos as mentes, coraes e corpos uns dos outros, no mais total amor e partilha que seres humanos poderiam conhecer. Eu sabia que nunca mais poderia esconder e por isso peguei o canivete e comecei a tentar esconder de mim mesmo!

Ele sorriu amargamente, um terrvel sorriso de caveira, antes de acrescentar:

- Judith, Judith, perdoe-me. Veio me pedir ajuda, para ouvir sua confisso, mas acabou escutando a minha.

Judy disse gentilmente:

- Se voc est certo, todos teremos de ser sacerdotes uns para os outros, pelo menos para escutar e prestar a ajuda que for possvel. - Ela se impressionara com uma frase que ele dissera e repetiu-a em voz alta: Nossas mentes se abriram por completo... no mais total amor e partilha que seres humanos poderiam conhecer. Parece ser o que este mundo tem feito para ns. Em graus diferentes,  verdade... mas a todos ns, de um jeito ou de outro. Foi o que ele disse...

E devagar, procurando pela palavras apropriadas, Judy relatou a histria do aliengena, o primeiro encontro na floresta, como ele a chamara durante o Vento, as estranhas coisas que lhe dissera, sem falar.

- Ele me disse... as mentes de nossa gente so como portas parcialmente fechadas. Mas compreendemos um ao outro, talvez mais porque houve essa... partilha total. Mas ningum acredita em mim! - A voz de Judy era agora desesperada. - Pensam que estou louca ou mentindo!
- Tem alguma importncia o que eles pensam? Pela incredulidade dos outros, voc pode at proteg-lo. Disse-me que ele tinha medo de ns... de seu povo... e, se sua espcie  to gentil, isso no me surpreende.  Uma raa teleptica sintonizada conosco durante o Vento Fantasma provavelmente concluiria que ramos um povo terrivelmente violento e assustador... e no seria um erro total, embora tenhamos um outro lado. Mas se eles comearam a acreditar em seu... o que foi mesmo que Fiona disse?... seu amante do reino das fadas, podem procurar seu povo e os resultados talvez no sejam muito bons. - Ele sorriu tristemente. - Nossa raa tem uma pssima reputao quando encontramos outras culturas que consideramos inferiores. Se se preocupa com o pai de seu filho, Judy, eu deixaria que continuassem a no acreditar nele.
- Para sempre?
- Enquanto for necessrio. Este planeta j est nos mudando. Talvez algum dia nossos filhos e os dele encontrem alguma maneira de se encontrarem sem catstrofe, mas teremos de esperar para ver.

Judy puxou a corrente em seu pescoo, e ele perguntou:

- No costumava usar uma cruz a?
- Isso mesmo. Mas tirei-a. Perdoe-me.
- Por qu? No significa coisa alguma aqui. Mas o que  isso? Era uma pedra azul, faiscando, com pequenos pontos prateados se movimentando no interior.
- Ele disse... usavam essas coisas para o treinamento de suas crianas; que, se eu pudesse controlar a pedra, poderia fazer contato com ele... faz-lo saber que estava tudo bem comigo e com a criana.
- Deixe-me dar uma olhada...

Valentine estendeu a mo, mas Judy encolheu-se e recuou.

- O qu...?
- No sei explicar. No compreendo. Mas quando outra pessoa toca agora... di, como se fosse parte de mim. Acha que estou louca?

O homem sacudiu a cabea.

- O que  a loucura? Uma pedra para intensificar a telepatia... talvez tenha propriedades peculiares que ampliam os sinais eltricos transmitidos pelo crebro... a telepatia no pode existir por si mesma, deve ter como base algum fenmeno natural. Talvez a pedra esteja sintonizada com o que existe em sua mente que faz com que voc seja voc. De qualquer modo, existe e... j entrou em contato com ele?
- Parece que algumas vezes - murmurou Judy, procurando pelas palavras apropriadas. -  como ouvir uma voz e saber de quem  pelo som... no, no  bem assim, mas acontece. Sinto... por um breve instante, mas  bem real... como se ele estivesse parado ao meu lado, tocando-me, depois a sensao desaparece. Um momento de tranquilizao, um momento de... de amor, antes que se desvanea. E tenho o estranho pressentimento de que  apenas um incio, que haver de chegar o dia em que saberei outras coisas a respeito...

Ele ficou observando, enquanto Judy tornava a guardar a pedra dentro do vestido. Finalmente ele sugeriu:

- Se eu fosse voc, guardaria em segredo por algum tempo. Disse que este planeta est mudando a todos ns, mas talvez no esteja mudando bastante depressa. Alguns cientistas gostariam de estudar essa coisa, oper-la, talvez mesmo tir-la de voc, experiment-la, destru-la, para descobrir como funciona. Talvez mesmo interrogar e testar voc muitas e muitas vezes, para descobrir se est mentindo ou com alucinaes. Mantenha em segredo, Judith. Use-a como ele disse. Pode chegar um dia em que ser importante saber como funciona... a maneira como deve funcionar, no a maneira como os cientistas podem querer que funcione.

Valentine levantou-se, sacudindo do colo as migalhas da refeio.

- E agora voltarei  minha pilha de pedras. Judy ficou na ponta dos ps e beijou-o no rosto.
- Obrigada - ela murmurou. - Ajudou-me muito. O homem tocou em seu rosto.
- Fico contente que assim seja. ... um comeo. Uma longa estrada de volta, mas  um comeo. Seja abenoada, Judith.

Ele observou-a se afastar e um pensamento estranho, quase blasfemo, aflorou em sua mente: Como saber se Deus no est mandando uma Criana... uma estranha criana, que no  inteiramente um homem... para este mundo estranho? Ele descartou o pensamento, concluindo: Estou louco. Mas outro pensamento deixou-o arrepiado, com a memria confusa e consternado: Como saber se a Criana que idolatrei durante tantos anos no era o resultado de alguma estranha aliana desse tipo?

- Absurdo! - ele exclamou em voz alta, retornando  penitncia auto-imposta.


CAPITULO
QUATORZE
- Nunca pensei que me descobriria a rezar pelo mau tempo - comentou Camilla.

Ela fechou a porta do pequeno domo reparado em que se encontrava o computador e aproximou-se de Harry Leicester.

- Estive pensando. Com os dados de que dispomos sobre a extenso dos dias, a inclinao do sol e assim por diante, no poderamos descobrir a durao exata do ano deste planeta?
- Isso  bastante elementar - respondeu Leicester. - Formule seu programa e ponha-o no computador. Pode nos informar por quanto tempo se prolongar o vero e quanto esperar do inverno.

Camilla aproximou-se do painel. A gravidez comeava a aparecer, embora ela ainda estivesse leve e graciosa. Leicester disse:

- Consegui salvar quase todas as informaes sobre os propulsores de matria-antimatria. Algum dia... Moray comentou outro dia que do motor a vapor s estrelas transcorreram menos de trezentos anos. Algum dia nossos descendentes podero voltar  Terra, Camilla.
- Presumindo que eles queiram voltar.

Ela sentou  sua mesa. Leicester fitou-a, indagando:

- Voc duvida?
- No estou duvidando de coisa alguma, apenas no quero presumir o que meus tatatatara. . . o que meus netos da nona gerao vo querer. Afinal, os terrqueos viveram por geraes sem sequer desejarem inventar coisas que poderiam facilmente ser inventadas a qualquer momento depois que se fundiu o ferro pela primeira vez. Acha mesmo que a Terra partiria para o espao sem a presso demogrfica e a poluio? H muitos fatores sociais que devem ser considerados.
- E se Moray puder impor sua vontade, todos os nossos descendentes sero brbaros - comentou Leicester. - Mas enquanto tivermos o computador e ele for preservado, os conhecimentos estaro aqui. Caber a eles us-los, quando sentirem a necessidade.
- Se for preservado. - Camilla deu de ombros. - Depois dos ltimos meses no tenho a menor certeza se qualquer coisa que trouxemos para c sobreviver a esta gerao.

Conscientemente, com algum esforo, Leicester lembrou a si mesmo: Ela est grvida, e  por isso que durante muitos anos acharam que as mulheres no tinham condies para serem cientistas - as mulheres grvidas tm estranhas idias. Ele observou-a fazendo anotaes no computador.
- Por que quer saber a durao do ano?

Que pergunta estpida!, pensou Camilla. Mas depois se lembrou de que ele fora criado numa estao espacial, onde a passagem do tempo nada significava. Duvidava at que ele compreendesse a relao do tempo e do clima com as colheitas e a sobrevivncia. Procurou explicar, gentilmente:
- Primeiro, queremos calcular a estao do crescimento e determinar quando nossas colheitas esto prontas.  mais simples do que pelo ensaio e erro. Se tivssemos colonizado  maneira normal, algum teria observado o planeta por vrios ciclos anuais. Alm disso, Fiona, Judy e... o resto de ns gostaramos de saber quando nossos filhos nascero e qual ser o clima provvel. No estou fazendo minhas roupas de beb, mas algum tem de faz-las... e saber quanto frio esperar!
- J est planejando? - perguntou Leicester, curioso. - As possibilidades so de uma em duas de que leve a gravidez at o fim e as mesmas de que a criana no morra.
- Sei disso. Mas, por algum motivo, nunca duvidei de que o meu seria um dos que vo viver. Premonio, talvez; PES. - Camilla pensava enquanto falava. - Tive um pressentimento de que Ruth Fontana ia abortar e acabou acontecendo.

Ele estremeceu.

- No  um dom dos mais agradveis para se ter.
- No, no , mas parece que eu o tenho... e parece que est ajudando Moray e os outros com as colheitas. Para no mencionar o poo que Heather ajudou-os a escavar.  evidente que se trata apenas de um ressurgimento de um potencial humano latente e no h nada de estranho nisso. Seja como for, parece que teremos de aprender a conviver com isso.
- Quando eu era estudante - disse Leicester -, todos os fatos conhecidos positivamente sobre PES foram fornecidos a um computador e a resposta foi de que a probabilidade era de mil contra uma de que tal coisa existisse... de que os poucos casos no total e conclusivamente refutados eram decorrentes de erro de investigao, no de PES humana.

Camilla sorriu.

- Isso serve para mostrar que um computador no  Deus. Leicester observou a jovem inclinar-se para trs e aliviar o corpo com cibras.
- Esses assentos da cabine de comando so horrveis. No foram projetados para uso em condies de plena gravidade. Espero que mveis confortveis tenham uma alta prioridade. O Jnior aqui no aprova que eu sente em cadeiras duras.

Ah, como eu amo essa mulher! Quem poderia imaginar na minha idade? A fim de lembrar a si mesmo a diferena entre os dois com mais vigor, Leicester perguntou:

- Planeja casar com MacAran, Camilla?
- Acho que no - ela respondeu, com a insinuao de um sorriso. - No temos pensado nesses termos. Eu o amo... ficamos muito unidos durante o primeiro Vento, partilhamos tanto, sempre seremos parte um do outro. Vivemos juntos, quando ele est aqui... o que no acontece com freqncia... se  isso o que quer realmente saber. Acima de tudo porque ele me quer muito e quando se fica to ntimo de algum, quando se pode... - Ela hesitou, procurando pelas palavras apropriadas. - ...quando se pode sentir o quanto ele quer, no  possvel virar-lhe as costas, no  possvel deix-lo... faminto e infeliz. Mas se vamos ou no construir um lar juntos, se queremos viver juntos pelo resto de nossas vidas... sinceramente no sei; acho que no. Somos muito diferentes.

Ela ofereceu um sorriso franco, que fez o corao de Leicester virar pelo avesso, e acrescentou:

- No fundo, eu seria mais feliz com voc, a longo prazo. Somos muito mais parecidos. Rafe  muito gentil, muito terno, mas voc me compreende melhor.
- Est com um filho dele e  capaz de me dizer isso, Camilla?
- Isso o choca? - ela indagou, aflita. - Desculpe. Eu no gostaria de perturb-lo por nada neste mundo. Isso mesmo,  o beb de Rafe, e me sinto contente, de uma estranha maneira. Ele quer, e um dos pais deve querer um filho; para mim... no posso evitar, recebi uma lavagem cerebral... ainda  um acidente de biologia. Se fosse seu, por exemplo... e poderia ser, o mesmo tipo de acidente, assim como Fiona est com o seu filho e mal a conhece de vista... teria detestado, haveria de querer que eu lutasse contra t-lo.
- No tenho tanta certeza. Talvez no. Ou pelo menos no agora. Mas dizer essas coisas ainda me deixa perturbado. Chocado. Talvez eu seja velho demais.

Camilla sacudiu a cabea.

- Temos de aprender a no nos escondermos uns dos outros. Numa sociedade em que nossos filhos crescero sabendo que  um livro aberto tudo o que sentem, de que adiantaria continuar a manter mscaras para exibir aos outros?
-  assustador.
- Um pouco. Mas provavelmente eles aceitaro como um fato corriqueiro.

Ela apoiou-se um pouco em Leicester, aliviando o peso nas costas contra seu peito. Estendeu a mo para trs e pegou a dele. E murmurou:

- No fique to chocado. Mas... se eu viver... se ambos vivermos... eu gostaria que meu prximo filho fosse seu.

Leicester inclinou-se e beijou-a na testa. Sentia-se comovido demais para falar. Camilla apertou sua mo e depois largou-a.

- Eu disse isso a MacAran - ela acrescentou, calmamente. - Por razes genticas, ser uma boa coisa as mulheres terem filhos de pais diferentes. Mas... como eu disse... minhas razes no so to frias e desprovidas de emoo assim.

Seu rosto assumiu uma expresso distante - pareceu a Leicester que ela olhava para alguma coisa invisvel atravs de um vu - e por um momento contraiu-se em dor; mas ela respondeu  indagao rpida e preocupada de Leicester com um sorriso.

- No, estou bem. Vamos ver o que podemos fazer para determinar a durao do ano. Quem sabe se este no pode ser o nosso primeiro feriado nacional?

Os moinhos de vento eram visveis a vrios quilmetros do acampamento agora, enormes construes com velas de madeira que forneciam energia para moer farinha (as nozes colhidas na floresta davam uma farinha fina, um pouco adocicada, que serviria at as primeiras colheitas de centeio e aveia) e tambm proporcionavam um pouco de eletricidade para o acampamento. Mas tal energia sempre teria um suprimento mnimo naquele mundo e era racionada cuidadosamente; usava-se apenas para iluminao no hospital, para se operar as mquinas essenciais nas pequenas oficinas e para a nova estufa. Alm do acampamento, com seu prprio aceiro, ficava o que j haviam comeado a chamar de Novo Acampamento, embora o pessoal da Comuna das Hbridas, que trabalhava ali, desse-lhe o nome de Nova Skye; era uma fazenda experimental, em que Lewis MacLeod e um grupo de assistentes cuidavam de animais que podiam ser domesticados.

Rafe MacAran, com sua equipe de assistentes, fez uma pausa para dar uma olhada, do pico da colina mais prxima, antes de se embrenhar pela floresta. Os dois acampamentos podiam ser vistos nitidamente l de cima, e ao redor de ambos havia uma atividade intensa. Mas havia uma diferena indefinvel de qualquer acampamento que ele j vira na Terra, e por um momento MacAran no pde determinar o que era. E depois ele percebeu onde estava a diferena; era o silncio. Ou ser que no? Havia na verdade uma abundncia de sons. Os enormes moinhos de vento rangiam ao vento forte. Havia sons distantes de martelos e serrotes dos homens construindo novos abrigos para o inverno. A fazenda tambm tinha seus rudos, os sons ruidosos de animais, os berros dos mamferos de chifres, os estranhos grunhidos, pios e guinchos de formas de vida inslitas. E finalmente Rafe descobriu o que era. No havia sons que no fossem de origem natural. Nenhum trfego. Nada de mquinas, exceto o zumbido suave das rodas de oleiro e o retinir das ferramentas. Cada um desses sons tinha uma determinao humana imediata por trs. Quase no havia sons impessoais. Cada som parecia ter um propsito, e parecia estranho e solitrio a Rafe. Durante toda a sua vida ele vivera nas grandes cidades da Terra, onde at mesmo nas montanhas os sons de veculos de superfcie, trnsito motorizado, cabos de energia de alta tenso e avies a jato proporcionavam um fundo confortador. Ali era quieto, assustadoramente quieto, porque qualquer som que rompia o barulho constante do vento tinha algum significado imediato. No se podia desligar. Sempre que havia um som, era preciso escut-lo. No havia sons que pudessem ser ignorados por se saber que nada tinham a ver com voc, como o rudo dos jatos passando l em cima ou dos propulsores da nave estelar. Cada som naquela paisagem tinha uma relao imediata com o ouvinte, e Rafe mantinha-se tenso durante a maior parte do tempo, escutando.

Mas acabaria se acostumando, ele pensou. E passou a dar instrues ao grupo.

- Trabalharemos nas cristas rochosas inferiores hoje e especialmente nos leitos dos crregos. Queremos amostras de cada tipo diferente de terra.... isto , de solo. Cada vez que a cor da argila mudar, recolham uma amostra e registrem a localizao no mapa... voc est trabalhando no mapeamento, Janice?

A moa acenou com a cabea.

- Estou usando papel quadriculado. Poderemos anotar cada mudana no terreno.

O trabalho da manh transcorreu relativamente rotineiro, exceto por uma descoberta que Rafe comentou quando se reuniram para acender uma fogueira e preparar a refeio do meio-dia - a massa da farinha de nozes para ser assada e "ch" de uma folha local, que tinha um gosto agradvel, meio adocicado, parecido com aafro. A fogueira foi acesa dentro de pedras rapidamente empilhadas - a lei mais rigorosa da colnia era nunca acender uma fogueira no cho sem aceiros ou armaes de pedra ao redor - e, enquanto a madeira resinosa comeava a arder depressa para se converter em brasas, uma segunda expedio de explorao desceu a encosta: trs homens e duas mulheres.

- Podemos nos juntar a vocs para o almoo? - indagou Judy Lovat, depois de cumpriment-los. - Isso nos pouparia o trabalho de fazer outra fogueira.
- A companhia de vocs  um prazer - disse MacAran. - Mas o que estava fazendo na floresta, Judy? Pensei que a esta altura j estivesse isenta do trabalho manual mais pesado.
- Para dizer a verdade, estou sendo tratada como excesso de bagagem. No tenho permisso para levantar um dedo ou efetuar qualquer escalada de verdade, mas reduzirei a quantidade de amostras levadas de volta ao acampamento se eu puder fazer testes preliminares de campo em vrias plantas. Foi assim que descobrimos a planta-corda. Ewen diz que o exerccio me far bem, se eu tomar cuidado para no me cansar demais nem ficar com muito frio.

Ela pegou seu ch e foi sentar ao lado de MacAran.

- Teve alguma sorte hoje? Ele balanou a cabea.
- E j no era sem tempo. Nas ltimas trs semanas, todos os dias, tudo o que consegui encontrar foi apenas mais uma verso de quartzita ou calcita. Mas nosso ltimo achado foi grafita.
- Grafita? E para que isso serve?
- Entre outras coisas,  a ponta de um lpis. E temos madeira em abundncia para lpis, o que ajudar quando se esgotar o suprimento de outros instrumentos de escrita. Pode ser usada tambm na lubrificao de engrenagem, o que conservaria os suprimentos de gorduras animais e vegetais para propsitos alimentares.
-  curioso, a gente nunca pensa em coisas assim - comentou Judy. - Milhes de coisinhas de que precisa e nas quais nunca pensa.
- Tem toda razo - disse um dos homens de MacAran. - Sempre pensei em cosmticos como algo extra... algo que as pessoas podem dispensar numa emergncia. Mareia Cameron me contou outro dia que estava trabalhando num programa de alta prioridade para creme facial. Perguntei por qu, e ela me lembrou que num planeta com tanta neve e gelo era uma necessidade urgente manter a pele macia e evitar rachaduras e infeces.

Judy riu.

-  verdade. E neste momento estamos fazendo o maior esforo na tentativa de encontrar um substituto para a farinha, a fim de fazer talco infantil. Os adultos podem usar o talco comum, de origem mineral, abundante por aqui, mas que causa problemas pulmonares s crianas que o respiram. No conseguimos moer bastante fino nenhum dos cereais e nozes locais; a farinha  boa para comer, mas no bastante absorvente para a pele delicada das bundinhas infantis.
- Qual  a urgncia agora, Judy? - perguntou MacAran.

Ela deu de ombros.

- Na Terra, ainda me faltariam cerca de dois meses e meio. Camilla e eu, assim como a namorada de Alastair, Alarma, estamos correndo juntas; a prxima turma dever chegar um ms depois. Mas aqui... ningum sabe com certeza. - Ela fez uma pausa. - Esperamos que o inverno comece antes disso. Mas voc ia me falar sobre o que descobriu hoje.
- Greda de pisoeiro ou algo to parecido que no posso perceber a diferena. -  expresso impassvel de Judy, ele explicou: -  usada na fabricao de tecidos. Temos pequenos suprimentos de fibras animais, algo parecido com l, dos coelhos-de-chifres. So abundantes e podem ser criados na fazenda, mas a greda de pisoeiro tornar o tecido mais fcil de manipular e encolher.
- Nunca ningum pensa em pedir a um gelogo que encontre alguma coisa para a fabricao de tecidos - comentou Janice.
- Em ltima anlise, todas as cincias esto relacionadas, embora na Terra tudo fosse to especializado que perdemos isso de vista. - Judy tomou o resto de seu ch. - Vai voltar ao Acampamento Base, Rafe?

Ele sacudiu a cabea.

- No. Continuaremos na floresta, provavelmente visitaremos aquelas colinas em que fomos na primeira expedio. Pode haver crregos que desam das colinas distantes e vamos procur-los. E por isso que o Dr. Fraser est conosco... ele quer descobrir mais sinais do povo que avistamos na ltima viagem, obter uma noo mais acurada de seu nvel cultural. Sabemos que constroem pontes de uma rvore a outra... ainda no tentamos subir nelas. E evidente que eles so muito mais leves do que ns e no queremos quebrar seus artefatos ou assust-los.
- Eu gostaria de poder ir junto - disse Judy, com uma expresso ansiosa. - Mas tenho ordens para nunca me afastar alm de umas poucas horas do acampamento at o beb nascer.

MacAran percebeu o anseio profundo e, com sua nova capacidade de captar emoes, disse gentilmente:

- No se preocupe, Judy. No vamos perturbar ningum que encontrarmos, quer seja o povo pequeno que construiu as pontes ou... algum mais. Se qualquer dos seres aqui fosse hostil a ns, j teramos descoberto a esta altura. No temos a inteno de incomod-los. Um dos motivos de nossa expedio  verificar se no estamos inadvertidamente violando o espao vital deles ou afetando qualquer coisa de que precisam para sua sobrevivncia. Depois de sabermos onde eles esto assentados, saberemos onde no devemos assentar. Ela sorriu.
- Obrigada, Rafe.  bom saber disso. Se estamos pensando nesses termos, no preciso me preocupar.

Pouco depois os dois grupos se separaram, a turma de verificao dos alimentos retornou ao Acampamento Base, enquanto o pessoal de MacAran se embrenhava ainda mais pelas colinas.

Por duas vezes, nos dez dias seguintes, eles avistaram pequenos indcios dos aliengenas peludos de olhos grandes; uma vez, sobre um crrego na montanha, depararam com uma ponte construda com laos entrelaados de junco, com escadas de cordas levando para os nveis inferiores das rvores. Sem toc-la, o Dr. Fraser examinou o material que fora usado, comentando que a necessidade de fibras, cordes e cordas mais grossas era maior do que podia ser atendida pelos pequenos suprimentos de planta-corda. Cerca de cento e cinqenta quilmetros alm do acampamento, pelas colinas, encontraram o que parecia ser um crculo de rvores plantadas assim de forma meticulosa, com vrias escadas de corda pendentes; mas o local dava a impresso de estar abandonado e a plataforma construda entre as rvores, de algo semelhante a vime, achava-se dilapidada e podia-se avistar o cu atravs dos buracos no fundo. Fraser olhou ansioso para o alto.

- Eu daria cinco anos de minha vida para dar uma olhada l em cima. Eles usam mveis?  uma casa, um templo ou o qu? Mas no posso subir nessas rvores e as escadas de corda provavelmente no agentariam sequer o peso de Janice, muito menos o meu. Pelo que me lembro, nenhum deles era maior do que uma criana de dez anos.
- H tempo suficiente - disse MacAran. O lugar est abandonado, podemos voltar algum dia com escada de mo e explorar tudo. Pessoalmente, acho que  uma fazenda.
- Uma fazenda?

MacAran apontou. Nos troncos regularmente espaados cresciam os deliciosos fungos cinzentos que MacLeod descobrira antes do primeiro Vento, em fileiras to retas e a intervalos to iguais como se tivessem sido fixados com a ajuda de uma rgua.

- Dificilmente eles poderiam crescer de forma to impecvel - explicou MacAran. - Devem ter sido plantados. Talvez eles voltem aqui a intervalos de poucos meses para a colheita. A plataforma l em cima pode ser qualquer coisa... um lugar para descanso, um celeiro, um acampamento noturno. Mas  claro que tambm pode ser uma plantao que eles abandonaram h anos.
-  bom saber que essas coisas podem ser cultivadas. - Fraser comeou a fazer anotaes meticulosas em seu caderno sobre o tipo exato de rvores em que os fungos cresciam, o espaamento e a altura das fileiras. - Olhe s para aquilo! Tudo indica que  um sistema de irrigao simples para desviar a gua do lugar em que os fungos crescem diretamente para as razes das rvores!

Enquanto subiam pelas colinas, a localizao da "fazenda" devidamente registrada no mapa de Janice, MacAran descobriu-se a pensar nos aliengenas. Podiam ser primitivos, mas que outro tipo de sociedade era possvel naquele mundo? Seu nvel de inteligncia devia ser comparvel ao de muitos homens, a julgar pela sofisticao de seus artefatos.

O comandante fala de um retorno  selvageria. Mas desconfio que no poderamos voltar, mesmo que tentssemos. Em primeiro lugar, formamos um grupo seleto, a metade com instruo nos nveis superiores, o resto tendo passado pelos rigorosos exames de seleo para as colnias. Chegamos aqui com os conhecimentos adquiridos em milhes de anos de evoluo e umas poucas centenas de anos de tecnologia compulsria, pressionada por um mundo superpovoado e poludo. Podemos no ser capazes de transplantar toda a nossa cultura, este planeta no sobreviveria, provavelmente seria suicdio tentar. Mas ele no precisa se preocupar com a possibilidade de retorno a um nvel primitivo. O que quer que acabemos fazendo com este mundo, creio que o resultado final no ficar abaixo do que tnhamos na Terra, em termos da mente humana tirando o melhor proveito do que encontra. Ser diferente... provavelmente em algumas geraes nem mesmo eu poderia relacionar com a cultura da Terra. Mas os humanos no podem ser menos do que humanos, e a inteligncia no funciona abaixo de seu prprio nvel.

Aqueles pequenos aliengenas desenvolveram-se de acordo com as necessidades deste mundo; um povo da floresta, usando plo (MacAran, estremecendo com a chuva gelada de uma noite de vero, desejou ter tambm), vivendo em simbiose com a vegetao. Mas, at onde ele podia julgar, aquelas construes eram indicativas de um nvel elevado de refinamento e capacidade de adaptao.

Como Judy os chamara? Os irmozinhos que no so sbios. E como eram os outros aliengenas? Era evidente que aquele planeta produzira duas raas totalmente sapientes, e elas deviam coexistir em algum grau. Era um bom sinal para a humanidade e os outros. Mas o aliengena de Judy - era o nico nome que ele tinha e mesmo agora ainda se descobria a duvidar de sua existncia - devia estar bastante prximo do humano para gerar uma criana numa mulher da Terra. A possibilidade era estranhamente perturbadora.

No dcimo quarto dia da expedio eles alcanaram as encostas inferiores da vasta geleira que Camilla batizara de A Muralha ao redor do Mundo. Erguia-se por cima deles a encobrir metade do cu, e MacAran sabia que era impossvel de escalar, mesmo com aquele nvel de oxignio. Nada havia alm daquelas encostas inferiores, a no ser rocha e gelo, fustigados pelos eternos ventos gelados, de nada adiantaria continuar. Mas mesmo enquanto o grupo se afastava da enorme cordilheira, a mente de MacAran rejeitava aquele impossvel de escalar. E ele pensou: No, nada  impossvel. No podemos escalar agora. Talvez no em minha vida; certamente no daqui a dez ou vinte anos. Mas no est na natureza humana aceitar limitaes desse tipo. Algum dia eu voltarei e farei a escalada. Ou meus filhos faro. Ou os filhos deles.

- At agora, sempre seguimos na mesma direo - comentou o Dr. Fraser. - A prxima expedio deve ir na direo contrria. Por este lado s h floresta e mais floresta.
- Podemos aproveitar as florestas - respondeu MacAran. - Talvez no outro lado s haja um deserto. Ou um oceano. Ou, por tudo o que sabemos, vales frteis e at cidades. S o tempo dir.

Ele verificou os mapas que estavam fazendo, observando com satisfao as reas preenchidas, mas compreendendo que ainda havia uma vida inteira para explorar. Acamparam naquela noite na base da geleira, e MacAran despertou antes do amanhecer, talvez pela interrupo da intensa nevasca noturna. Deixou a tenda e contemplou o cu escuro e as estrelas desconhecidas, trs das quatro luas pairando como pingentes abaixo da crista da cordilheira, antes que os olhos e pensamentos voltassem ao vale. Seu povo l estava, Camilla com seu filho no ventre. Para o leste havia uma claridade difusa, onde o vasto sol vermelho surgiria. MacAran sentiu-se subitamente dominado por um contentamento profundo e indescritvel.

Nunca fora feliz na Terra. A colnia teria sido melhor, mas mesmo l precisaria se ajustar a um mundo projetado por outros homens, no para gente como ele. Aqui poderia participar da projeo original de tudo, esculpir e criar o que quisesse para si mesmo e seus filhos, para os filhos de seus filhos. Tragdia e catstrofe os haviam trazido para aquele mundo, loucura e morte os assolara, mas MacAran sabia que era um dos afortunados. Encontrara seu prprio lugar, e era bom.

Levaram a maior parte daquele dia e do seguinte voltando pelo mesmo caminho que os levara  base da geleira, atravs de um cu cinzento e um acmulo de nuvens carregadas. MacAran, que desconfiava do bom tempo naquele planeta, mesmo assim sentiu o prurido agora familiar da inquietao. Perto do anoitecer do segundo dia a neve comeou a cair, mais intensa do que qualquer coisa que ele j vira naquele mundo. Mesmo com as roupas quentes, os terrqueos congelavam e o senso de orientao logo desapareceu, num mundo que se convertera num turbilho branco de insanidade, sem cor, forma ou lugar. No ousavam parar, mas logo ficou patente que no poderiam continuar por muito mais tempo pelas camadas cada vez mais profundas de neve, nas quais afundavam e escorregavam, agarrando-se uns aos outros. S podiam continuar a descer. Qualquer outra direo no fazia sentido. A situao tornou-se um pouco melhor sob as rvores, mas o vento uivando das alturas e os galhos rangendo e estalando, como velas sacudidas em algum navio alm da imaginao, povoavam o crepsculo com vozes fantsticas. Houve uma ocasio em que tentaram se abrigar sob uma rvore e comearam a armar a tenda, mas o vento a soprou para longe, saram correndo em seu encalo atravs da neve, at que ela prendeu numa rvore e conseguiram recuper-la. Mas era intil como abrigo e foram sentindo cada vez mais frio, os bluses mantendo-os secos por dentro, mas quase nada fazendo para bloquear o frio penetrante. Fraser murmurou, batendo os dentes, enquanto se mantinham juntos por trs de uma rvore maior que as outras:

- Se  assim no vero, que tipo de tempestades teremos no inverno?

MacAran respondeu sombriamente:

- Desconfio que no inverno nenhum de ns deve deixar o Acampamento Base.

Ele pensou na tempestade depois do primeiro Vento, quando procurara Camilla atravs da nevasca ligeira. Pensara que era uma terrvel tempestade. Quo pouco conhecia aquele mundo! Foi dominado por um medo intenso e um senso de pesar. Camilla. Ela est s e salva no acampamento, mas ser que algum de ns conseguir voltar para l? Ele pensou com uma pontada angustiante de autocompaixo que nunca veria o rosto do filho, mas tratou de descartar o pensamento, irritado. Ainda no precisavam desistir e deitar para morrer, mas tinha de haver um abrigo em algum lugar. Se nada encontrassem, no poderiam sobreviver  noite. A tenda no mais adiantava coisa alguma, mas tinha de haver uma sada.

Pense. Gabou-se para si mesmo sobre o grupo seleto e inteligente que constitumos. Use a sua inteligncia ou ser a mesma coisa que um aborgine australiano.

Talvez seja melhor ser assim. A sobrevivncia  uma coisa em que eles so muito competentes. Mas voc tem sido mimado durante toda a sua vida.

Sobreviva, de qualquer maneira.

Ele segurou o brao de Janice com uma das mos, o Dr. Fraser pela outra; puxou tambm o jovem Domenick, o garoto da Comuna que vinha estudando geologia para o trabalho na colnia. E disse, gritando acima do vento uivante:

- Algum pode ver onde ficam as rvores mais grossas? Como no  provvel que haja uma caverna ou algum outro abrigo por aqui, temos de aproveitar da melhor forma possvel os arbustos ou qualquer outra coisa que possa quebrar o vento e nos manter secos.

Janice respondeu, numa voz quase inaudvel:

-  difcil ver qualquer coisa, mas tive a impresso de que h alguma coisa escura ali. As rvores devem ser to grossas que no posso ver ali.  isso o que est procurando?

MacAran tambm tivera a mesma impresso; agora, com a confirmao, ele decidiu confiar. Fora levado direto para Camilla, na outra ocasio.

Psquico? Era bem possvel. E o que tinha a perder?

- Temos de ficar todos de mos dadas - ele disse, mais com gestos do que com palavras. - Se nos perdermos uns dos outros, nunca mais tornaremos a nos encontrar com esta tempestade.

E foi assim, as mos se segurando com toda firmeza, que se encaminharam para o lugar que no passava de uma mancha mais escura contra as rvores. A mo do Dr. Fraser apertou com mais fora o brao de MacAran, ele inclinou o rosto e gritou:

- Talvez eu esteja perdendo o juzo, mas vi uma luz!

MacAran pensara que era uma iluso de seus olhos fustigados pelo vento. O que pensava ter visto alm era ainda mais improvvel; o vulto de um homem? Alto, com um brilho plido e nu mesmo na tempestade... no, sumira, no passara de uma viso, mas ele tinha a impresso de que a criatura chamara da escurido... eles avanaram na direo com o maior esforo. Janice murmurou:

- Voc viu?
- Tive essa impresso.

Depois, quando se encontravam no abrigo das rvores entrelaadas, eles compararam observaes. No haviam visto a mesma coisa. O Dr. Fraser vira apenas a luz. MacAran vira um homem nu, chamando. Janice vira apenas um rosto com uma estranha luminosidade, como se o rosto - foram as suas palavras - estivesse na verdade dentro de sua cabea, desaparecendo como o gato de Cheshire da histria quando contrara os olhos para ver melhor; e para Domenick fora um vulto alto e lustroso, como...

- Como um anjo - ele disse. - Ou uma mulher... uma mulher com cabelos compridos e lustrosos.

Mas, cambaleando atrs, encontraram rvores compactas que mal conseguiram passar; MacAran tivera de se abaixar para passar, levando os outros.

Dentro do arvoredo a neve era mnima e o vento uivante no podia alcan-los. Ficaram bem juntos, cobertos pelas mantas, partilhando o calor do corpo, comendo raes frias. Depois, MacAran acendeu uma luz e descobriu que no tronco de uma rvore havia pedaos de madeira meticulosamente pregados. Uma escada na rvore...

Mesmo antes de comearem a subir, ele adivinhou que no era uma das casas do povo peludo. Os degraus eram bastante espaados para criarem dificuldade at para MacAran; Janice, que era pequena, teve de ser puxada. O Dr. Fraser vacilou, mas MacAran no sentiu a menor hesitao.

- Se todos vimos alguma coisa diferente - ele disse -, ento  evidente que fomos trazidos at aqui. Alguma coisa falou diretamente a nossas mentes. Pode-se dizer que fomos convidados. Se a criatura estava nua... e dois de ns a viram assim...  evidente que o frio no os incomoda, o que quer que sejam, mas sabem que nos faz correr perigo. Sugiro que aceitemos o convite, com o devido respeito.

Tiveram de se espremer por uma porta estreita numa plataforma e entraram numa habitao de madeira bem construda. MacAran ia acender sua luz de novo, mas descobriu que no era necessrio, pois havia uma claridade difusa no interior, proveniente de algum material fosforescente nas paredes. L fora o vento uivava e os galhos das rvores balanavam e rangiam. O cho macio da habitao tinha algum movimento, que no era desagradvel, mas era um pouco inquietante. Havia um nico cmodo, grande; o cho estava coberto por alguma coisa macia e esponjosa, como se musgo ou alguma relva de inverno crescesse ali. Os viajantes, exaustos e enregelados, deitaram agradecidos, relaxando no relativo calor, secura e abrigo, e no demoraram a pegar no sono.

Antes de adormecer, MacAran teve a impresso de ouvir  distncia um som alto e suave, como canto, atravs da tempestade. Canto? Canto? Nada podia viver l fora, naquela terrvel nevasca! Contudo, a impresso persistiu;  beira do sono, palavras e imagens afloraram em sua mente.

Muito abaixo dali, nas colinas, desorientado e atordoado depois da primeira exposio ao Vento Fantasma, retornando  sanidade para encontrar a tenda armada, as mochilas e equipamentos cientficos arrumados l dentro. Camilla pensara que fora ele. E MacAran pensara que fora ela.

Algum est velando por ns. Protegendo-nos.

Judy disse a verdade.

Por um instante, um rosto belo e sereno, que no era masculino nem feminino, flutuou em sua mente. " verdade. Sabemos que vocs esto aqui. No lhes queremos mal, mas nossos caminhos so separados. Mesmo assim, vamos ajud-los da maneira como pudermos, apesar de s podermos fazer um contato mnimo, atravs das portas fechadas de suas mentes.  melhor que no cheguemos muito perto; mas esta noite durmam em segurana e partam em paz..."

Na mente de MacAran havia uma luminosidade em torno das lindas feies, os olhos prateados; e nem naquele momento nem depois MacAran jamais soube se vira os olhos do aliengena ou as feies iluminadas, ou se a mente apenas os captara e formara uma imagem baseada em sonhos infantis de anjos, fadas ou santos com aurolas. Mas ao som do canto distante e do rudo embalador do vento ele adormeceu.


CAPITULO
QUINZE
-...e isso  tudo o que aconteceu. Permanecemos l dentro durante cerca de trinta e seis horas, at que a nevasca cessou e o vento diminuiu. No tivemos qualquer vislumbre de quem vivia ali. Desconfio que ele se manteve cuidadosamente oculto at irmos embora. No foi para l que ele a levou, Judy?

- No foi to longe assim. Nem muito perto. E no foi para a habitao de algum de seu povo. Creio que era uma das cidades do povo pequeno, os homens das rvores, como ele os chamou. Mas no pude encontrar o lugar de novo e tambm no gostaria de encontr-lo.
- Mas estou absolutamente convencido de que eles tm boa vontade em relao a ns - disse MacAran. - No  possvel que tenha sido o mesmo que voc conheceu?
- Como posso saber? Mas  evidente que se trata de uma raa teleptica; desconfio que qualquer coisa do conhecimento de um  transmitida para os outros... pelo menos para seus ntimos, sua famlia... se  que tm famlia.
- Talvez algum dia eles venham a compreender que no lhes queremos mal.

Judy sorriu tristemente.

- Tenho certeza que eles sabem que voc... e eu... no lhes queremos mal; mas h alguns de ns que no conhecem, e desconfio que o tempo talvez no tenha tanta importncia para eles quanto tem para ns. Isso nada tem de estranho, exceto para ns, europeus ocidentais... mesmo na Terra, os orientais muitas vezes fazem planos e pensam em termos de geraes, em vez de meses ou mesmo anos. Possivelmente eles pensam que h tempo para nos conhecermos num sculo qualquer.

MacAran riu.

- Seja como for, no iremos a parte alguma. Acho que h tempo suficiente. O Dr. Fraser est na maior felicidade, tem anotaes antropolgicas em quantidade suficiente para proporcionar a plena ocupao de todas as suas horas extras durante trs anos. Ele deve ter anotado tudo o que viu na habitao... espero que eles no se sintam ofendidos por Fraser ter esmiuado tudo. Anotou inclusive tudo o que era usado como alimentao... se somos de uma espcie similar, parece evidente que poderemos comer tudo o que eles comem. No tocamos em seus suprimentos,  claro, mas Fraser registrou tudo. Digo ele apenas por uma questo de convenincia. Domenick est convencido de que foi uma mulher que nos levou at l. Alm disso, a nica pea de mobilirio existente no lugar... uma pea bastante grande... parecia um tear, com um novelo. Havia bolas de alguma fibra vegetal... parecia com o algodo-do-campo da Terra... encharcando, obviamente sendo preparada para o tear. Encontramos algumas amostras da planta na viagem de volta e entregamos a MacLeod na fazenda. Tudo indica que dar para fazer um bom tecido.

Judy disse, enquanto ele se levantava para sair:

- Deve compreender que ainda h muitas pessoas no acampamento que nem sequer acreditam que existam aliengenas neste planeta.

MacAran fitou-a nos olhos.

- Isso tem alguma importncia, Judy? Ns sabemos. Talvez tenhamos de esperar e comear a pensar tambm em termos de geraes. Talvez todos os nossos filhos sabero.

O vero continuou no mundo do sol vermelho. Cada dia o sol subia um pouco mais alto no cu, houve um solstcio, o ngulo passou a baixar; Camilla, que se fixara como tarefa organizar um calendrio constatou que as mudanas dirias no sol e no cu indicavam que os dias, alongando-se durante os primeiros quatro meses que passaram naquele mundo, recomeavam a encurtar, a caminho do inverno inimaginvel. O computador, com todas as informaes fornecidas, previra dias de escurido, temperaturas no nvel de zero grau centgrado e tempestades glaciais virtualmente constantes. Mas ela lembrou a si mesma que isso era apenas uma projeo matemtica de probabilidades. Nada tinha a ver com fatos concretos.

Houve ocasies, durante aquele segundo tero de sua gravidez, em que ficou espantada consigo mesma. Nunca antes lhe ocorrera duvidar que a disciplina rigorosa da matemtica e a cincia, seu mundo desde a infncia, pudessem ter lacunas; ou que algum dia encontraria qualquer problema, exceto os estritamente pessoais, que essas disciplinas no pudessem resolver. At onde ela podia constatar, as velhas disciplinas ainda eram vlidas para seus companheiros de tripulao. Mesmo as evidncias cada vez mais freqentes de sua crescente capacidade de ler as mentes dos outros e contemplar o futuro de maneira fantstica, fazendo predies desconcertantemente acuradas, baseadas apenas em rpidos vislumbres do que tinha de chamar de "pressentimento"... mesmo isso era ignorado e descartado com desdm. Contudo, Camilla sabia que outros tambm experimentavam a mesma coisa.

Foi Harry Leicester - secretamente, ela ainda pensava nele como Comandante Leicester - quem formulou a questo de maneira mais clara. Quando se encontrava em sua companhia, Camilla podia pensar quase como ele.

- Mantenha o que voc conhece, Camilla. Isso  tudo o que pode fazer;  o que se chama de integridade intelectual. Se uma coisa  impossvel, ento  mesmo impossvel.
- E se o impossvel acontece? Como a PES?
- Nesse caso, voc de alguma forma interpretou erroneamente os fatos ou est fazendo suposies baseadas em indicaes subliminares. No exagere nisso por causa de sua vontade de acreditar. Espere pelos fatos.
- E o que exatamente consideraria como uma prova? Leicester balanou a cabea.
- Para ser franco, no h nada que eu pudesse considerar como prova. Se acontecesse comigo, haveria apenas de me considerar insano, e sem valor a experincia dos sentidos.

E Camilla pensou: O que me diz ento da vontade de desacreditar? E como pode ter integridade intelectual quando rejeita todo um conjunto de fatos como impossveis antes de sequer verific-los? Mas ela amava o comandante e os velhos hbitos persistiam. Algum dia talvez houvesse uma confrontao, mas ela esperava, com um suave desespero, que no ocorresse to cedo.

A chuva noturna continuava e no houve mais os assustadores ventos da loucura, mas as trgicas estatsticas que Ewen Ross previra se confirmaram, com uma terrvel inevitabilidade. De cento e quatorze mulheres, oitenta ou noventa deveriam engravidar em cinco meses; quarenta e oito engravidaram e vinte e duas tiveram abortos espontneos em dois meses. Camilla sabia que seria uma das afortunadas, e foi o que aconteceu; sua gravidez continuou to tranqila que havia ocasies em que se esquecia por completo de seu estado. Judy tambm teve uma gravidez tranqila; mas a moa da Comuna das Hbridas, Alarma, entrou em trabalho de parto no sexto ms de gravidez e deu a luz a gmeos prematuros, que morreram segundos depois do nascimento. Camilla tinha pouco contato com as mulheres da Comuna - a maioria trabalhava em Nova Skye, exceto pelas grvidas, que ficavam no hospital - mas quando soube disso experimentou uma profunda angstia. Naquela noite procurou MacAran e ficou com ele por um longo tempo, abraando-o numa agonia silenciosa, que ela no podia explicar nem compreender. E acabou perguntando:

- Rafe, voc conhece uma jovem chamada Fiona?
- Conheo e muito bem.  uma bela ruiva de Nova Skye. Mas no precisa ter cime, querida, pois creio que ela est vivendo agora com Lewis MacLeod. Por qu?
- Conhece muita gente em Nova Skye, no  mesmo?
-  verdade. Tenho estado l com bastante freqncia ultimamente. Mas por que pergunta? Pensei que os considerava como selvagens repulsivos. - Rafe estava um pouco defensivo. - No fundo, so boas pessoas e gosto da maneira como vivem. No estou lhe pedindo para se juntar a elas. Sei que voc no aceitaria, e eles no me deixariam entrar sem uma mulher... tentam manter os sexos equilibrados, embora no casem... apesar de me tratarem como um dos seus.

Camilla disse com uma gentileza excepcional:

- Estou muito contente por isso, e pode ter certeza de que no sinto cimes. Mas gostaria de falar com Fiona, e no sei explicar o motivo. Poderia me levar a uma das reunies?
- No precisa explicar nada. Eles vo realizar um concerto... informal,  claro, mas  exatamente isso... esta noite. Qualquer um pode comparecer. Voc pode at participar, se sentir vontade de cantar. Eu mesmo participo s vezes. Conhece algumas das antigas canes espanholas, no  mesmo? H uma espcie de projeto informal de preservar tanta msica quanto pudermos lembrar.
- Terei o maior prazer, em alguma outra ocasio. Estou muito sem flego agora para cantar. Talvez depois que o beb nascer.

Ela pegou a mo de MacAran, que sentiu uma pontada de cime. Ela sabe que Fiona est com o filho do comandante e quer v-la. E por isso que no sente cime de mim, no se importa...
Eu estou com cime. Mas gostaria que ela mentisse para mim? Ela me ama, est com meu filho, o que mais eu poderia querer?

Eles ouviram a msica comear antes de chegarem ao novo Salo Comunitrio na fazenda de Nova Skye. Camilla olhou para MacAran numa consternao espantada.

- Santo Deus, o que  essa barulheira infernal?
- Esqueci que no era uma escocesa, querida. No gosta de gaita de foles? Moray, Domenick e mais dois as tocam, mas no precisa entrar at eles acabarem.
- Parece pior do que um banshee  solta - comentou Camilla. - Nem toda a msica  assim, no  mesmo?
- Claro que no. H harpas, guitarras, alades, e no sei mais o qu. E esto construindo novos instrumentos musicais. - Ele apertou os dedos de Camilla enquanto as gaitas terminavam de tocar, e se encaminharam para o salo. -  uma tradio, mais nada. As gaitas. E os aparatos das Terras Altas... os kilts e espadas.

Surpreendentemente, Camilla sentiu uma leve pontada de inveja ao entrarem no salo, iluminado por velas e tochas; as mulheres usavam saias de tart e os homens estavam resplandecentes em kilts e espadas. Muitos tinham os cabelos vermelhos. Uma pitoresca tradio. Eles a passam adiante, enquanto as nossas tradies... morrem. Ora, deixe disso, que tradies? O desfile anual da Academia Espacial? As tradies deles pelo menos cabem neste mundo estranho.

Dois homens, Moray e o ruivo alto chamado Alastair, estavam fazendo uma dana de espadas, pulando agilmente atravs das lminas brilhantes, ao som de uma flauta. Por um instante Camilla teve uma estranha viso de espadas reluzentes, no usadas em diverses, mas em combates mortais; e depois a imagem se desvaneceu e ela tambm aplaudiu os danarinos.

Houve outras danas e canes, a maioria desconhecida para Camilla, com uma cadncia estranha e melanclica, um ritmo que a fazia pensar no mar. E o mar tambm aparecia em muitas letras. Estava um tanto escuro no salo, apesar das velas e tochas, e ela no avistou em parte alguma a moa de cabelos castanho-avermelhados que procurava. Depois de algum tempo esqueceu a urgncia que a levara at ali, escutando as tristes canes de um mundo desaparecido de ilhas e mares:

 Mhari, Mhari, minha amada,
Seus olhos azuis da cor do mar
Me atraem por encanto, ao largo da praia
O vento sopra e meu corao chora de amor...

O brao de MacAran apertava-a com firmeza e ela se apoiou nele por completo. E murmurou:

- Como  estranho, num mundo sem mares, que tantas canes do mar sejam mantidas...
- D-nos tempo. Encontraremos alguns mares para cantar e... Ele parou de falar, pois a cano acabara e algum gritou:
- Fiona! Cante para ns, Fiona!

Outros apoiaram a exortao, e no demorou muito para que a jovem esguia de cabelos vermelhos, usando uma saia azul e verde que acentuava, quase ostensivamente, sua gravidez, avanou pela multido e disse em voz suave:

- No posso cantar muito agora, pois ando sem flego. O que gostariam de ouvir?

Algum gritou em galico; ela sorriu e balanou a cabea, depois pegou uma pequena harpa de outra moa e sentou num banco de madeira. Os dedos se movimentaram em arpejos por um momento e depois ela se ps a cantar:

O vento da ilha traz canes de nosso pesar
O grito das gaivotas e o suspiro dos regatos;
Em todos os meus sonhos escuto as guas
Que descem das montanhas na terra de nossos sonhos.

A voz era baixa e melodiosa e, enquanto a moa cantava, Camilla captou imagens de colinas verdejantes, contornos familiares da infncia, memrias de uma Terra que poucos podiam lembrar, mantidas vivas apenas nas canes assim; memrias de um tempo em que as colinas da Terra eram verdes, sob um sol dourado e um cu azul...

Sopre para oeste, vento do mar, traga-nos algum murmrio
 deriva de nossa ptria da honra e da verdade;
No sono e na viglia estou ouvindo as guas
Que correm das colinas na terra de nossa juventude.

Camilla sentiu um aperto na garganta com um meio soluo. A terra perdida, esquecida... pela primeira vez ela efetuou um esforo consciente para abrir os olhos da mente  percepo especial que conhecera desde o Primeiro Vento. Fixou os olhos e a mente, intensamente, com um mpeto quase de amor arrebatado, na moa que cantava; e depois viu e relaxou.

Ela no vai morrer. Sua criana viver.

Eu no poderia suportar que ele se extinguisse como se nunca tivesse existido...

O que h de errado comigo? Ele tem apenas uns poucos anos a mais do que Moray, no h motivo para que no sobreviva  maioria de ns... mas a angstia persistia, assim como o alvio intenso, enquanto a cano de Fiona chegava ao fim:

Cantamos nesta terra distante as canes do exlio.
Flautas e harpas so to belas quanto antes;
Mas nunca haver msica mais doce do que as guas
Que correm naquela terra que no mais veremos.

Camilla descobriu que estava chorando; mas no era a nica. Todos ao redor, no salo escuro, os exilados, lamentavam seu mundo perdido, incapaz de suportar por mais tempo, Camilla levantou-se e encaminhou-se s cegas para a porta, tateando atravs da multido. Quando constataram que ela estava grvida, todos lhe deram passagem, cortesmente. MacAran foi atrs, mas ela no lhe deu ateno; s quando se encontravam l fora  que Camilla virou-se para ele e o abraou, chorando desesperadamente. Mas quando comeou a ouvir as perguntas preocupadas de MacAran tratou de descart-las. No sabia como responder.

Rafe tentou confort-la, mas de alguma forma foi contagiado por sua inquietao e por algum tempo no soube o motivo, at que lhe ocorreu abruptamente.

L em cima a noite era clara, sem nuvem ou sinal de chuva. Duas enormes luas, uma verde, outra azul, pairavam no cu violeta escurecendo. E os ventos aumentavam.

Dentro do salo da Comuna das Novas Hbridas a msica mudou de ritmo quase imperceptivelmente e comeou uma dana coletiva, com um crescente senso de unio, amor e comunho, com uma intimidade que nunca seria esquecida ou rompida. Em determinado momento, tarde da noite, quando as tochas flamejavam quase no fim, dois homens avanaram, numa exploso de ira violenta, as espadas faiscando nos trajes das Terras Altas, encontrando-se com o estrpito do ao. Moray, Alastair e Lewis MacLeod correram para os dois homens furiosos e os derrubaram, arrancando as espadas de suas mos e sentando em cima deles - literalmente - at que a erupo de raiva terminasse. Depois, libertando-os gentilmente, despejaram usque por suas gargantas (Os escoceses daro um jeito de fabricar usque nos confins do universo, pensou Moray, no importa do que mais tenham de se privar), at que os dois briges se abraaram, embriagados, jurando amizade eterna. A festa continuou at que o sol nasceu, no cu claro, sem nuvens.

Judy despertou, sentindo a agitao do vento como uma lufada fria que penetrava at seus ossos, o estranho alerta em seu crebro. Sentiu no mesmo instante, como se quisesse se tranqilizar, onde a criana se mexia, com uma vida estranha e forte. Est tudo bem, mas ela tambm sente os ventos da loucura.

Estava escuro no quarto em que deitava, e ela ficou escutando os sons da cano distante. Est comeando, mas desta vez... desta vez sabem o que , podem enfrentar sem medo ou estranheza? A prpria Judy sentia uma calma absoluta, um silncio no centro de seu ser. Sabia, sem surpresa, o que exatamente provocara a loucura a princpio; e sabia tambm que a loucura no voltaria, pelo menos para ela. Sempre haveria, na estao dos ventos, alguma estranheza, uma abertura e percepo maiores; os poderes latentes, durante tanto tempo adormecidos, sempre seriam mais fortes sob a influncia do potente psicodlico trazido pelo vento. Mas ela sabia agora como lidar com os poderes, e haveria apenas a pequena loucura que acalma a mente e resguarda o crebro irrequieto do estresse, deixando-o livre para enfrentar o estresse em outra ocasio. Judy deixou-se ficar  deriva agora, projetando os pensamentos para um contato meio sentido, que era como uma memria. Tinha a sensao de que girava, flutuava nos ventos que agitavam seus pensamentos. Por um instante os pensamentos se encontraram com o aliengena (mesmo agora no tinha um nome para ele, no precisava de nenhum, conheciam um ao outro como uma me conhece o rosto de seu filho ou como gmeo reconhece gmeo, estariam sempre unidos, mesmo que seus olhos nunca mais tornassem a contemplar o rosto dele), numa unio breve e meio extasiada. E por mais breve que fosse o contato, ela no precisava nem desejava mais do que isso.

Ela pegou a pedra, o presente de amor que ele lhe dera. Teve a impresso de que luzia na escurido com seu fogo interior, como brilhara na mo dele ao entreg-la na floresta, repetindo o estranho brilho azul-prateado de seus olhos. Tente dominar a pedra. Judy focalizou os olhos e pensamentos na pedra, empenhando-se em saber, com aquela inslita viso interior, o que significava.

Estava escuro no quarto, pois a noite seguia o seu curso e as luas mergulharam por trs da janela, a luz das estrelas era fraca. A pedra ainda na mo, Judy pegou uma vela de resina; o sono estava distante. Tateou na escurido  procura de um acendedor, errou e ouviu o pequeno instrumento de ponta qumica cair no cho. Sussurrou uma imprecao irritada, agora teria de sair da cama para encontrar o acendedor. Olhou fixamente para a vela de resina, de certa forma olhando atravs da pedra em sua mo.

Acenda!

A vela de resina na ponta de madeira subitamente pegou fogo, uma chama brilhante. Judy, ofegando e sentindo o corao disparar, rapidamente apagou a chama; outra vez concentrou os pensamentos na pedra e na chama, a vela tornou a se acender.

Ento  isso...

Pode ser perigoso. Esconderei at que chegue o momento oportuno. Naquele momento ela compreendeu que fizera uma descoberta que poderia um dia transpor o abismo entre o conhecimento transplantado da Terra e o conhecimento antigo daquele mundo estranho; mas tambm compreendeu que no falaria a respeito por um longo tempo, se  que algum dia. Quando chegar o momento e suas mentes estiverem fortes e preparadas, ento... ento talvez eles meream confiana para saber. Se eu revelar agora, metade no vai acreditar... e os outros comearo a tramar como usar. Agora no  possvel.

Desde a destruio da nave estelar e a aceitao de que se encontravam encalhados ali (Por toda uma vida? Para sempre? Para sempre pelo menos no meu caso), o Comandante Leicester s tivera uma esperana, uma vida de trabalho, algo que proporcionasse uma motivao  sua existncia e algum vislumbre de otimismo a seu desespero.

Moray podia estruturar uma sociedade que os ligaria ao solo daquele mundo, enraizando-os como porcos em busca da alimentao cotidiana. Isso era problema de Moray; talvez isso fosse necessrio, por enquanto, para desenvolver uma sociedade estvel que pudesse garantir a sobrevivncia. Mas a sobrevivncia nada significava se fosse apenas sobrevivncia, e ele compreendia agora que podia ser mais. Algum dia levaria seus filhos de volta s estrelas. Ele tinha o computador; e possua uma tripulao tecnicamente treinada e uma vida inteira de conhecimento. Durante os ltimos trs meses retirara sistematicamente todos os equipamentos da nave, programara tudo o que aprendera, tudo o que sabia, no computador, com a ajuda de Camilla e trs outros tcnicos. Transferira para o computador cada livro remanescente da biblioteca, de astronomia a zoologia, de medicina a engenharia eletrnica; convocara cada tripulante sobrevivente, um a um, ajudara-os a transferir todos os seus conhecimentos para o computador. Nada era pequeno demais para no ser programado no computador, da construo e reparos de um sintetizador de alimentos  fabricao e conserto de um zper do uniforme.

Ele pensava, triunfante: h uma tecnologia inteira aqui, toda uma herana, preservada para nossos descendentes. Provavelmente, isso no ser possvel durante a minha vida ou a de Moray, talvez nem durante a vida de nossos filhos. Mas quando ultrapassarmos as pequenas lutas pela sobrevivncia cotidiana, o conhecimento estar aqui, a nossa herana. Estar tudo aqui, a partir de agora, tanto o conhecimento para curar um tumor cerebral quanto a tcnica para fazer uma tigela de vidro; e quando Moray deparar com problemas em sua sociedade estruturada, como vai inevitavelmente acontecer, as respostas estaro aqui. Toda a histria do mundo de onde viemos; podemos passar por todos os becos sem sada da sociedade e seguir direto para uma tecnologia que nos levar de volta s estrelas um dia... para retornarmos  grande comunidade do homem civilizado, no tendo que rastejar num nico planeta, mas podendo se espalhar como uma enorme rvore de muitas ramificaes, de estrela para estrela, de um universo para outro.

Podemos todos morrer, mas a coisa que nos fez humanos sobreviver - intacta - e algum dia voltaremos. Algum dia reivindicaremos nossa herana.

Ele estava deitado, escutando o canto distante no salo de Nova Skye, no domo que se tornara toda a sua vida. Ocorreu-lhe vagamente que deveria levantar; ir para o salo, juntar-se a eles. Afinal, eles tambm tinham uma coisa a preservar. Ele pensou na adorvel moa de cabelos castanho-avermelhados que conhecera por to breve instante e que, espantosamente, levava seu filho no ventre.

Ela ficaria contente em v-lo, e sem dvida ele tinha uma responsabilidade, embora tivesse concebido a criana meio sem saber, como uma besta enlouquecida no cio... e encolheu-se ao ter esse pensamento. Ainda assim, a moa fora gentil e compreensiva, e ele devia-lhe alguma coisa, alguma gentileza, por t-la usado e esquecido. Como era mesmo o seu estranho e lindo nome? Fiona! Um nome galico, com certeza. Leicester levantou, procurando por suas roupas, depois hesitou, parado na porta do domo e olhando para o cu claro e brilhante. As luas haviam se posto e o falso amanhecer comeava a projetar uma tnue claridade a leste, um arco-ris como uma aurora, que ele calculou ser um reflexo da geleira distante, que nunca vira; e nunca se interessara em ver.

Aspirou o vento e ao absorv-lo nos pulmes foi invadido por uma estranha e furiosa suspeita. Na ltima vez eles haviam destrudo a nave; desta vez destruiriam a ele e seu trabalho. Bateu a porta do domo e trancou-a; trancou tambm o cadeado que exigira de Moray. Desta vez ningum se aproximaria do computador, nem mesmo as pessoas em quem mais confiava. Nem mesmo Patrick. Nem mesmo Camilla.

- Fique tranqila, meu amor - murmurou Rafe. - Olhe, as luas j se puseram, em breve estar amanhecendo. Como  quente sob as estrelas, ao vento... Por que est chorando, Camilla? Ela sorriu na escurido.
- No estou chorando, mas pensando que algum dia encontraremos um oceano... e ilhas... para as canes que ouvimos esta noite... e um dia nossos filhos as cantaro l.
- Aprendeu a amar este mundo como eu, Camilla?
- Amar? No sei... mas  o nosso mundo. No temos de am-lo. Precisamos apenas aprender a conviver com ele, de alguma forma. No em nossos termos, mas nos termos dele.

Em todo o Acampamento Base as mentes dos terrqueos explodiram em loucura, alegria ou medo inexplicveis; mulheres choraram sem saber por que ou riram numa alegria sbita que no podiam explicar. O Padre Valentine, adormecido em seu abrigo isolado, despertou e desceu a colina, entrou despercebido no salo de Nova Skye, misturando-se com os outros, em amor e completa aceitao. Depois que os ventos acabassem ele voltaria  solido, mas sabia que nunca mais ficaria completamente sozinho.

Heather e Ewen, partilhando o planto noturno no hospital, contemplaram o sol vermelho surgir no cu sem nuvens. Abraados, foram arrancados de seu xtase silencioso de contemplao do cu (como um faiscar de mil rubis, a claridade intensa afugentando as trevas) por um grito atrs deles, um gemido estridente de dor e terror.

Uma jovem saiu de sua cama e correu para eles, em pnico pela dor repentina, o sangue jorrando; Ewen pegou-a no colo e levou-a de volta para a cama, concentrando toda a sua fora e calma, tentando focalizar a sanidade (voc pode prevalecer! Lute! Tente!), mas foi detido pelo que viu nos olhos assustados da moa. Heather tocou em seu ombro, compadecida.

- No - ela murmurou. - No precisa tentar.
- Oh, Deus, Heather, no posso, no gosto disso, no consigo suportar...

Os olhos da moa estavam arregalados em terror.

- No podem me ajudar? - ela suplicou. - Oh, por favor, ajudem-me, ajudem-me...

Heather ajoelhou-se e abraou-a.

- No, querida - ela disse, gentilmente. - No podemos ajud-la. Voc vai morrer. No tenha medo, Laura querida, ser muito rpido e estaremos com voc. No chore, querida, no chore, no h nada de que ter medo.

Ela apertou a jovem ternamente, murmurando, confortando, sentindo cada parcela do medo e tentando com a fora do contato acalm-la, at que a jovem ficou quieta e tranqila em seus braos. Os dois mdicos permaneceram assim, chorando com ela, at que a jovem parou de respirar; e depois a ajeitaram na cama, cobriram-na com um lenol, e pesarosos, de mos dadas, saram para o nascer do sol e choraram por ela.

O Comandante Harry Leicester viu o sol nascer, esfregando os olhos cansados. No os desviara do painel do computador, velando pela nica esperana de salvar aquele mundo do barbarismo. Pouco antes do amanhecer tivera a impresso de ouvir a voz de Camilla chamando-o da porta, mas com certeza no passara de uma iluso. (Houvera uma ocasio em que ela partilhara seu sonho. O que teria acontecido?)

Agora, num estranho estado, irrequieto, meio cochilando, meio em transe, ele observou um desfile em sua mente de estranhas criaturas, que no chegavam a ser homens, levando estranhas naves estelares para o cu vermelho daquele mundo e, sculos depois, retornando. (O que procuravam, no mundo alm das estrelas? Por que no haviam encontrado?) A busca, no final das contas, poderia ser interminvel ou efetuar um crculo completo e acabar no incio?

Mas temos alguma coisa em que nos basearmos, a histria de um mundo.

Outro mundo. No este.

Mas respostas de outro mundo se ajustam a este?

Ele disse a si mesmo, furioso, que conhecimento era conhecimento, que conhecimento era poder, e poderia salv-los...

...ou destru-los. Depois da longa luta pela sobrevivncia, eles no procuraro as respostas antigas, as respostas j prontas do passado, e tentaro reconstituir a histria desesperada da Terra, aqui, num mundo com uma corrente de vida mais frgil? E se um dia eles vierem a acreditar, como eu acreditei por algum tempo, que o computador possui de fato todas as respostas?

E no possui?

Leicester levantou e foi at a entrada do domo. A janela fechada, deliberadamente pequena por causa do frio intenso, abriu-se ao seu contato. Contemplou o alvorecer e o estranho sol. No meu. Mas deles. Algum dia descobriro seus segredos.

Com a minha ajuda. Minha luta solitria, meu empenho em resguardar para eles uma herana do verdadeiro conhecimento, toda uma tecnologia que os levar de volta s estrelas.

Leicester respirou e comeou a escutar em silncio os sons daquele mundo. Os ventos nas rvores, nas florestas, os regatos correndo, os animais e pssaros que levavam vidas estranhas e secretas no fundo das matas, os aliengenas desconhecidos que seus descendentes um dia conheceriam.

E no seriam brbaros. Eles saberiam. Se fossem tentados a explorar algum beco sem sada do conhecimento, a resposta estaria ali, disponvel a seu pedido, pronta para explicar tudo.

(Por que a voz de Camilla ressoou em sua mente? "Isso prova apenas que um computador no  Deus.")

A verdade no  uma forma de Deus? Ele indagou, frentico, a si mesmo e ao universo. Conheceras a verdade e a verdade te libertar.

(Ou escravizar? Uma verdade pode esconder outra?)

E de repente uma viso terrvel aflorou em sua mente, como se os pensamentos se libertassem do tempo e se lanassem para o futuro, que se estendia tremeluzente  sua frente. Uma raa ensinada a procurar todas as suas respostas ali, no santurio que tinha todas as respostas certas. Um mundo em que nenhuma questo podia jamais ficar em aberto, pois tinha todas as respostas, e o que existia alm no era possvel explorar.

Um mundo brbaro, com o computador idolatrado como um Deus.

Um Deus. Um Deus. Um Deus.

E ele estava criando esse Deus.

Deus! Estou louco!

E a resposta surgiu, ntida e implacvel. No. Tenho estado insano desde o acidente com a nave, mas agora estou so. Moray estava certo desde o incio. As respostas de outro mundo no so as respostas que podemos usar aqui. A tecnologia, a cincia, no passam de uma tecnologia e uma cincia para a Terra; se tentarmos transferi-las para c, em sua plenitude, destruiremos este planeta. Algum dia, no to breve quanto eu gostaria, mas no momento oportuno, eles desenvolvero uma tecnologia baseada no solo, nas pedras, no sol, nos recursos deste mundo. Talvez os leve s estrelas, se quiserem ir. Talvez os leve pelo tempo ou para os espaos interiores de seus prprios coraes. Mas ser uma tecnologia deles, no minha. No sou um Deus. No posso criar um mundo  minha imagem.

Ele levara tudo o que havia na ponte de comando da nave para aquele domo. Agora, calmamente, comeou a definir o que procurava, antigas palavras de outro mundo ressoando em sua mente:

O mundo gira interminvel, o sol gira interminvel,
Interminvel  a busca;
E eu tambm giro, de volta ao comeo,
E aqui encontro o repouso.

Com mos firmes, ele acendeu uma vela de resina e, deliberadamente, ateou fogo a um pavio comprido.

Camilla e MacAran ouviram a exploso e correram para o domo, bem a tempo de v-lo se projetar para o cu numa chuva de detritos e chamas se elevando.

Mexendo no cadeado, Harry Leicester comeou a perceber que no conseguiria sair. Desta vez no conseguiria. Cambaleando devido ao golpe e  concusso que sofrera com a exploso, mas friamente so e satisfeito, ele contemplou os destroos. Eu lhes dei um novo comeo, ele pensou, confuso. Talvez, no final das contas, eu seja Deus, aquele que expulsou Ado e Eva do den e parou de lhes dizer todas as respostas, deixando-os descobrir  sua maneira e crescer... sem salva-vidas, sem amortecedores, deixando-os descobrir  sua maneira, para viver ou morrer...

Ele mal percebeu quando arrombaram a porta e o retiraram, mas sentiu o contato gentil de Camilla em sua mente agonizante e abriu os olhos para seu rosto compadecido, murmurando, em confuso:

- Sou um velho muito tolo e sentimental... As lgrimas de Camilla caram em seu rosto.
- No tente falar. Sei por que fez isso. Comeamos a fazer juntos, na ltima vez, e depois... oh, Comandante, Comandante...

Ele fechou os olhos e balbuciou:

- Comandante do qu? - E depois acrescentou, com o ltimo alento: - No se pode aposentar um comandante.  preciso abat-lo a tiros... e foi o que eu fiz...

E depois o sol vermelho apagou, para sempre, explodiu em luminosas galxias de luz.


EPLOGO
At mesmo as longarinas da nave estelar desapareceram, levadas para as valorizadas reservas de metal; a minerao sempre seria difcil naquele mundo, e os metais, escassos por muitas e muitas geraes. Camilla, por hbito, lanou um olhar para o lugar, no mais do que isso, enquanto atravessava o vale. Andava com passos geis, era uma mulher alta, os cabelos com alguns fios brancos, seguindo uma percepo meio auditiva. Alm do alcance da viso ela via o memorial de pedra as vtimas do acidente, o cemitrio em que estavam sepultados todos os mortos do primeiro inverno terrvel, junto com os mortos do primeiro vero e dos ventos da loucura. Aconchegou-se no manto de pele, contemplando, com um pesar j to antigo que nem mais continha tristeza, uma das elevaes verdes.

MacAran, descendo para o vale pela estrada da montanha, avistou-a, envolta em peles e com a saia de tart, e levantou a mo em saudao. Seu corao ainda se acelerava ao v-la, depois de tantos anos; e, quando a alcanou, pegou suas mos por um momento e apertou-as, antes de falar.

-As crianas esto bem - disse ela. - Visitei Mhari esta manh. E voc, posso dizer sem perguntar, teve uma boa viagem. De mos dadas, eles foram andando pelas ruas de Nova Skye. Sua casa ficava no final da rua, de onde podiam avistar o Pico Leste, alm do qual o sol vermelho subia todas as manhs pelas nuvens. Ali ficava tambm o pequeno prdio que era a estao meteorolgica, a responsabilidade especial de Camilla.

Ao entrarem no cmodo principal da casa que partilhavam com meia dzia de outras famlias, MacAran tirou o casaco de pele e aproximou-se do fogo. Como a maioria dos homens da colnia que no usavam kilts, ele estava com um calo de couro e uma tnica de tart.

- Todos saram?
- Ewen est no hospital, Judy na escola, Mac foi com o rebanho. Se est ansioso em dar uma olhada nas crianas, creio que todas se encontram agora no ptio da escola, menos Alastair, que saiu com Heather esta manh.

MacAran foi at a janela e olhou para o telhado escuro da escola. Como as crianas cresciam depressa, ele pensou, e como quatorze anos a gerar crianas no constituam um peso to terrvel para a me! Os sete que haviam sobrevivido ao terrvel inverno de fome cinco anos antes cresciam cada vez mais. De alguma forma, haviam conseguido resistir s primeiras tempestades daquele mundo; e embora ela tivesse filhos de Ewen, de Lewis MacLeod e de outro cujo nome ele nunca soubera e desconfiava que a prpria Camilla tambm no sabia, as duas crianas mais velhas e as duas mais novas eram dele. A ltima, Mhari, no vivia com eles; Heather perdera uma criana trs dias antes do nascimento de Mhari, e Camilla, que jamais gostara de amamentar os prprios filhos se havia uma ama-de-leite disponvel, entregara-a a Heather para amamentar; quando Heather relutara em devolv-la depois que desmamara, Camilla concordara em deixar que Heather a mantivesse, embora a visitasse quase todos os dias. Heather era uma das desafortunadas; concebera sete crianas, mas apenas uma sobrevivera por mais de um ms depois do nascimento. Os laos de adoo na comunidade eram mais fortes que os de sangue; a me de uma criana era apenas quem cuidava dela, o pai quem a educava. MacAran tinha filhos de trs outras mulheres e gostava de todos igualmente, mas amava a estranha jovem Lori de Judy, mais alta do que Judy aos quatorze anos e ainda assim infantil e diferente, chamada de mutante por metade da comunidade, o pai desconhecido ainda um segredo para todos,  exceo de uns poucos.

- Agora que est de volta, quando partir de novo? - indagou Camilla.

Ele passou o brao por seus ombros.

- Terei alguns dias em casa primeiro e depois... partiremos em busca do mar. Deve haver um, em algum lugar deste mundo. Mas primeiro... tenho uma coisa para voc. Exploramos uma caverna, h poucos dias... e encontrei isto. No temos muito uso para jias, sei disso,  de fato uma perda de tempo extra-las. Mas Alastair e eu gostamos destas e por isso as trouxemos, para voc e as meninas. Tive um pressentimento sobre elas.

Ele tirou do bolso um punhado de pedras azuis e despejou-as nas mos de Camilla, vendo o prazer e a surpresa em seus olhos. E depois as crianas entraram correndo, e MacAran descobriu-se sufocado por beijos infantis, abraos, perguntas, reivindicaes.

- Pa, posso ir com voc para as montanhas na prxima vez? Harry vai e ele tem apenas quatorze anos!
- Pa, Alarma pegou meus biscoitos! Mande ela devolver!
- Pap, Pap, olhe aqui! Veja eu subir!

Camilla, como sempre, ignorou a balbrdia, gesticulando calmamente para que todos se aquietassem.

- Uma pergunta de cada vez... o que , Lori?

A criana de cabelos prateados e olhos cinza pegou uma das pedras azuis, olhando para os padres estelares no interior. E disse, solenemente:

- Minha me tem uma assim. Posso ter uma tambm? Acho que talvez eu consiga faz-la trabalhar como minha me.

- Claro que pode ficar com uma - disse MacAran.

Por cima da cabea da menina, ele olhou para Camilla. Algum dia, no momento oportuno para Lori, saberiam exatamente o que ela estava querendo dizer, pois aquela estranha criana nunca fazia nada sem um motivo.

- Tenho a impresso de que algum dia essas pedras sero muito importantes para todos ns - comentou Camilla.

MacAran balanou a cabea em concordncia. A intuio de Camilla j provara ser certa tantas vezes que agora ele sempre aguardava que se consumasse; mas podia esperar. Ele foi at a janela e contemplou o horizonte familiar das montanhas, sonhando alm delas com plancies, colinas e mares desconhecidos. Uma plida lua azul, como a pedra que Lori ainda contemplava, fascinada, elevou-se acima das nuvens em torno das montanhas; e a chuva comeou a cair, gentilmente.

- Algum dia - ele murmurou, distrado -, acho que algum dar s luas... e a este mundo... um nome.
- Algum dia... - disse Camilla. - Mas nunca saberemos.

Um sculo depois eles deram ao planeta o nome de DARKOVER. Mas a Terra nada soube deles durante dois mil anos.
